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Andreza Delgado

Quem são os personagens reais que a Globo mostrará no especial Falas Negras

'Falas Negras': Veja comparação dos personagens reais e da ficção da Globo

Andreza Delgado

Andreza Delgado, baiana da terra do cacau, é uma das criadoras da Perifacon, a Comic Con da favela. Tem um canal no YouTube para resenhar séries, HQ's, filmes e livros e o game perifa, mas quando dá tempo tuíta pelos cotovelos.

Colunista do UOL

20/11/2020 14h36

A Globo exibirá hoje, após "A Força do Querer", o especial "Falas Negras", pelo Dia da Consciência Negra. A criação é da autora da novela "Amor de Mãe", Manuela Dias, com direção de Lázaro Ramos. Segundo a idealizadora, a ideia do especial é reunir falas de 22 personagens que se somam à história negra, "de 1600 aos tempos de agora".

Serão 22 personalidades! Homens e mulheres que doaram seu tempo e sua história para a causa negra —alguns, infelizmente, se viram forçados a falar do racismo por conta da violência policial. Há personalidades célebres, como o ativista Martin Luther King, e outras nem tanto, como Nzinga Mbande, conhecida como a rainha guerreira.

Vamos lembrar um pouquinho de cada um deles?

Luiza Helena de Bairros

Luiza foi ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Igualdade Racial de 2011 a 2014 e desenvolveu muitas das políticas de ações afirmativas. Nascida em Porto Alegre, em 1953, foi uma das articuladoras do Movimento Negro Unificado, uma das principais organizações negras do país. Formada em administração, também é mestre em ciências sociais pela UFBA (Universidade Federal da Bahia). Estudou o mercado de trabalho com recorte racial na Bahia, entre os anos 1950 e 1980.

Mirtes Souza

A mãe do garoto Miguel Otavio —criança negra de apenas 5 anos, deixada à própria sorte no elevador de um prédio na cidade do Recife pela patroa de sua mãe. O menino caiu do nono andar e morreu na hora. Nenhum responsável foi preso. Desde então, Mirtes segue uma jornada para ver a ex-patroa Sari Corte Real presa. Para mim, essa é uma das representações mais importantes do especial. É urgente a denúncia a respeito das escolhas da Justiça quando se trata de "aliviar" o assassinato de jovens e crianças negras.

Neilton Matos Pinto

Ainda sobre a importância das denúncias relacionadas a assassinatos de crianças e jovens negros e periféricos no país, Neilton Matos é pai do adolescente João Pedro (14 anos). O menino foi morto dentro de casa, enquanto acontecia uma operação policial na favela de São Gonçalo.

Marielle discursa na Câmara Municipal do Rio em 2018 - RENAN OLAZ/AFP - RENAN OLAZ/AFP
Marielle discursa na Câmara, em 2018
Imagem: RENAN OLAZ/AFP

Marielle Franco

A vereadora, cria da Maré, que articulou discussões e tomadas de decisões importantíssimas na questão da segurança pública e dos direitos humanos —até mesmo antes de assumir seu mandato—, também é homenageada. Lembrando que dois anos depois de sua morte ainda não temos nenhum responsável pelo assassinato de Marielle.

Angela Yvonne Davis

Militante do partido comunista, um dos nomes mais citados quando o assunto é a articulação dos Panteras Negras, que lutaram pela igualdade de direitos dos afro-americanos. A professora e filósofa foi caçada por meses pelo FBI com a desculpa forjada de terrorismo e de um suposto assassinato. Ela chegou a ser presa e passou por um julgamento, que durou 18 longos meses. É celebrável a brilhante adição da produção intelectual de Davis para o feminismo, com suas inúmeras palestras e livros publicados.

Muhammad Ali  - ACTION IMAGES/REUTERS - ACTION IMAGES/REUTERS
O lutador Muhammad Ali
Imagem: ACTION IMAGES/REUTERS

Muhammad Ali

O atleta, que dava show para além do ringue, foi também um articulador da luta negra, cumprindo até os últimos dias de sua vida a batalha contra o racismo. Se posicionou também contra o alistamento para a Guerra do Vietnã, o que resultou numa condenação de cinco anos e uma proibição de lutar. Seu nome de batismo, Cassius Clay, e sua escolha de conversão ao Islã apontavam para sua identidade de ser lutador em todas as causas. Sempre gostava de reiterar: "Não quero ser o que vocês querem que eu seja". Morreu em 3 de junho de 2016, após batalhar incansavelmente contra o Parkinson.

Lélia Gonzalez

Um dos nomes mais importantes do feminismo brasileiro, é antropóloga e dona de uma articulação intelectual invejável. Lélia nasceu em Belo Horizonte e esteve presente no lançamento do MNU (Movimento Negro Unificado), nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, no dia 7 de julho de 1978. Mestre em comunicação e doutora em antropologia política/social, foi responsável não só pela fundação do MNU, mas também do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras. Vale a pena buscar os livros e ensaios que Lélia assinou. Morreu em 11 de julho de 1994, deixando um legado gigante para o movimento negro e feminista.

Nina Simone

Muito se engana quem pensa que as contribuições de Nina foram apenas para a música. Dona de uma voz poderosa, pianista e compositora, a artista dedicou sua vida à luta pelos direitos civis dos afro-americanos. "É uma obrigação artística refletir o meu tempo", afirmou. Infelizmente, isso trouxe consequências para a sua carreira, rejeição não só do público, mas das casas de shows e das gravadoras. Nina passou um tempo reclusa e sua volta rendeu sucessos como "My Baby Just Cares For Me" e seu último álbum, "A Single Woman". Morreu em 1993, deixando um importante legado para a música e para a luta negra.

Martin Luther King - AFP via BBC - AFP via BBC
O ativista Martin Luther King
Imagem: AFP via BBC

Martin Luther King

King, que para alguns se resumia a um ativista pacifista, foi pastor e líder do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Doutor King sempre legitimou discursos como a distribuição de renda e a justiça econômica, além de ter atacado duramente a Guerra do Vietnã. Foi responsável por articular boicote aos ônibus que segregavam as pessoas de cor. Foi assassinado em 1968.

Malcolm X

Enquanto King é resumido como pacifista, fica para Malcolm a coroa de radical, fundador da organização Unidade Afro-Americana, foi um catalisador da conscientização das pessoas brancas para a situação dos negros nos Estados Unidos. Enfrentou a prisão, que segundo o próprio foi importante para a sua formação. Já solto e adepto da religião do Islã, articulou-se para que a discussão sobre direitos civis tomasse o país. Foi assassinado em 21 de fevereiro de 1965. Sua biografia segue entre as mais lidas no mundo.

James Baldwin

"A história dos negros na América é a história da América. E não é uma história bonita." Esta é uma das frases de que mais gosto do James Baldwin, que inclusive resume sua caminhada política em denunciar a história americana antinegra.

Nome importantíssimo para a literatura, romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e ativista LGBT —mesmo alguns querendo apagar sua sexualidade. Seu livro "Da Próxima Vez, O Fogo - Racismo nos EUA" é uma das minhas leituras favoritas. A história de Baldwin é marcada pela perda do irmão de uma forma brutal, que o levou, na sequência, a fazer um dos discursos que mais marcaram sua carreira. Morreu em 1º de dezembro de 1987.

Nelson Mandela

Dispensa apresentações. A história de Mandela talvez seja uma das mais conhecidas. Liderança do levante contra o apartheid na África do Sul, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1993, foi presidente da África do Sul de 1994 a 1999. Chegou a passar 27 anos preso e foi libertado graças a um levante global em nome de sua inocência. Talvez por isso sua história rompa barreiras até hoje. Morreu em 5 de dezembro de 2013.

Milton Santos

O grande Milton Santos é um dos nomes mais importantes da geografia brasileira. O geógrafo, que também tem advocacia como formação, trouxe riquíssimas contribuições para a geografia urbana e a discussão sobre globalização. Não à toa recebeu a premiação considerada o Nobel da geografia,o Prêmio Vautrin Lud.

Meu conterrâneo da Bahia até hoje é citado nos diversos departamentos das universidades mundo a fora, por suas contribuições relevantes e inovadoras. Milton chegou a ser perseguido na ditadura e morreu em junho de 2001.

Luiz Gama

Falando em brasileiros e em suas contribuições para os estudos, Luiz Gama nasceu em stiuação de escravidão, foi e é um dos nomes mais importantes do direito —e isso não é opinião pessoal. Alfabetizado depois dos 17 anos, Gama advogou pela própria liberdade e trilhou uma história digna de filme em sua luta como abolicionista. Morto em 31 de dezembro de 1900, ainda hoje é homenageado nos departamentos das universidades. Só em 2015 foi receber o título de advogado. Apesar da não-formação, o intelectual brasileiro abolicionista libertou mais de 500 pessoas em situação de escravidão.

Virgínia Leone Bicudo

Ainda falando de personalidades brasileiras, a socióloga e psicanalista trouxe inúmeras contribuições para a psicanálise no Brasil. Engatilhou estudos sobre a questão racial e a psiquê humana —até então não se apresentava interesse para estudos com essa temática racializada. Assumiu a direção do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de São Paulo. Morreu em 2003.

Rosa Parks virou símbolo da luta por direitos civis dos negros - REUTERS/REUTERS - REUTERS/REUTERS
Rosa Parks virou símbolo da luta por direitos civis dos negros
Imagem: REUTERS/REUTERS

Rosa Louise McCauley

A ativista, mais conhecida como Rosa Parks, ficou conhecida depois de se recusar a levantar do seu lugar no ônibus para uma pessoa branca —isso no auge da segregação negra nos EUA. Rosa sempre fez questão de se lembrar das retaliações que sofreu após o ato, perseguições à sua família e falta de emprego. Morreu em 2005.

Harriet Tubman

A conhecida abolicionista, que nasceu escrava, escapou e promoveu 19 missões para resgatar 300 pessoas em situação de escravização. Organizou rotas, chamadasde "underground rairoad", que serviram para inúmeras fugas de pessoas em situação de escravidão nos EUA. Tuban foi uma importante peça na Guerra Civil americana, atuando em diferentes frentes como enfermeira, cozinheira e até espiã. Chegou a estampar a nota de 20 dólares.

Olaudah Equiano

Falando em abolicionistas importantes, Olaudah Equiano foi um africano que atuou como marinheiro e escritor. Conseguiu comprar sua alforria com 21 anos e contribuiu para a criação do ato contra o comércio de escravos de 1807, que aboliu esse tipo de negociação no Império Britânico.

Toussaint Louverture

Achei bastante interessante a escolha de apresentar uma liderança de guerra como Louverture, que é conhecido como o maior revolucionário negro das Américas. Ele comandou a liderança da revolução do Haiti, um marco nas revoltas populares por libertação negra.

Nzinga Mbandi

Um dos maiores símbolos de resistência africana diante da colonização é uma mulher negra, e ela se chama Nzinga Mbandi. Esteve à frente de Ndongo, que conhecemos hoje como Angola. Eu realmente fiquei surpresa pela escolha, já que falar de escravidão publicamente costuma sempre ter um tom moderado.

Mahommah G. Baquaqua

Foi sequestrado do continente africano como escravo e mandado para o Brasil. Graças a um transporte de café para os EUA, conseguiu fugir e assim escrever a própria biografia, em Detroit, no ano de 1854 —talvez um dos registros mais importantes contados em primeira pessoa por alguém que foi escravizado.

Black Lives Matter

O programa ainda vai contar com a participação narrada de uma personagem para falar sobre o movimento Black Lives Matter por meio dos protestos realizados após a morte de George Floyd.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.