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Arte Fora do Museu

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Marcello Dantas fala sobre o namoro da arte e da ciência

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Andre Deak / Felipe Lavignatti Felipe Lavignatti

O projeto Arte Fora do Museu nasceu em 2011 com os pesquisadores e jornalistas Andre Deak e Felipe Lavignatti, como um levantamento de obras de arte nas ruas da cidade de São Paulo. Hoje em mais de 500 cidades do mundo, milhares de obras e centenas de artistas, é um guia de arte urbana que inclui arquitetura, escultura, graffiti e mural. Andre Deak e Felipe Lavignatti são também sócios na produtora Liquid Media Lab, com projetos de comunicação digital, arte e diversos trabalhos no campo da inovação.

Felipe Lavignatti

Colunista do UOL

01/07/2021 11h27

Resumo da notícia

  • Marcello é o curador da bienal do Mercosul deste ano
  • "Ser criativo é um ato político"

Marcello Dantas é um curador brasileiro que não para. Sua produção em um ano normal chegava a mais de 20 exposições. Mas a pandemia alterou esse fluxo e a maneira de ele pensar. Conversamos com ele sobre como essa transformação afeta o mundo das artes e qual o papel das tecnologias para esse cenário futuro.

Como que você tem passado esse período de pandemia? Fisicamente e mentalmente?

Dois Covids. Peguei a primeira edição. Depois eu peguei a versão 2.0, em abril deste ano. Por outro lado, acho que tive uma qualidade de imersão nesse período que eu não tenho há muito tempo. Ou seja, é lógico que o Covid tem danos humanos terríveis e traumas gigantescos para as pessoas, mas ao mesmo tempo, acho que ele conseguiu dar uma desacelerada que produziu um nível de reflexão que eu acho que era inédito. Pelo menos no meu tempo de vida, eu não me lembro do mundo se permitir fazer perguntas. Eu não vou de maneira alguma minimizar a dor. Mas eu acho que é uma mudança. Acho que nós nos tornamos mais permeáveis. São as mudanças, aceitar novas condições. Se a gente souber levar isso para um lado bom, isso pode ser bom.

Muitos artistas têm aproveitado esse tempo de imersão para reavaliar a própria obra. Até desviar de percurso mesmo, às vezes fazer uma coisa completamente diferente.

Eu acho que é isso mesmo. Ou seja, é a urgência. A colocação de questões vitais em cima da mesa fez com que as pessoas repensassem o seu papel na sociedade. E isso, no mínimo, produz alguma nova coisa. E eu acho que se a gente voltar a ser exatamente o que a gente era antes, a gente vai ter perdido uma chance maravilhosa de aprimorar as coisas que a gente vinha fazendo até então.

Marcello Dantas - Juliette Bayen - Juliette Bayen
Marcello Dantas: "o futuro poderá ser mais humano"
Imagem: Juliette Bayen

Você tem produzido muito também, não?

Bastante. Quer dizer, perto do que eu fazia antes? Não. A gente costumava abrir 20 a 25 exposições por ano. Mas conseguimos manter alguns projetos de pé: alguns projetos de museus, de exposições... Eu estou fazendo agora a bienal do Mercosul. Abrimos o Ai Weiwei em Lisboa, abrimos o Ivan Navarro no Brasil, estamos preparando uma mostra de realidade virtual para abrir agora em São Paulo também. Então não foi de maneira alguma um tempo parado. E eu pude fazer uma coisa que eu nunca tinha conseguido antes que é sistematicamente escrever. Obviamente que eu viajei muito menos do que eu normalmente viajava, mas ao mesmo tempo tem uma graça nisso tudo. Agora, quando eu viajo pra um lugar eu fico um mês. Antigamente, eu ficava um dia. Então, você fica um mês, você entende muito mais a lógica daquilo. Você entra na imersão. Ou seja, você viaja menos, mas você viaja com mais qualidade, com mais profundidade. Menos movimento e mais profundidade, mais mergulho. Eu acho que essa é a diferença do Covid. Desacelerou isso aqui, mas permitiu a gente fazer algo mais profundo e pra baixo e pra dentro. E pra dentro de si mesmo, também, acho que é uma viagem muito importante. Que a gente valorize também as experiências que de alguma forma permitem que a gente tenha mais autoconhecimento, mais consciência. Que a gente entenda essa coisa super importante que eu acho que é o grande tema da nossa era que é fricção entre as espécies. Nós enquanto nós temos que parar de pensar enquanto brasileiros, mexicanos, portugueses, americanos ou o que for. Passar a pensar a gente como uma identidade de uma espécie, né? Que ocupa um lugar num planeta e que vive em permanente conflito com outras espécies. Nós estamos permanentemente gerando pragas por outros cantos e com medo das pragas dos outros.

E como a tecnologia pode auxiliar nesse processo?

Eu acho que a tecnologia e a arte sempre tiveram - assim, como arte e a ciência - um namoro perene. É uma bobagem as pessoas acharem que não, entendeu? Da perspectiva, a criação de arquitetura com arte. Esse é um flerte fabuloso, é uma história linda. Eu acho que no momento atual, a questão toda é definir o que é tecnologia, né? Eu puxo a coisa um pouquinho pra trás, eu puxo a questão pra ciência, né? Eu acho que a tecnologia é uma maneira de você implementar praticamente aquilo que é um conhecimento científico. E arte e ciência são dois campos absolutamente correlatos. Por outro lado, o que eu vejo é que nós, em 2021, cruzamos uma fronteira do que é o mundo, do que é a vida tecnológica, do que é a vida não tecnológica. E nós estamos hoje passando mais tempo dentro de artefatos, né. Nossa existência passa mais tempo dentro disso, do que no mundo real. Então, eu acho que a grande tecnologia que a gente tem que abraçar nesse momento, por incrível que pareça, na minha opinião, é a biologia. É aí que tá a fronteira. Ou seja, que de certa forma é o que tira a gente das telas. A gente já tá dentro da tela, o tempo todo. A gente tá aqui, estamos dentro da tela, né? E então, como é que a gente vai fazer pra que outras técnicas nos levem a um lugar de inspiração, um lugar que saia do nosso lugar comum? Outra coisa que eu acho que tem que ficar muito clara, é que nós, humanos, somos muito previsíveis. Somos máquinas com um código muito fácil, porém criando tecnologias muito poderosas, como a inteligência artificial, que já já vai conseguir emular nosso sentimento e vai produzir uma arte que provavelmente vai nos emocionar. Então, a gente vai dar uma virada completa na nossa cabeça ou a gente vai ficar obsoleto? Ou os agentes criativos embarcam numa aventura de conhecer a sua mente, expandir sua consciência, buscar novos territórios e uma originalidade radicalmente nova, ou a gente vai virar o apenas consumidor de um código repetido. Assim, ser criativo é um ato político, que é o ato de dizer "Não, eu não serei suscetível ou obediente.
O futuro tem que ser humano né? Menos máquina. Vai ser ambos, essa escolha a gente não tem. Mas depende da gente que o futuro seja humano. A pergunta é se o futuro poderá ser mais humano.

Veja a entrevista completa abaixo