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Roupas orgânicas podem até "crescer", mas penam a entrar no mercado

Protótipo de tecido vegetal da biogarmentry - Reprodução Instagram
Protótipo de tecido vegetal da biogarmentry Imagem: Reprodução Instagram

13/05/2021 13h43

Nos laboratórios de inovação no desenvolvimento de tecidos orgânicos, a imaginação não tem limites. Vale tudo para tentar substituir o petróleo, presente na elaboração dos materiais mais utilizados como polyester e viscose. Mas as roupas que usam tecnologia de ponta para respeitar o meio ambiente ainda enfrentam múltiplas barreiras para ir parar nos armários dos milhões de consumidores de moda, uma das indústrias mais poluentes do planeta.

Uma das descobertas mais recentes é feita de algas cultivadas em uma celulose bacteriana e, desta forma, continuam a realizar fotossíntese e se regenerar. Na forma de tecido, podem até se expandir e, por que não, acompanhar o crescimento de uma criança, evitando o desperdício comum de roupas nesta fase da vida. Os detalhes foram publicados na revista científica Advances Materials, por pesquisadores da universidade de tecnologia de Delf, na Holanda.

O desafio é imenso: atualmente, mais de 50% das roupas consumidas no mundo são de origem sintética e, no caso de outros tecidos, como cortinas ou toalhas, essa parcela sobe para 70%.

Pascal Denizart, diretor do Centro Europeu de Têxteis Inovadores, em Paris, aposta que, cada vez mais, os tecidos oriundos do petróleo serão substituídos por plantas ou outras matérias-primas naturais.

"É assim que já pudemos chegar, por exemplo, em um polyester à base de beterraba ou de dejetos da agricultura. Temos também a poliamida, muito utilizada nas malhas, feita a partir de óleo de mamona. São exemplos muito concretos de como tecidos sintéticos podem ser ecoconcebidos e se tornar materiais orgânicos", afirma.

Couro de uvas, cogumelos ou cactus, seda de teia de aranha, viscose de cascas de frutas cítricas ou tela de restos de abacaxi. É possível desenvolver materiais de alta qualidade e sustentáveis, mas os volumes de produção ainda são ínfimos na comparação com o consumo de massa. O resultado é que o setor permanece de nicho e, quase sempre, reservado a poucos privilegiados com acesso a produtos luxuosos - a exemplo das bolsas Prada fabricadas com nylon de carpetes e fios de pesca reciclados.

Denizart indica que apenas 20% dos projetos inéditos de fibras orgânicas conseguem sair do laboratório e se transformar em roupas, acessórios ou outros produtos têxteis. "É preciso que aqueles que têm o poder de influenciar os consumidores e o poder do volume, as marcas, se interessem por essas iniciativas. Acho que a chave do sucesso é essa parceria entre start ups, sob o guarda-chuva das marcas, que poderão multiplicar esse mercado, ao gerarem uma atividade industrial por trás", ressalta o diretor do CETI.

Inovação vai estimular volta da produção local, diz socióloga

A socióloga especializada em hábitos sustentáveis Majdouline Sbai, autora de "Uma moda ética é possível?", ressalta que as iniciativas mais promissoras são as que aproveitam produtos locais de cada país - desta forma, contemplam outro aspecto fundamental para uma moda mais ética. De nada adianta comprar um vestido de tecido vegano e que captura carbono se ele teve de atravessar o mundo para chegar nas suas mãos.

"Acho que esses novos materiais vão nos obrigar a voltar a fabricar mais localmente. O ideal é que cada território, em função do tipo de agricultura que tem à disposição, produza também têxteis. Se vivo num país que produz muita laranja, vou investir na valorização das cascas para fazer couro ecológico. Se tenho uma fábrica de batatas fritas congeladas na região, podemos sentar e avaliar quais seriam as possibilidades de aproveitar as cascas para fazer um tecido", exemplifica. "São matérias-primas destinadas ao lixo e que vão servir para fazer uma roupa. A moda é um setor criativo, quase artístico, que possibilita invenções assim."

A volta do linho

A socióloga admira as pesquisas em têxteis ecorresponsáveis, mas admite que ainda coloca a maioria das suas fichas nas matérias-primas antigas e naturais, como o algodão e em especial o linho. Nos últimos anos, o tecido "de toalha da vovó" se adaptou aos movimentos da moda e se popularizou em todas as classes sociais.

"A roupa ideal de amanhã é aquela que a gente vai usar bastante tempo. O maior desafio é usarmos menos recursos e utilizarmos melhor os produtos. Para isso, é preciso que ele seja robusto e tenha um design atemporal", salienta Majdouline. "É importante que, na escolha das roupas, a gente pense que elas poderão ser usadas de diversas formas, em variadas ocasiões. Se somamos a isso o fato de elas gerarem o mínimo de poluição na sua fabricação, com pouca água e sem agrotóxicos, chegamos no linho - que conforme a sua elaboração, pode durar gerações."

Pascal Denizart acrescenta que, antes mesmo do desenvolvimento de fibras inovadoras, a indústria têxtil tem a obrigação de reparar os próprios estragos, usando menos poluentes e aumentando a reciclagem - inclusive das peças novas que não foram vendidas nas lojas, em especial as de fast fashion.

"Materiais sintéticos, derivados do petróleo, podem ser derretidos de novo e se tornarem filamentos, depois fio e tecido, contribuindo para um círculo virtuoso. As nossas centenas de milhares de toneladas de têxteis jogados fora podem servir para fazer novos tecidos", frisa. "Hoje, 38% do polyester vem da reciclagem de garrafas pet. Acho que podemos melhorar esse processo, substituindo e acabando com as garrafas de plástico e usando a reciclagem da própria indústria têxtil. Ou seja, o lixo dela mesma, em vez do lixo de outras indústrias."

Conforme a ONU, a indústria da moda é responsável por 10% das emissões globais de gases de efeito estufa e 20% do desperdício mundial de água.