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Como é ser voluntário em santuários de animais selvagens no Brasil

A elefanta Mara no Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso  - Divulgação
A elefanta Mara no Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso
Imagem: Divulgação

Eduardo Vessoni

Colaboração para Nossa

06/11/2021 04h00

Aos 12 anos, Fábio Fontes tinha um litoral inteiro na porta de casa, mas preferiu trocar as brincadeiras de criança pelo trabalho voluntário.

Enquanto turistas visitavam alguns dos principais destinos do Atlântico Sul para ver baleias migratórias da Antártica, no litoral sul da Bahia Fábio atuava em programas do Projeto Baleia Jubarte distribuindo sacolas de lixo e participando de mutirões de limpeza.

"Foi uma oportunidade de crescimento pessoal. Para mim, não foi esforço nenhum, pois eu aprendia com diversão", conta para Nossa esse baiano nascido em Juerana, distrito de Caravelas, a 250 quilômetros de Porto Seguro.

Já a advogada paulista Rita Franco França está bem longe de ter experiência com mamíferos de grande porte, mas em 2019 abraçou a causa da transferência da elefanta Bambi de um zoológico em Ribeirão Preto para o o SEB (Santuário de Elefantes Brasil), na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso.

Elefantas no Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso - Divulgação - Divulgação
Elefantas no Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso
Imagem: Divulgação

A gente precisa fazer algo neste mundo que dê sentido para a nossa vida. É um retorno muito maior do que o tempo gasto com o trabalho voluntário", diz Rita

Rita Franco França, voluntária do Santuário de Elefantes Brasil e ativista de uma ONG de adoção e castração de animais domésticos  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rita Franco França, voluntária do Santuário de Elefantes Brasil e ativista de uma ONG
Imagem: Arquivo pessoal

Apesar de não ser a autora da ação contra a prefeitura da cidade para a transferência do animal, Rita participou dos bastidores como ponte entre o Ministério Público e o santuário, comparecendo em audiências e reuniões com a secretaria local de meio ambiente.

"Poder participar disso foi um presente que ganhei do santuário", descreve a advogada, que também atua em uma ONG de adoção e castração de animais domésticos.

Nesta reportagem, você conhece essas e outras histórias de brasileiros que, sem remuneração nenhuma, dedicaram um tempo de suas vidas à causa animal em instituições de preservação de bichos de todas as espécies.

O que é um santuário

De acordo com o diretor e biólogo do SEB, Daniel Moura, um santuário é uma segunda chance para animais resgatados de ambientes inadequados, como a Bambi, uma elefanta de 60 anos que traz na biografia um triste período de apresentações em circos.

As elefantas Rana, Mara e Bambi no Santuário de Elefantes Brasil - Divulgação - Divulgação
As elefantas Rana, Mara e Bambi no Santuário de Elefantes Brasil
Imagem: Divulgação

"Continua sendo um cativeiro, mas em uma área natural com diferentes relevos para estímulos intelectuais e físicos", define Daniel, responsável por cinco elefantas asiáticas que vivem em uma área de 28 hectares com florestas, riachos e piscina de lama.

O biólogo e especialista em manejo e conservação de animais silvestres explica também que uma das particularidades desses locais com finalidades científicas é a proibição de visita pública e a interação com outras pessoas que não sejam os próprios tratadores.

Treinamento para tratamento através de reforço positivo, no Santuário de Elefantes Brasil - Divulgação - Divulgação
Treinamento para tratamento através de reforço positivo, no Santuário de Elefantes Brasil
Imagem: Divulgação

Nosso objetivo não é a reprodução porque não temos como devolver esses animais para a natureza. Oferecemos condições para um fim de vida digno, uma aposentadoria para esses animais que foram explorados a vida inteira"

Pelas suas contas, atualmente, a América do Sul ainda tem cerca de 40 elefantes vivendo em cativeiros, dos quais 50% estão no Brasil.

Tamanho não é documento

Um santuário não se faz apenas com animais que a gente nem sempre vê por aí.

Localizado em Teresópolis, na Serra Fluminense, o Santuário das Fadas se dedica ao resgate e acolhimento de animais de fazendas, vítimas de maus tratos ou de negligência, como bovinos, caprinos, suínos e equídeos.

Santuário das Fadas, em Teresópolis, na Serra Fluminense  - Divulgação - Divulgação
Santuário das Fadas, em Teresópolis, na Serra Fluminense
Imagem: Divulgação

"Os animais são recuperados, física e emocionalmente, e permanecem aqui até o resto da vida deles. A gente não doa nenhum", explica a médica veterinária Patricia Fittipaldi, cujo santuário abriga cerca de 200 animais.

Um dos casos de final feliz na sua ONG fundada em 2008 foi a campanha de mobilização para o fim dos serviços de charrete com tração animal na Ilha de Paquetá, bairro na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

"Foi uma luta que começou solitária, mas depois foi abraçada por ativistas, advogados e até moradores locais", conta a voluntária Silvia Mibielli, que mora na ilha há 20 anos e encabeçou o movimento para dar um destino digno a mais de 30 cavalos.

Patricia Fittipaldi, médica veterinária e fundadora do Santuário das Fadas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Patricia Fittipaldi, médica veterinária e fundadora do Santuário das Fadas
Imagem: Arquivo pessoal
A voluntária Silvia Mibielli com um dos animais resgatados - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A voluntária Silvia Mibielli com um dos animais resgatados
Imagem: Arquivo pessoal

Até que o Ministério Público, OAB-RJ e a prefeitura da cidade também abraçassem a causa, Silvia esteve envolvida com pesquisas sobre os equídeos e contou com assessoria jurídica e até de uma professora especializada em bioética animal.

Isso me causou muito sofrimento emocional, mas foi muito gratificante. É uma luta motivada pelo amor e pela justiça"

Silvia chegou a comprar um dos animais resgatados para enviar a uma fazenda fluminense.

Cavalo Loirinho, resgatado na Ilha de Paquetá em janeiro de 2016  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cavalo Loirinho, resgatado na Ilha de Paquetá em janeiro de 2016
Imagem: Arquivo pessoal

Desde 2016, o transporte animal em Paquetá deu lugar a charretes elétricas, doadas pela prefeitura do Rio, hoje conduzidas por ex-charreteiros como atrativo turístico e meio de transporte.

Atualmente, o Santuário das Fadas tem mais de 20 cavalos resgatados.

"Eles são explorados até o fim da vida e depois são deixados para morrer. Muitas vezes precisamos acionar a polícia ou a SMPDA (Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais do Rio de Janeiro), lembra Patrícia, "vegana e abolicionista", como ela mesma se define, que também cuida de animais silvestres como sagui, papagaio e jabuti.

A gente acaba naturalizando a prática, mas era uma tradição que já tinha chegado a hora de ser abolida. É uma escravidão"

Uma mão ajuda a outra

Leandra Gonçalves é de Jundiaí, estudou ciências biológicas em Campinas e fez mestrado em Juiz de Fora. Mas o mar, a quilômetros dali, sempre foi a sua paixão.

A oportunidade de aliar conhecimento científico e prática de campo se deu no programa de estágio voluntariado no Tamar, projeto de pesquisa e conservação de tartarugas marinhas em destinos como Fernando de Noronha, Praia do Forte (BA), Vitória (ES) e Florianópolis (SC).

Leandra na Antártica, durante participação em um projeto do Greenpeace contra a caça de baleias - Jiri Rezac/Greenpeace - Jiri Rezac/Greenpeace
Leandra na Antártica, durante participação em um projeto do Greenpeace contra a caça de baleias
Imagem: Jiri Rezac/Greenpeace

"Era vantajoso deixar de ter férias para fazer esse tipo de trabalho, pois muitas vezes gerávamos um conhecimento que ficava só na biblioteca", conta Leandra, que hoje é professora de Gestão Costeira no Instituto do Mar, na UNIFESP.

Entre o final de 2002 e o início de 2003, ela foi voluntária na base do Tamar em Ubatuba, no litoral paulista, em programas de educação ambiental e na condução de turistas em tours guiados nos tanques do projeto.

De lá para cá, atuou também em outros projetos dedicados à pesquisa de golfinhos, baleias franca e jubarte, e foi uma das únicas brasileiras a atuar na Antártica, em 2008, em um projeto do Greenpeace contra a caça de baleias.

Os voluntários são a alma dessas organizações. São eles que vão às ruas para divulgar campanhas nos bairros e realizar ações nas praias. É uma relação ganha-ganha em que aprendemos e criamos vínculo social"

Leandra Gonçalves em Abrolhos, no sul da Bahia  - Ivan Canabrava/Arquivo Pessoal - Ivan Canabrava/Arquivo Pessoal
Leandra Gonçalves em Abrolhos, no sul da Bahia
Imagem: Ivan Canabrava/Arquivo Pessoal

Para Eduardo Camargo, coordenador geral do Projeto Baleia Jubarte, esse tipo de trabalho ajuda não só na otimização de recursos, mas também promove a geração de conhecimento científico.

"Acabamos contribuindo para a capacitação de profissionais especializados em cetáceos, já que é muito difícil uma universidade oferecer esse tipo de formação específica", explica Eduardo, em entrevista para Nossa.

Esse engenheiro químico lembra também que turistas podem participar à distância como voluntários, enviando registros fotográficos de caudas de baleias avistadas em passeios.

A cauda é como a impressão digital desses animais e sua identificação ajuda na pesquisa científica. Recebemos um número cada vez maior de fotos, cerca de 100 imagens enviadas por ano"

O biólogo Fábio Pontes durante trabalho de campo no projeto Baleia Jubarte - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O biólogo Fábio Fontes durante trabalho de campo no projeto Baleia Jubarte
Imagem: Arquivo pessoal
E Fábio (no centro), ainda criança, quando começou sua trajetória no Baleia Jubarte - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
E Fábio (no centro), ainda criança, quando começou sua trajetória no Baleia Jubarte
Imagem: Arquivo pessoal

De acordo com o biólogo Fábio Fontes, que atuou como voluntário do programa Patrulha Ecológica, dos 12 aos 17 anos, alguns acabam virando colaboradores da própria instituição ou são absorvidos em outros centros de pesquisa no Brasil.

Ele mesmo, ao concluir o Ensino Médio, fez faculdade de Biologia, atuou como educador ambiental e foi estagiário no Projeto Baleia Jubarte, onde hoje trabalha como coordenador operacional.

"A pesquisa em ciências do mar é bastante cara e esses projetos têm um papel fundamental na produção de conhecimento por meio desses programas de estágio voluntario", avalia Leandra.

Veja como funcionam os programas de voluntariado e como você pode ajudar:

Santuário de Elefantes Brasil

Santuário de Elefantes do Brasil - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Com o processo que pretende triplicar a área destinada aos animais, o santuário ainda não tem um programa formal para voluntários.

Porém, desde que começaram a receber elefantes em 2017, conta voluntários em ações pontuais, como transferência de animais, produção de fotos e vídeos, além do apoio de advogados e biólogos voluntários.

Os contatos para se voluntariar no santuário podem ser feitos pelo site ou pelas redes sociais.

Projeto Baleia Jubarte

Criado em 1988, durante a implantação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, o projeto estuda e protege a população remanescente de baleias-jubarte do Brasil.

Com vagas abertas duas vezes por ano, no primeiro semestre, o programa de voluntariado recebe até 13 universitários para trabalhar em bases de Vitória (ES), Caravelas (BA) e Praia do Forte (BA), onde oferecem também alojamento.

As informações das novas datas são divulgadas no site e nas redes sociais do projeto.

Projeto Tamar

Anualmente, cerca de 150 estudantes participam dos programas de estágios-voluntários que duram de um a seis meses, de acordo com a base escolhida.

O Programa de Capacitação costuma receber estudantes dos cursos de biologia, oceanografia, ecologia, zootecnia e engenharia de pesca.

Os pré-requisitos e as atividades podem ser consultados no descritivo de cada base do Tamar, em diferentes estados do Brasil.

Santuário das Fadas

Embora só conte com trabalhos de voluntários da região e amigos próximos, a instituição tem um programa de apadrinhamento, em que o doador colabora com um valor mensal que varia de R$ 20 (aves resgatadas) a R$ 300 (bovinos). Saiba mais no site.

Conforme a fundadora Patrícia informou à reportagem, a atual fazenda do santuário, que é alugada, está para ser vendida e deverá ser entregue dentro de três meses. No momento, o santuário busca também apoio para a aquisição de um novo local para abrigar os animais.