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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desaceleração de Netflix e HBO é ótima notícia para usuários de streaming

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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

24/10/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Netflix e HBO divulgaram resultados do terceiro trimestre de 2021; números desapontaram analistas que tinham expectativa maior
  • Diante de diversos lançamentos de grande sucesso como Round 6, o esperado era que mais pessoas assinassem os serviços de streaming
  • Mas os usuários trocam e cancelam assinaturas com mais frequência para economizar, e cada vez mais priorizam atrações, não plataformas
  • O movimento faz com que as plataformas de streaming aumentem os investimentos em conteúdo para garantir a produção de novos grandes sucessos
  • Conteúdos que se tornem fenômenos culturais como Round 6 ou grandes estreias como o filme Duna passam a ser cada vez mais importantes
  • Mercados internacionais são cada vez mais importantes para o Netflix e seus concorrentes; Brasil é destaque, mas Ásia é a grande oportunidade

Após o surpreendente sucesso de Round 6, a série coreana que se tornou a atração mais vista na história do streaming, a expectativa era grande em torno do crescimento da Netflix no último trimestre. Mas os números anunciados semana passada pela empresa mostram que a recuperação do pós-pandemia será mais desafiadora do que se imaginava.

Round 6 contribuiu positivamente para todos os números da Netflix, que adicionou cerca de 4,4 milhões no terceiro trimestre, 25% a mais do que havia previsto. Os novos assinantes, principalmente de fora dos EUA, levaram a base total da Netflix para 213,6 milhões de assinantes no mundo. Mas o crescimento frustrou alguns analistas de Wall Street que diante do sucesso de Round 6 imaginavam resultados ainda melhores. De todo modo, as ações da empresa encerraram a semana com alta de 5,8% e chegaram ao seu maior valor histórico.

Para os pessimistas, a projeção da empresa de adicionar apenas 8,5 milhões de novos assinantes no quarto trimestre deste ano seria baixa. É basicamente o mesmo número de novos assinantes do quarto trimestre dos últimos três anos. O número decepciona porque a Netflix vai lançar diversas aguardadas atrações no período. Sucessos como The Witcher, You e Tiger King, que estão entre os dez shows mais assistidos da empresa em todos os tempos, estão entre os lançamentos da plataforma entre outubro e dezembro.

Ou seja, mesmo com diversas novidades "arrasa quarteirão", a Netflix precisa realizar um esforço cada vez maior para atrair e reter assinantes. Por trás do fenômeno está a chegada de muitos, e bons, novos concorrentes no mercado de streaming, o que torna cada vez mais difícil atrair e reter assinantes. No Brasil, a guerra têm-se intensificado. A Star+ desembarcou no país e o Amazon Prime tem investido fortemente em conteúdo local, levando diversas estrelas da Globo como Lázaro Ramos rumo ao streaming.

Mais horas de atrações do que tempo livre

O número de horas do dia é limitado e a oferta de atrações no streaming nunca foi tão grande. Ao mesmo tempo, assinar todos os serviços é uma despesa alta. Assim, a maioria dos assinantes acaba fazendo um rodízio de plataformas. Assina por alguns meses uma, muda para outra e assim "pula" de uma para outra, já que o processo de cancelamento é fácil e barato se você não tem uma assinatura anual.

A Netflix anunciou que lançará métricas específicas dos títulos com mais frequência entre os relatórios trimestrais, como fizeram com Round 6. No futuro, a empresa irá reportar essas métricas na forma de horas visualizadas versus número de contas. Isso é mais semelhante com a forma como os provedores de análise de audiência, como a Kantar Ibope, exibem dados e permite que a Netflix contabilize quem assiste mais de uma vez a uma atração. A maneira como a Netflix media sua audiência há anos era alvo de críticas.

Em uma atualização sobre sua iniciativa de lançar jogos na plataforma, a Netflix observou em sua carta aos acionistas que eles começaram a testar jogos em países selecionados, embora "ainda seja muito cedo para avaliar". Durante o trimestre, a Netflix adquiriu a desenvolvedora e editora de jogos Night School Studio.

Streaming atrapalhava gigante de telecom

As mudanças na Netflix são um reflexo da entrada dos novos concorrentes e do desafio de competir no streaming. A WarnerMedia, dona da HBO Max, que meses atrás chegou ao Brasil, é um dos novos concorrentes da Netflix. A gigante de telecomunicações AT&T, dona da WarnerMedia, por sua vez dona da HBO, divulgou semana passada seus resultados.

Após vender boa parte de seus negócios de entretenimento, incluindo a WarnerMedia, a participação na DirecTV e as operações de cabo na América Latina, a AT&T reportou crescimento e teve seu maior salto em clientes de celular em mais de uma década durante o terceiro trimestre. Aparentemente, voltar as atenções para a telefonia celular, seu principal (e mais rentável) negócio, e deixar de lado as empresas de mídia, foi uma boa ideia para AT&T.

Já a HBO Max reportou queda de assinantes. O negócio encerrou setembro com 45,2 milhões de assinantes da HBO e HBO Max nos Estados Unidos, contra 47 milhões três meses antes. A explicação para a brusca queda foi o fim da parceria da HBO com o Amazon Prime.

HBO na contramão do Globoplay

A WarnerMedia disse ter encerrado a parceria com a Amazon para passar a ter controle dos dados e informações de faturamento dos assinantes da HBO. Curiosamente, a WarnerMedia caminha no sentido contrário do Globoplay, que este ano fechou um acordo com o Amazon Prime para disponibilizar seu conteúdo do Premiere na plataforma de streaming da Amazon.

Globalmente a HBO atingiu 69,4 milhões de assinantes, acima dos 67,5 milhões no final do trimestre anterior. Os ganhos vieram da América Latina, onde a plataforma estreou recentemente. O crescimento por aqui compensou com folga a queda no mercado americano.

Os resultados da Netflix e HBO deixam claro que o crescimento do streaming está cada vez mais fora dos Estados Unidos, e mercados como o Brasil serão chave. A AT&T disse que espera atingir entre 70 milhões a 73 milhões de assinantes da HBO após o lançamento do serviço de streaming em partes da Europa no final deste ano.

Ruim para empresas, bom para os usuários

Por que as notícias de um mercado cada vez mais desafiador e dificuldade de crescimento são uma boa notícia para os usuários? Basicamente, porque as empresas querem seguir crescendo e a melhor maneira de fazer isso é produzindo grandes sucessos.

Enquanto a Netflix investe somas cada vez maiores em sucessos como A Casa de Papel e acelera o ritmo de novas produções em mercados internacionais como a Coreia do Sul, a HBO Max acelerou o ritmo de lançamentos e boa parte de seus filmes já chega simultaneamente aos cinemas e ao streaming.

Recentemente, a HBO lançou The Many Saints of Newark, baseado na série Família Soprano. O aguardado filme Duna, chegou semana passada aos cinemas e ao streaming americano na mesma data. A espetacular série Succession voltou para sua terceira temporada na plataforma e uma nova versão de Matrix está a caminho.

HBO Max ou Netflix?

Se tivesse de escolher entre HBO Max e Netflix para assinar este mês, eu não pensaria duas vezes em priorizar o HBO Max (apesar da experiência no app ainda inferior em comparação com a Netflix). Não devo ser o único e a Netflix sabe disso, por essa razão projeta números conservadores de crescimento e investe cada vez mais em produções.

A WarnerMedia anunciou que, após sua união com a Discovery, planeja investir mais de R$ 110 bilhões em conteúdo em 2021. O número é superior aos R$ 108 bilhões que a Netflix previu investir este ano. Em breve, no seu streaming, produções ainda maiores e mais espetaculares.

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