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Chico Barney

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assim como todo o resto, Amor de Mãe foi melhor antes da pandemia

Camila (Jéssica Ellen) e Lurdes (Regina Casé) em Amor de Mãe (Divulgação/TV Globo) - Reprodução / Internet
Camila (Jéssica Ellen) e Lurdes (Regina Casé) em Amor de Mãe (Divulgação/TV Globo) Imagem: Reprodução / Internet
Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002

Colunista do UOL

10/04/2021 14h41

Estamos há mais de um ano tentando entender como lidar com uma pandemia. Enfrentando perdas dolorosas e na luta pela própria sobrevivência. Em qualquer contexto que se avalie, nos encontramos terrivelmente distantes de qualquer normalidade.

É evidente que isso impacta diretamente a produção cultural, seja qual for. Amor de Mãe foi uma novela espetacular até ser interrompida bruscamente pelas medidas de isolamento social. E sofreu com um retorno trôpego. Tinha como ser diferente?

Para diminuir riscos e custos, a reta final teve menos do que um terço dos capítulos previstos originalmente. Para dar conta disso, escolhas criativas precisaram ser tomadas enquanto nossas noções a respeito do coronavírus ainda começavam a ser construídas.

A decisão de trazer essa tragédia da vida real para a dramaturgia, de maneira apressada e totalmente alienígena à proposta da novela, foi o maior equívoco, na minha humilde opinião.

Uma afobação para demonstrar relevância cultural que acabou resultando um pouco sensacionalista. Ainda teve a triste coincidência de ser exibida enquanto os números da doença batiam recordes no Brasil.

Condensar tramas que necessitavam de maior espaço para fluir também foi um problema. Toda a história do cancelamento da Marina ficou um tanto descabida, parecendo excerto do saudoso Telecurso. E a mãe biológica do filho da Vitória, cujo drama foi exposto em, sei lá, 3 ou 4 participações breves entre o penúltimo e o último capítulo.

Mas o mais triste foi mesmo a parcimônia com que utilizaram Dona Lurdes, a grande estrela do show. Como Mauricio Stycer falou, foi uma ausência frustrante para os fãs da novela, tão saudosos da personagem depois de um ano apartados.

O final foi anticlimático, inclusive com uma visão ingênua a respeito dos rumos da pandemia. Um retrato muito bem demarcado no tempo e no espaço, portanto já ultrapassado, com o que se pensava a respeito do futuro um ano atrás.

Mas devemos celebrar a atuação magistral de Regina Casé e boa parte do elenco, além do texto preciso e a abordagem inventiva que marcaram a primeira fase, quando o mundo ainda era outro.

É fundamental esse olhar empático para o que restou de Amor de Mãe. Se nós não estamos bem, por qual motivo a reta final da novela estaria? Servirá como registro histórico de uma época que, convenhamos, ninguém vai querer lembrar.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL