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Jogo com cabra morta e novela: casal explora vida nômade na Ásia Central

Casal no lago Kel Suu, no Quirguistão - Divulgação
Casal no lago Kel Suu, no Quirguistão
Imagem: Divulgação

Priscila Carvalho

Colaboração para Nossa

12/01/2022 04h00

Quando o casal brasileiro Fernanda Kiehl e Tiago Ferraro (@mondayfeelings) disse que iria para o Quirguistão, muita gente não sabia sequer onde ficava o país. Algumas pessoas chegaram a perguntar "Quirgui o quê?".

Como sempre foram adeptos de destinos fora da rota turística e pouco explorados por viajantes convencionais, eles resolveram conhecer um pouco do país localizado na Ásia Central. Também aproveitaram para visitar o vizinho Uzbequistão — outro motivo de surpresa para algumas pessoas.

A viagem surgiu a convite da secretaria de turismo do Quirguistão, para cobrir o World Nomad Games, os jogos olímpicos do povo nômade. O evento ocorre a cada dois anos e reúne diversos países. Porém, os esportes são bem ancestrais e não tão conhecidos.

World Nomad Games, em 2018 - Viktor Drachev\TASS via Getty Images - Viktor Drachev\TASS via Getty Images
World Nomad Games, em 2018
Imagem: Viktor Drachev\TASS via Getty Images

"É para preservar a cultura dos povos originários", afirma o casal. De dia ocorriam os eventos esportivos e durante a noite as danças.

O encontro funcionava quase como uma olimpíada comum: com federações e atletas. Na época em que estiveram no território, havia 100 atletas e mais de 80 países participando da ação. E as competições misturam o velho e o novo.

O intenso kok buru - Abylai Saralayev\TASS via Getty Images - Abylai Saralayev\TASS via Getty Images
O intenso kok buru
Imagem: Abylai Saralayev\TASS via Getty Images

Entre os mais antigos estão o kok buru, esporte nacional do Quirguistão. Ele é uma espécie de polo, só que jogado com o corpo de uma cabra já morta e decapitada. "O corpo serve com uma bola e tem que jogar dentro do buraco. É um jogo violento e que exige força", reforça Tiago.

World Nomad Games de 2016 - Olivia Harris/Getty Images - Olivia Harris/Getty Images
World Nomad Games de 2016
Imagem: Olivia Harris/Getty Images

Eles afirmam que para alguns pode soar como crueldade e até algo estranho, mas faz parte da cultura local e dos povos mais antigos. "O nômade tem um estilo de vida no ambiente infinitamente menor do que um ocidental. O carvão que eles usam, por exemplo, era esterco de cabras. O modo de vida deles é diferente."

Existe ainda premiação, cerimônia de encerramento e, em vez de uma tocha olímpica, eles passam água e colocam no topo de uma geleira.

Foi um divisor de águas. Ficamos dez dias em função das olimpíadas. Acabou o evento e estendemos a viagem para explorar a vida nômade", relembra Fernanda.

World Nomad Games, em 2018 - Viktor Drachev\TASS via Getty Images - Viktor Drachev\TASS via Getty Images
World Nomad Games, em 2018
Imagem: Viktor Drachev\TASS via Getty Images

Uma viagem completa

Depois de cobrir o evento, o casal seguiu de carro para uma viagem de mais alguns meses pelo Quirguistão. Eles queriam explorar como era a vida nômade na Ásia central. O trajeto seguiu para o leste do país, onde eles puderam ver o Mar de Aral (que já foi o quarto maior lago do planeta, mas agora segue seco) e também a Rota da Seda.

Foram quase dois meses explorando o território e ainda conhecendo a natureza e a beleza dos arredores. Para eles, o país que não é muito conhecido por quase ninguém, chama atenção pelas belas montanhas e cenários de tirar o fôlego.

Mesmo assim, eles não deixam de ressaltar a qualidade das estradas no país. "As estradas são precárias, você anda sempre subindo e descendo montanha", brinca Fernanda.

Casal no Song-Kul, lago no Quirguistão - Divulgação - Divulgação
Casal no Song-Kul, lago no Quirguistão
Imagem: Divulgação

Outro ponto que chamou atenção dos dois enquanto estavam explorando o território foi a ligação que o país tem com o Brasil. O Quirguistão pertenceu à União Soviética por muitos anos e um dos poucos programas que podiam ser assistidos no país eram as novelas brasileiras. Dessa forma, muitos habitantes conhecem as curiosidades daqui por meio do entretenimento.

O Quirguistão é um país muçulmano não praticante. As pessoas se reuniam na casa de quem tinha televisão", conta Fernanda.

Com família de Kazarman, no Quirguistão - Divulgação - Divulgação
Com família de Kazarman, no Quirguistão
Imagem: Divulgação

A novela "O Clone", segundo a brasileira, era uma das mais comentadas e assistidas pela população local.

Idioma não foi problema

Quando decidiram dormir na estrada, quase na fronteira com a China, começaram a dirigir pela neve e viram que uma família inteira estava parada na estrada por causa de um problema no carro.

Kazarman, no Quirguistão - Divulgação - Divulgação
Kazarman, no Quirguistão
Imagem: Divulgação

Mesmo sem falar ou entender uma palavra em russo, o marido pediu que eles levassem a esposa e os filhos para um local seguro e Fernanda e Tiago os ajudaram. "A gente estava no verão e mesmo assim pegamos neve. Era um local remoto, muito frio, muito penhasco", relembra Fernanda.

Durante os deslocamentos, como dormiam poucas vezes em hotéis, "acampavam" dentro do carro ou eram convidados por moradores a se hospedarem em suas casas.

A caminho do Song-Kul, lago no Quirguistão - Divulgação - Divulgação
A caminho do Song-Kul, lago no Quirguistão
Imagem: Divulgação

Por estar muito frio, a brasileira lembra que uma vez uma senhora dona de um posto de gasolina os acolheu e acordou a família inteira para fazer comida para os dois. A comunicação era feita por mímica e, mesmo assim, rendeu ótimas conversas, recorda a produtora de conteúdo.

Quando uma pessoa quer falar e a outra está disposta a ouvir, a língua não é uma barreira", afirma.

Em outra ocasião, visitaram uma parte remota do país e tiveram contato com o povo nômade, que mostraram os pilares dessas pessoas.

O deserto do Uzbequistão

Mar de Aral, no Uzbequistão - Divulgação - Divulgação
Mar de Aral, no Uzbequistão
Imagem: Divulgação
Habitante de Khiva, no Uzbequistão - Divulgação - Divulgação
Habitante de Khiva, no Uzbequistão
Imagem: Divulgação
Habitante de Bukhara, no Uzbequistão - Divulgação - Divulgação
Habitante de Bukhara, no Uzbequistão
Imagem: Divulgação

Durante a estadia pela Ásia Central, o casal procurou conhecer o vizinho Uzbequistão. Nesse último, diferentemente do Quirguistão, o país é tomado por muito deserto e áreas secas.

O local também é marcado pela história do islã e mesquitas. "Nunca pensei encontrar cidades tão majestosas da Rota da Seda", conta.

Bukhara, no Uzbequistão - Divulgação - Divulgação
Bukhara, no Uzbequistão
Imagem: Divulgação

Ainda no mar de Aral, eles puderam ver de perto navios à deriva e um território não habitável. "A cidade inteira ficou improdutiva. Virou um lugar fantasma. Esse foi o lado negativo da viagem", complementa a produtora de conteúdo.