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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A MTV Brasil Venceu

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Logo MTV Brasil Imagem: Reprodução
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Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

06/09/2021 04h00Atualizada em 06/09/2021 11h12

A primeira vez em que entrei no prédio famoso na Rua Alfonso Bovero, em São Paulo, meu coração estava aos pulos, mas eu fazia questão de tentar aparentar naturalidade. Realmente eu não sei se funcionou; sou carioca e deslumbrada. Estava morando havia um ano em São Paulo, tentando trabalhar com audiovisual e a única coisa que eu tinha conseguido era um namorado abusivo e um trabalho de hostess num restaurante cafona onde o dono me chamava de gorda e o cardápio começava a ter pratos com nomes de celebridades. Só de ter sido chamada para uma entrevista ali já era uma vitória, uma esperança de furar a desgraça existencial que era minha vida de jovem adulta até ali.

Naquele dia, eu estava tão sem grana que minha geladeira só tinha uma latinha de cerveja, então eu desci no metrô do Sumaré onze da manhã metendo uma Skol quente pra dentro para ver se me acalmava. Fui andando e estranhei como naquela vizinhança tudo parecia vazio e calmo. Como diria o meme, "Mó Paz".

Peguei o crachá roxinho com um "smile" de visitante e subi o elevador para o quinto andar, uma redação enorme, branca e vazia. Nada parecida com a efervescência que eu imaginava ser a MTV Brasil. Uma estagiária deslumbrante se aproximou de mim, única alma viva na sala naquele momento e perguntou o que eu estava fazendo ali. Disse que tinha ido para uma entrevista para um programa novo e ela riu: era o mais paulista dos feriados, o 9 de Julho.

Alguém marcou comigo e esqueceu desse detalhe, e eu, como carioca, nem me liguei na data.

A entrevista aconteceu alguns dias depois, e aí sim o icônico quinto andar fervia. Redatores, diretores, VJs. Eu estava nervosa, e na época a diretora de núcleo conversou comigo cerca de cinco minutos antes de bater o martelo da minha contratação. Eu não sabia, mas aquele momento iria definir grande parte da minha carreira no audiovisual e da minha relação com a televisão —com certeza um dos relacionamentos mais conflituosos, felizes e duradouros da minha vida.

Muitos chamam a MTV de escola, pois dali saíram grandes talentos que estão pela indústria do audiovisual, e se vocês pensaram em nomes como Marcelo Adnet, Tatá Werneck, Marcos Mion e Sarah Oliveira estão corretos. Além deles, a MTV também criou uma massa de diretores, roteiristas e produtores que hoje estão em TVs, streamings e produtoras levando dentro do coração um modo de produção que, apesar de ser impossível de ser reproduzido, ainda norteia muitos de nós.

E como era esse modo de produção?

Privilegiava a agilidade, o desejo e a execução. Era comum ver uma estagiária se tornando VJ ou um redator pedindo para virar diretor porque teve uma ideia, e nada disso era negado: era, no mínimo, testado. Errar era comum, arriscar era comum, dar com os burros n'água também e, eventualmente, acertar.

E isso aconteceu comigo. Quando disse que queria sair da produção para escrever, a minha chefe perguntou o que eu já tinha escrito. E eu disse que, para a TV, nada, mas que queria aprender —e foi assim que eu assinei o meu primeiro programa de TV.

Recentemente, um amigo que também trabalhou lá disse que toda emissora deveria ter uma pequena MTV, uma "brinquedoteca" audiovisual onde pessoas criativas podiam testar qualquer bosta com muita alegria e zero compromisso de emplacar. Não posso concordar mais.

Ex-VJs relembraram os velhos tempos da MTV Brasil no 'Oi, Sumido'; assista

Sair da MTV foi uma decisão dolorosa —mas acertada. No interior do ovo da utopia, há sempre uma distopia pronta para eclodir. A gente ganhava mal, vivia de fatia de pizza da Padaria Real (que não vendia um pão), trabalhava madrugada adentro já sem direitos trabalhistas, e a minha geração de funcionários e colaboradores testemunhou esse modelo criativo feliz morrendo.

Rapidamente, nossa brinquedoteca se transformou em um prédio vazio, com muitas betacams e minidvs empoeiradas guardando uma parte importante da história da TV brasileira e nós, os órfãos, fomos nos espalhando pelo mundo.

Assistir a Marcos Mion apresentando uma versão repaginada dos "Piores Clipes" nos sábados da Rede Globo é a face mais visível de um fato. Provavelmente os programas a que você assiste hoje na TV —como o "Lady Night", o "BBB", o "Caldeirão", séries e filmes de humor nacionais que fazem sucesso nos streamings, o programa de bate-papo fofo na TV a cabo, ou até mesmo os podcasts que fazem o seu coração bater mais forte—, têm algum maluco que passou pelo predinho da Alfonso Bovero entre 1990 e 2013. E esse maluco sempre que cria um programa novo consegue voltar lá emocionalmente —naquele quinto andar onde fazer TV parecia muito com ser criança novamente.

Para saber mais sobre essa ex-funcionária da MTV Brasil e old millennial emocionada: Instagram e Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL