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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI é entretenimento ruim, mas inevitável

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello em depoimento na CPI da Covid - Sergio Lima/AFP
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello em depoimento na CPI da Covid Imagem: Sergio Lima/AFP
Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

24/05/2021 13h00Atualizada em 24/05/2021 13h35

Basta dar uma voltinha pelas principais redes sociais e em conversas nos grupos de WhatsApp: a CPI da Covid é o assunto mais comentado do momento. Os memes brotam nos celulares como mato, e os termos relacionados à investigação cresceram nas plataformas de busca, superando inclusive os números até então imbatíveis dos realities. Não tem para ninguém: "No Limite", "Power Couple" ou "De Férias com o Ex" são apenas uma sombra pálida no coração do brasileiro que prefere assistir às peripécias de Renan Calheiros do que qualquer subcelebridade de sunga batendo boca.

Para um produto de entretenimento dar certo ele precisa ser uma mistura perfeita entre surpresa e previsibilidade.

Cada bom programa é como uma comemoração de Natal fora de época. As grandes tradições são mantidas: a árvore decorada, o especial do Roberto, a treta da família, o peru recheado. Mas em cada embalagem de presente aberta a gente pode ganhar um par de meias ou um diamante, e o mais importante, no dia 26 de dezembro, uma história para contar. Gostamos dos bordões dos jurados dos programas de calouros, mas também da surpresa de ver uma vovozinha frágil cantar com o vozeirão de uma diva do blues.

A CPI da Covid não entrega nem uma coisa nem outra. A familiaridade amigável se transforma em síndrome de Estocolmo. Nos apaixonamos por velhas raposas que já nos morderam no passado, e a grande surpresa é ver novos canalhas sendo mais canalhas ainda.

Conformado e sem alegria, o brasileiro deixou a GloboNews e a TV Senado ligadas o dia inteiro na esperança de uma reviravolta que está cada vez mais longe de acontecer.

Os responsáveis pela tragédia na condução da pandemia usam da cara de pau e do cinismo em seus depoimentos. Entre uma tremida e uma síncope, parecem debochar do espectador. Eles saem do Senado usando suas máscaras ineficazes e com a certeza da impunidade. No outro dia voltamos, como se existisse a possibilidade de um resultado diferente.

O fato de estarmos lidando com uma CPI como se fosse entretenimento barato, elegendo vilões, mocinhos e lacres, é o sintoma triste de um Brasil onde a ficção e o auditório não estão mais dando conta de nos descolar do absurdo que é viver em luto permanente. Sem perspectiva de sair da crise moral, sanitária e política em que nos metemos, sem o poder de salvar a nós mesmos e as pessoas que amamos, talvez a única alternativa seja rir das figuras no poder, sem sequer esperar o resultado favorável da ficção: catarse coletiva, humor e principalmente a volta da normalidade do nosso mundo ordinário onde comprar vacinas e combater pandemias mortais seria o comum.

Em uma situação normal, o espectador é soberano e, apertando um botão, pode fugir da novela chata ou de um jogo de futebol monótono. Podemos escapar de uma realidade insatisfatória para uma outra, onde recebemos as emoções que queremos, da maneira que precisamos.

Nesse caso, os homens sem charme e com pouca inteligência vestindo ternos mal cortados não sairão algemados no fim do episódio "Law & Order: O Brasil Tá Lascado". Mas nós estamos presos com eles nesse programa ruim, sem perspectiva de acabar. E, infelizmente, para fugir desse show de horrores não basta mudar de canal.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL