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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Army of The Dead é ruim, mas deve definir futuro de blockbusters da Netflix

Army of the Dead: o colchão de solteiro é pior que os zumbis - Reprodução / Internet
Army of the Dead: o colchão de solteiro é pior que os zumbis Imagem: Reprodução / Internet
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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

23/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Army of the Dead é uma tentativa da Netflix de criar um "kit franquia" para suas grandes produções
  • Produções como "Stranger Things" e "Enola Holmes" fazem sucesso, mas não são grandes franquias
  • Serviços de streaming como Netflix, Amazon Prime e Apple TV+ tem dificuldades de criar franquias de destaque
  • A Disney é líder de franquias não somente porque tem os melhores personagens e décadas no mercado, ela é a melhor em contar histórias
  • O lucro dos parques e resorts da Disney está diretamente relacionado à capacidade dos filmes da companhia de atrair e manter fãs apaixonados

Quando uma cama de solteiro parou o herói interpretado pelo grandalhão Dave Bautista, eu desisti completamente de "Army of the Dead", novo filme do diretor Zack Snyder, lançado pela Netflix. Como disse o colunista Roberto Sadovski, 'Army of the Dead' é uma coleção de boas ideias que não funcionam juntas.

Mas por que "Army of the Dead" é tão importante para a Netflix? Basicamente, porque esse será o kit franquia da empresa. Um modelo usado para lançar grandes produções que devem dar origem a diversos outros produtos fazendo os personagens viverem (dando lucro) por muitos anos, como acontece com as franquias "Star Wars" e os heróis Marvel, da Disney; "Velozes & Furiosos" e "Jurassic Park", da Universal; além de "Game of Thrones", e os personagens da DC, da WarnerMedia.

"Stranger Things" e "Enola Holmes" fazem sucesso, mas estão longe de ter a escalada das grandes franquias. O mesmo se pode dizer de shows de players de streaming nativos digitais como Amazon Prime e Apple TV+, que ainda não estabeleceram produções próprias com status de franquia.

Com "Army of the Dead" a Netflix quer mudar essa história. O filme foi lançado em 600 cinemas semana passada antes da estreia da produção na sexta-feira, na Netflix. É um recorde para uma produção da empresa. Mesmo antes da estreia, já estava sendo produzido outro filme da história, "Army of Thieves", previsto para ser lançado ainda esse ano, além da série animada "Army of the Dead: Lost Vegas".

Matthias Schweighöfer, ator e diretor reconhecido na Alemanha, interpreta o personagem Dieter, encarregado de abrir o cofre em "Army of the Dead". Schweighöfer dirigiu e estrelou "Army of Thieves", que foi filmado em toda a Europa durante dois meses. O filme, uma pré-sequência (prequel) de Army of the Dead, traz diversos atores internacionais e uma história sobre ladrões que se aproveitam da crise financeira causada pelos zumbis nos Estados Unidos.

Também haverá no segundo semestre o lançamento de uma experiência de realidade virtual em diversas cidades onde quem comprar os ingressos poderá dirigir um caminhão de tacos até Las Vegas lutando contra zumbis.

Internacionalizar as franquias e criar experiências no mundo real ajudará a Netflix a seguir atraindo novos assinantes, além de possibilitar novas fontes de receita.

Propriedade intelectual e fãs apaixonados

Para a Netflix, criar um modelo de franquia é um desafio que vai além do número de lançamentos, velocidade de produção e desenvolvimento de atrações ligadas à história no mundo físico. Esses elementos são fundamentais, mas são apenas parte da equação.

A Disney é líder de franquias não somente porque tem os melhores personagens e décadas no mercado. A verdade é que ela sabe contar boas histórias. Seus filmes de heróis da Marvel são consistentemente melhores que os filmes da 21st Century Fox e Sony, mesmo quando tem os mesmos heróis disponíveis, como o Homem-Aranha.

Até os concorrentes reconhecem isso. Em 2016, o diretor de cinema da Sony disse: "Adiamos a liderança criativa (do Homem-Aranha) para a (Disney), porque eles sabem o que estão fazendo". Outro exemplo, a Fox distribuiu Star Wars por 35 anos, mas foi para a Disney que George Lucas vendeu a franquia. O diretor e criador de Star Wars nem ofereceu a franquia a outras empresas por acreditar que a Disney era a mais capaz de perpetuar a história.

A Disney é imbatível no quesito franquias, mas o streaming começa a gerar rupturas até mesmo para ela. O estúdio cinematográfico da Disney teve quase o dobro da receita e três vezes a margem de lucro de seu segundo concorrente em 2019. Mas a divisão de parques da Disney gerou mais do que o dobro da receita e do lucro de sua divisão de estúdios. Entretanto, como destaca o analista Mattew Ball, "o futuro da Disney, por sua vez, depende de uma plataforma de vídeo direto ao consumidor (o Disney+) que está crescendo principalmente por meio de séries de televisão, não de filmes".

O lucro dos parques, resorts e cruzeiros da Disney está diretamente relacionado à capacidade dos filmes da companhia de atrair e manter fãs apaixonados que gastam pequenas fortunas para se divertir nas atrações de seus personagens favoritos. O quanto "WandaVision" e "Falcão e o Soldado Invernal" vão gerar fãs apaixonados é um tema a ser debatido.

Possivelmente, a pressão por criar uma franquia se tornou um peso Zach Snyder. O diretor possivelmente tentou deixar ganchos para múltiplos produtos, o que inclui um final sinalizando para a internacionalização da história dos zumbis. Mas por hora, a Netflix tem um problema nas mãos. Para criar franquias e ser competitiva, precisará contar bem suas histórias. "Army of the Dead" não foi um bom começo. Resta torcer para "Army of Thieves" ser melhor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL