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Marcelle Carvalho

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Segunda Chamada' dá visibilidade aos moradores em situação de rua

Lúcia (Débora Bloch) no centro e os novos rostos de "Segunda Chamada": na frente: Leandro (Tamirys O"hanna), Néia (Rejane Farias) e Hélio (Ângelo Antônio). Atrás: Evelyn (Nataly Rocha), Palito (Gustavo Luz), Valdinei (Pedro Wagner) e  Sandro (Flavio Bauraqui) - Maurício Fidalgo/Rede Globo/Divulgação
Lúcia (Débora Bloch) no centro e os novos rostos de 'Segunda Chamada': na frente: Leandro (Tamirys O'hanna), Néia (Rejane Farias) e Hélio (Ângelo Antônio). Atrás: Evelyn (Nataly Rocha), Palito (Gustavo Luz), Valdinei (Pedro Wagner) e Sandro (Flavio Bauraqui) Imagem: Maurício Fidalgo/Rede Globo/Divulgação
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Marcelle Carvalho

Marcelle Carvalho é jornalista que cobre, há duas décadas, o universo da televisão. Suas maiores paixões são novelas e séries, que serão abordadas aqui a partir da visão de quem vê e de quem faz.

Colunista do UOL

08/09/2021 16h14

"Segunda Chamada" é uma daquelas séries necessárias, justamente, por abordar a questão da educação pública, mais precisamente o ensino noturno de jovens e adultos, tão sucateado em nosso país. A realidade nua e crua que vemos nas histórias é o que nos aproxima da série, que chega ainda mais verdadeira na segunda temporada. Com a estreia marcada para o dia 10, no Globoplay, o foco, dessa vez, será nos moradores em situação de rua e a possibilidade de eles resgatarem a dignidade através da educação.

Na primeira temporada, falamos de personagens precários economicamente. Nesta, abordaremos uma realidade ainda mais dura, pessoas mais desassistidas. A escola é um lugar de ensino e aprendizado, mas também de resgate da cidadania. A pessoa em situação de rua além de buscar uma nova chance, busca seu direito mais básico, porque muitas vezes não tem uma identidade, uma certidão de nascimento para fazer matrícula. É um recomeço para além da educação, é um resgate da dignidade", afirma Carla Faour, uma das autoras da série.

Julia Spadaccini, que escreve junto com Carla, completa:

Os moradores em situação de rua ainda trazem temas maiores como a fome, o frio, a higiene básica... Mostraremos mais o extremo, o impacto em quem tem o mínimo daqueles que nem o mínimo tem. Porque vai ter rejeição de alunos e outros professores a chegada deles. E Lúcia quer provar que vai dar certo".

A autora se refere ao fato da professora ser a responsável por essa transformação na escola. Na série, o curso noturno está prestes a fechar por falta de alunos, e Lúcia consegue sanar este problema ao convencer moradores em situação de rua a estudar. E isso, claro, vai gerar uma série de conflitos dentro e fora da escola.

Mas esta professora é danada mesmo, hein?

É sim, e ela está ainda mais comprometida com a escola e os alunos nesta temporada. Débora Bloch, intérprete da professora, conta que os problemas pessoais que ela tinha na primeira edição, de certa forma, foram resolvidos. Portanto, ela começa o novo ano letivo zerada.

Ela tinha a tragédia da morte do filho que contaminava todas as suas relações, na escola inclusive. De certa forma, Lúcia chega agora com a dor da perda apaziguada, apesar de eu achar que é algo que não se livra nunca. Até por isso, ela tem essa relação passional com os alunos, a escola, a vocação de professora que vai além de cumprir o currículo escolar. Lúcia não vai deixar que a escola feche e busca nos moradores em situação de rua a solução", diz Débora.

Com isso, a professora dá uma movimentada na escola. O que para a atriz vai mais além.

A série dá protagonismo para uma população que é invisível. As pessoas passam por ela e nunca olham. Colocá-las na frente das câmeras é humanizá-las", acredita a artista, emocionada ao relatar o quanto tem aprendido com a mestra.

Lúcia me ensina muito. É a personagem mais especial da minha carreira. Com ela, pude estar mais próxima do ensino público, da periferia, estar por tanto tempo em lugares precários. Isso foi transformador para mim. Ela me aproximou das professoras da EJA (Educação de Jovens e Adultos) que eu nem conhecia, me levou a assistir essas aulas, a saber das histórias dos alunos. Não tem como não sair mexida com tudo isso".

O fato de ser uma obra profundamente realista, gente, é que traz a reflexão. Como sair de uma gravação embaixo de um viaduto sem ficar pensando nas pessoas em situação de rua que moram ali e estavam vendo atores vivendo suas vidas bem diante de seus olhos?

A gente sofre. É difícil voltar para casa sabendo que as pessoas vivem daquela maneira. Passar meses convivendo com aquela precariedade e perceber que o poder público não chega lá mesmo. É revoltante!", brada Débora.

E no meio do caminho tinha uma pandemia...

A gente já foi - e ainda é - privado de tanta coisa boa por conta dessa pandemia e quase ficamos também sem "Segunda Chamada". A série teve as gravações interrompidas por duas vezes e a diretora, Joana Jabace, relata que de março a setembro de 2020 não sabiam o que iria acontecer com a produção.

Começamos a gravar em janeiro de 2020 e em março tivemos que parar. Achávamos que seriam por dois meses, mas... Só no fim do ano passado conseguimos retomar um protocolo de filmagem. A pandemia ainda está aí, mas para o audiovisual as coisas estão diferentes do que há um ano. Sabemos que com protocolos rígidos conseguimos filmar. É um alívio, uma esperança continuar nosso trabalho apesar da pandemia".

A nova conduta, meu povo, foi pra lá de rígida como deveria ser para que o barco pudesse ser tocado cm segurança.

A testagem com antígeno era feita diariamente na equipe de 150 pessoas. Tinha zona vermelha, só entrava quem ficava mais próximo dos atores, porque eles estavam sem máscara. Fazíamos também duas vezes por semana o PCR. Toda a equipe usava máscara PFF2, havia a sanitização ao fim das gravações, toda a refeição já vinha embalada e destinada a cada um de nós", conta Joana, que comemora não ter havido nenhum caso de contaminação no set durante as gravações.

É natural, portanto, que a equipe tenha trabalhado com um misto de incerteza e apreensão até o fim da produção. Mais normal ainda a reação da diretora ao entregar, nesta terça-feira, o último episódio da segunda temporada finalizado.

Eu tive uma crise de choro e não conseguia parar! A pandemia transformou tudo, a forma de lidarmos no set, não dava para falar no ouvido de um ator, tinha manter distância. Foi duro. Porém, nosso objetivo foi cumprido, que era colocar essa série no ar e estamos muito satisfeitos com o resultado", diz Joana, orgulhosa.