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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma feminista ruim no oscar

Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro “Vaca e Outras Moças de Família” (Ed. Patuá), da peça “A Fábrica de Cachorros”, e do documentário “Clandestinas”, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos “Como Não Ser Um Machista Babaca”. Escreveu a série “Perrengue” (MTV) e foi roteirista dos programas “Greg News” (HBO), “Tá no Ar” (Rede Globo) e “Fora de Hora” (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro “Mulheres Fantásticas” e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

26/04/2021 04h00Atualizada em 26/04/2021 13h47

Talvez eu seja uma Má Feminista, assim como a escritora Roxanne Gay. No livro de mesmo nome, a autora norte-americana mapeia o que seria um feminismo ideal, um pacote militante e que qualquer mulher que saia dessa linha comportamental seria uma feminista ruim, um desserviço ao movimento.

Para ser uma feminista ideal uma mulher não pode ter contradições, como por exemplo, consumir pornografia ou gostar de se sentir desejada sexualmente. Porém o maior pecado de uma feminista ruim é, talvez, nadar contra a corrente de uma opinião hegemônica sobre uma vitória cultural das mulheres.

Ontem foi a noite de premiação do Oscar, e talvez hoje eu seja essa mulher feminista criticável por não estar soltando fogos de artifícios pelos números históricos de indicações de mulheres em categorias principais.

Ano após ano me acostumei a assistir essa ausência de mulheres. Tão acostumada que estava que fui abandonando a premiação. Como artista jovem, ela não me interessava mais. Selecionava poucos filmes que combinavam com as minhas inquietações humanas e artísticas, mas nunca tive nenhuma emoção ao ver a estátua ir para esse ou aquele filme.

E esse não era um comportamento meu. A premiação foi perdendo audiência, interesse em certo ponto no final dos anos 1990 e primeira metade dos anos 2000 era mais comum saber do Oscar através dos programas que cobriam o tapete vermelho.

O mundo mudou, e uma indústria que movimenta bilhões de dólares não seria estúpida de não acompanhar essas mudanças. Ficou insustentável manter a relevância sem trazer mulheres, a comunidade LGBTQ+ e criadores negros, latinos e asiáticos. E esse movimento tem ficado mais evidente ao longo dos anos.

Agora eu não estou mais exausta da absoluta ausência de mulheres, mas ano após ano a premiação esfrega na minha cara que em pleno século 21 minorias políticas ao serem indicadas são pioneiras. A cada matéria celebrando "a primeira mulher a concorrer" ou "a única mulher a concorrer" é a minha cara sendo esfregada numa realidade dura de engolir: esse espaço conquistado a duras penas com muita luta política ainda é considerado uma concessão para a maioria dos membros da Academia.

A presença de mulheres ainda espanta e é considerada mais que uma exceção, um excesso.

Olhando a lista de melhor direção ou de melhor filme, por exemplo, é impossível não notar a ausência de Regina King com "Uma Noite" em Miami ou de Eliza Hitmann por "Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre" —filmes que performaram muitíssimo bem em outras premiações e festivais e que foram estranhamente ignorados para que obras bem mais tediosas de homens estivessem na lista.

Não basta ser uma mulher talentosa. Você tem que ser talentosa e também apresentar uma espécie de feminino que serve ao propósito de ser adequadamente feminista para a academia. Regina King falou de homens negros. Eliza Hitmann de adolescentes white trash indo fazer um aborto. Talvez não sejam os assuntos que mulheres devam falar para serem indicadas. Talvez feministas ruins demais.

São décadas de apenas homens indicados nas categorias principais e parece escandaloso admitir que os melhores filmes de 2021 foram feitos por mulheres e que poderíamos ter tranquilamente apenas mulheres indicadas esse ano. O que seria deixar de fora um Aaron Sorkin mais do mesmo ou um David Fincher chatíssimo? Talvez o eixo da terra se inverta.

Para Roxane Gay outras características de uma má feminista são: não estar satisfeita, não ter humor, e estar em um estado permanente de raiva. Eu realmente deveria estar muito contente com as vitórias de Chloé Zhao e Emerald Fennell. Mas não consigo deixar de estar irritada por mulheres como elas estarem sendo premiadas só agora, e por todas as outras que, mesmo com talento inegável e conduzindo histórias arrebatadoras, simplesmente ficaram para trás.

Para saber mais sobre mim você pode me encontrar no Instagram ou no Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL