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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Reencontro de "Casamento às Cegas" é sessão de BDSM sem sexo

Cameron e Lauren, únicas pessoas felizes de Casamento às Cegas - Instagram/Reprodução
Cameron e Lauren, únicas pessoas felizes de Casamento às Cegas Imagem: Instagram/Reprodução
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Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

02/08/2021 07h21

O reality show "Casamento às Cegas" em sua primeira temporada cumpriu com louvor a função de um bom programa no gênero: constrangeu o espectador até o talo com uma premissa absurda: jovens homens e mulheres deveriam ter encontros às cegas, separados por uma parede e ao final do programa, casar. Sim, casar legalmente, no papel, com festa.

Quatro casais chegaram ao pedido: Jessica e Mark, Amber e Barret, Damien e Giannina e Lauren e Cameron. Dois anos depois, pudemos assistir em três episódios especiais o destino dos participantes.

Assistir não é bem o termo. A forçação de barra, os cílios postiços do tamanho de marquises e a completa falta de noção e auto-preservação dos participantes que eram charmosos e engraçados na primeira temporada se tornaram uma sessão de tortura onde mulheres jovens e bem sucedidas não tem o menor pudor em demonstrar uma obsessão injustificada com machos horríveis e onde esses boys feios espalham comportamento tóxico como se fossem um fumacê carioca tentando matar mosquito da dengue.

De forma sintomática, dois homens não compareceram: Carlton, que ao se revelar bissexual foi expelido do programa como uma espinha e Mark, que se escondeu de tomar uma surra ao ser confrontado pelas mulheres que enganou.

Na primeira temporada de Casamento às Cegas homens e mulheres pareciam estar numa artificial condição de igualdade pelas regras absurdas do jogo; agora parece que voltamos um século atrás e vemos uma Amber obcecada com ter bebês enquanto o marido se esquiva; Giannina achando que namora Damian que sequer admite que está em um relacionamento; Jessica se humilhando para os Barret e as revelações que o bonzinho Mark era um roteador de Covid, doença venérea e desgraçamento mental. Ou seja, ser mulher no universo de Casamento às Cegas é de uma pobreza existencial exuberante.

Os produtores são sádicos, e nós, espectadores, masoquistas amarrados na frente da tela, nos contorcendo de puro sofrimento com aquela locação de piso feio, com aquela festa pessimamente decorada, numa cobertura com vista sem graça onde os dramas parecem produzidos na mais pura base da incredulidade.

Netflix, da próxima vez que for me maltratar, pelo menos aumenta o orçamento.

Para saber mais da minha indignação com reality shows você pode me encontrar no Twitter ou no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL