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Marcelle Carvalho

REPORTAGEM

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'Ela não vai me parar', diz Dani Moreno sobre doença degenerativa

Dani Moreno, atriz - Reprodução/Instagram @dani_moreno
Dani Moreno, atriz Imagem: Reprodução/Instagram @dani_moreno
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Marcelle Carvalho

Marcelle Carvalho é jornalista que cobre, há duas décadas, o universo da televisão. Suas maiores paixões são novelas e séries, que serão abordadas aqui a partir da visão de quem vê e de quem faz.

Colunista do UOL

23/09/2021 04h00

Conversar com Dani Moreno é ter uma aula de como lidar com as adversidades sem perder a esperança e a leveza no tom da voz. O que é admirável, já que a atriz, recentemente, descobriu ser portadora da Espondilite Anquilosante (EA), doença grave autoimune e degenerativa. O paradoxo da história é que o diagnóstico foi libertador para ela, que desde criança, vem sofrendo com inflamações pelo corpo sem saber a causa. Corajosa, compartilhou na sua rede social, toda a luta que trava contra a enfermidade, que afeta os tecidos conjuntivos, inflamando as articulações da coluna, quadris, ombros e outras regiões do corpo.

Eu não sabia que tinha. Descobri há três semanas, duas depois de perder minha mãe. Ela morreu dia 21 de agosto e eu descobri no dia 3 deste mês. Foi uma porrada dupla. A vida toda tive um processo inflamatório no meu corpo muito grande e repetitivo. Era aquela criança que estava sempre com uma dor de ouvido, garganta, que vivia tendo que destravar o pescoço devido a um problema na coluna. Com 7 anos, usava um colar cervical. Além do quadro de infecção urinária, dos 17 aos 34 anos, e os alimentos que comia sem saber que me causavam inflamação", relata a atriz, de 35 anos.

Há seis meses, após uma dor nas costelas de endoidecer gente sã, que a levou ao hospital e à receitas de anti-inflamatórios, Dani teve o diagnóstico através de sua reumatologista.

Ela me pediu uma batelada de exames de sangue, um genético e uma ressonância do meu sacro-ilíaca. Com os resultados na mão, ela matou a charada: tenho marcador genético dessa doença, estava com uma sacroileite e meu sangue estava inflamado. Então, ela disse: 'Dani, sinto muito, você tem Espondilite Anquilosante', conta a artista.

Porém, a atriz avisa que apesar de ser uma doença muito complicada, ela teve a sorte de descobrir após cinco meses de ela se manifestar com tal força.

Para se desenvolver nesse grau precisa de um gatilho, seja emocional ou físico. Tem gente que demora 5 anos para ser diagnosticado e quando descobre, está com sequelas por resto da vida. O que você perde com essa doença não recupera", afirma.

Quando o corpo se auto sabota

Dani não sabe ao certo o qual foi o estopim para enfermidade querer tomar conta dela, mas reconhece alguns sinais de que esse momento estava chegando.

Há meses eu falava pro meu marido (o ator José Trassi) que estava cansada, chorava de cansaço... Porque a minha cabeça é ligada no 220v, mas o corpo não acompanha. É uma sensação horrível. O imunossupressor vai me dar de volta. Ele vai parar esse processo.

Nem mesmo todo o poder da feiticeira Aolibama, de "Gênesis", livrou sua intérprete de ter seu corpo atacando a si mesmo. Basicamente, Dani diz que seu corpo não reconhece mais sua coluna como parte dele e, portanto, está tentando expulsá-la.

É por isso que os médicos chamam de dor da morte, porque é horrorosa. Meu corpo está tentando matar uma parte dele. É isso que a doença autoimune degenerativa faz", lamenta.

Ao mesmo tempo, a atriz se enche de esperança com o tratamento.

A gente tem injeções e remédios biológicos, os imunossupressores, que estagnam a doença. Ela para de evoluir. Quando eu começar a tomá-los, eles vão neutralizar todas as células de defesa do meu corpo, ou seja, ficarei um pouco mais suscetível a vírus e bactérias. Mas já está em desenvolvimento uma injeção que vai atingir as células que estão atacando exclusivamente a articulação afetada pela doença."

Como ainda não tomei, vou começar em breve, eu estou medicada com antidepressivo, anticonvulsivo, anti-inflamatório, que não está mais funcionando, por isso estou tomando corticoide, e canabidiol, o naturalzinho para me dar uma relaxada a noite para eu poder pegar no sono. Esse é meu processo."


A saga pela vacina

A injeção para controlar a EA não é nada em conta. Custa R$ 10 mil, segundo Dani. O bom é que ela terá acesso através do SUS. Mas para isso ela tem que passar por mais testes.

Falta mais um exame que é o raio X. Eu preciso comprovar que nunca tive contato com o bacilo da tuberculose. Como minha imunidade estará debilitada, seu eu tomar o imunossupressor e tiver um bacilo da tuberculose em mim, ele se manifestará. E aí a coisa fica muito séria. Então, pra solicitar a medicação no SUS, tenho que comprovar", conta a artista.

Fiz uma primeira parte que deu negativo, mas preciso fazer um raio x amanhã (hoje) e retorno à reumatologista na próxima sexta-feira (01/10). De lá, saio com a papelada e dou entrada no SUS para conseguir a medicação, que custa mais de 10 mil cada injeção e eu preciso de duas por mês pro resto da minha vida", diz, ansiosa.

Humanidade e empatia

O desabafo de Dani sobre a doença em sua rede social significou bastante para muitas pessoas. Todavia, há quem a questionou por expor algo bem íntimo. Ao que ela respondeu

Gente, do que me adianta ter mídia, visibilidade e não poder usar. Estamos em um país em que as pessoas têm uma dificuldade absurda para tratamento médico e informação, duas coisas elitizadas. Por que não falaria disso, não colocaria a minha imagem em função de algo bom? Que eu possa dar força para quem está passando por isso ou está descobrindo junto comigo. Não faz sentido ter o que tenho nas redes sociais, na TV se eu não puder usar pra algo que faça bem pra outra pessoa", garante.

Fato é que o diagnóstico de EA mexeu com as atitudes de Dani, que sente ter se tornado uma pessoa melhor. Palavras da própria atriz.

Já era uma pessoa muito conectada com as minhas sensações físicas, até porque estava sempre com alguma coisa inflamada no corpo. Mas essa doença me fez entrar numa coisa de exercício, de consciência muito maior. Eu tenho me sentido mais calma. Pra mim, pelo menos, despertou coisas muito boas. Não estou romantizando não, tá? É obvio que a dor é horrorosa, muito cruel, doença violenta. Mas se eu não usasse esse momento pra me entender, me conectar, entender da onde vem essa ancestralidade de doença, pq ela veio parar em mim tão cedo e como posso fazer para pará-la. Comecei a questionar a importância das coisas na minha vida.

Na esteira do questionamento, a artista, que já valorizava o outro, passou a dar três vezes mais importância:

Não estou feliz com lado da doença, não achei legal a vida me ensinar isso através da dor. Estou usando isso da melhor maneira possível, sem romantizá-la, mas colocando-a no devido lugar, mostrando que quem manda aqui sou eu e que a doença não vai me parar."