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Brasileiro abre pizzaria e hamburgueria na Irlanda e fatura R$ 9 mi

Com fome de negócios, Francisco quer expandir negócios com cara de Brasil na Irlanda - Divulgação
Com fome de negócios, Francisco quer expandir negócios com cara de Brasil na Irlanda Imagem: Divulgação

Gabrielli Menezes

De Nossa

23/09/2021 04h00

O complexo de vira-lata, expressão e conceito criado pelo escritor Nelson Rodrigues, passa longe de Francisco Adamo de Oliveira Osório, de 35 anos. O empreendedor, que nasceu em Guarulhos (SP) e morou boa parte da vida no bairro paulistano da Mooca, está há cinco anos na Irlanda e tem se inspirado no Brasil para criar negócios gastronômicos do outro lado do Atlântico.

Junto de dois sócios, ele montou a 4Friends Burger, em junho de 2020, e a 4F Pizzeria, cuja estreia aconteceu em maio deste ano e trouxe uma novidade importada do Brasil: o rodízio de pizzas. Mesmo em pouco tempo de operação, a boa aceitação aparece na mídia gringa — a hamburgueria foi parar na lista das cinco melhores de Dublin publicada pelo portal Love Dublin — e nos números.

Da chapa da hamburgueria saem, por mês, até 8 mil sanduíches. Os lanches vão para a mesa do salão e entram nos carros dos entregadores para serem encaminhados aos clientes.

Francisco, Irlanda | 4F - Divulgação - Divulgação
Pizzas de fermentação longa e recheios caprichados
Imagem: Divulgação

A pizzaria funciona no mesmo espaço físico, no centro da capital, mas conta com uma loja virtual própria nos aplicativos de delivery. A cada 30 dias, a equipe serve 6 mil discos.

Considerando os últimos doze meses, o grupo chamado de 4F faturou 1,5 milhão de euros.

Entre o cuidado e a fartura

Com 200 gramas de carne e pão de mais de 11 centímetros de diâmetro, os hambúrgueres chamam a atenção da capital irlandesa pelo tamanho.

Francisco, Irlanda | 4F - Divulgação - Divulgação
Disco de 200 gramas de carne
Imagem: Divulgação
Francisco, Irlanda | 4F - Divulgação - Divulgação
Queijo empanado que escorre
Imagem: Divulgação

Outro ponto de destaque, segundo Francisco, é o blend da casa. Inspirado em hamburguerias do Brasil, é composto de dois cortes bovinos e apresenta 25% de gordura.

Pelo que pesquisamos, aqui não é comum ter tanta gordura. É isso que dá suculência e deixa a carne macia"

Complementos, como a cebola caramelizada, a maionese e a geleia de bacon, são todos feitos in loco. "Assim conseguimos deixar do nosso jeito".

O verdadeiro cartão de visitas, no entanto, é o Camembert empanado. Embora o ingrediente seja francês, a ideia de colocar o preparo entre duas fatias de pão foi importada do país tropical. No melhor estilo porn food, o queijo derrete, rende boas fotos e lambuza os clientes.

Queijo camembert é cartão de visitas - Divulgação - Divulgação
Queijo camembert é cartão de visitas
Imagem: Divulgação

Na pizzaria, a combinação de sucesso foi juntar a receita de uma massa levinha, que fermenta de 24 a 48 horas, ao molho de tomates de verdade e às coberturas fartas.

Os sabores são os favoritos dos brasileiros, como portuguesa e frango com catupiry.

A massa da pizza é italiana, mas os gringos têm dificuldade de aceitar a cobertura caprichada. Para eles, é muito recheio".

Francisco, Irlanda | 4F - Divulgação - Divulgação
Pizza portuguesa
Imagem: Divulgação
Piza de frango com catupiry - Divulgação - Divulgação
Piza de frango com catupiry
Imagem: Divulgação

Irlanda brasileira

Enquanto a hamburgueria tem o público geral como alvo, a pizzaria quer fisgar o coração da comunidade brasileira, que é de 15.800 pessoas considerando toda a Irlanda, de acordo com o censo de 2016.

Para agradar aos clientes, a porção de coxinhas surgiu como opção de petisco ao lado dos dadinhos de tapioca, criação de Rodrigo Oliveira, do Mocotó (Vila Medeiros, São Paulos) que é replicada no Brasil e no mundo.

Dadinhos de tapioca: criação de Rodrigo Oliveira, do Mocotó, foi parar na Irlanda - Divulgação - Divulgação
Dadinhos de tapioca: criação de Rodrigo Oliveira, do Mocotó, foi parar na Irlanda
Imagem: Divulgação

Fora do cardápio, a proposta também fica clara no Instagram da pizzaria, onde toda a comunicação é feita em português. No salão, há o menu impresso em inglês para os irlandeses e os demais estrangeiros, que representam cerca de 5% dos fregueses.

"A maioria dos brasileiros daqui frequenta um comércio de outro brasileiro toda semana. É muito normal. Tanto porque dá saudade das comidas quanto porque existe um senso de comunidade. A gente se ajuda".

Rodízio em galera

Francisco e os sócios decidiram apostar no rodízio de pizzas — tradicional no Brasil, mas uma novidade em terras irlandesas — como uma opção além do à la carte. O serviço só seria lançado quando a brigada recebesse os fornos a gás do Brasil, mas a largada foi queimada.

Para incentivar a reunião de grupos maiores de pessoas e encher o salão, a equipe decidiu estrear o sistema em dias especiais. "A ideia era servir o rodízio para quem quisesse fazer aniversário acima de 15 pessoas".

Francisco, Irlanda | 4F - Divulgação - Divulgação
Francisco e a sócia Lilás
Imagem: Divulgação

Desde que lançaram o esquema, porém, acontece rodízio todos os fins de semana. "Sempre fazem evento. O pessoal gosta muito. Em breve vamos estabelecer dias fixos".

O público prova todas as pizzas disponíveis, além de alguns sabores criados na hora por Francisco, e tem direito de comer entradinhas e sobremesas por 21,90 euros — convertendo, R$ 135,70.

Sem saber falar inglês nem cozinhar

O próximo objetivo do grupo é estruturar a empresa para lançar um braço dedicado às esfihas abertas e abrir novas unidades das marcas existentes em outros pontos da cidade.

Quem vê o negócio de Francisco decolar, porém, não imagina que ele chegou ao país em 2016 sem falar inglês nem cozinhar.

Francisco e a família em viagem por Paris - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Francisco e a família em viagem por Paris
Imagem: Arquivo pessoal

Desiludidos com as perspectivas em São Paulo, ele e a mulher, Niccole Benzoni, venderam o que tinham e juntaram dinheiro para embarcar na empreitada internacional. "Meu frila na época era fazer uber. Pegava o carro da minha esposa e rodava até de madrugada".

Eles contrataram a assessoria de uma agência e chegaram em Dublin com o curso de inglês esquematizado. Sempre de olho em oportunidades de negócios, Francisco vislumbrava ser um ponto de apoio da empresa brasileira na Irlanda.

Deu certo: alugou uma casa para receber novos alunos e passou a oferecer walking tour e serviço de transfer para ir e voltar do aeroporto.

Ele aprendeu a cozinhar na internet - Divulgação - Divulgação
Ele aprendeu a cozinhar na internet
Imagem: Divulgação

"Chegou um momento que percebi que estava totalmente dependente da agência. Se acontecesse algo, ia ficar sem trabalho".

Com essa preocupação em mente, Francisco deu entrada na cidadania europeia e começou a pesquisar em quais ramos poderia empreender. Logo notou que na cidade não havia esfihas abertas como no Brasil e resolveu testar receitas.

Meus professores foram o Google e o YouTube".

Quando chegou ao resultado que procurava, achou um ponto, um sócio e colocou a Sampa Food para funcionar. "Postei nas redes sociais dos grupos de brasileiros no Facebook. A partir daí, não parou mais. Recebíamos pedidos pelo WhatsApp e trabalhávamos com delivery e take away".

Por desentendimentos com o parceiro de negócios, porém, o empreendimento, que operou por três anos e era tido como a primeira esfiharia de Dublin, fechou as portas. "Não me arrependo de nada. O Sampa Food foi como uma escola. Aprendi muito".

Francisco e a família aproveitando a Irlanda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Francisco e a família aproveitando a Irlanda
Imagem: Arquivo pessoal

Olhando para trás e para a história que construiu na Irlanda junto de Niccole e do filho Matteo, de 3 anos, Francisco diz que ainda não é hora de voltar para o Brasil. "Não vou dizer nunca, mas no momento eu penso em expandir aqui. Quero que a 4Friends seja reconhecida no país".

Para se sair bem na missão, o empreendedor decidiu retomar as aulas de inglês. "Agora, busco o inglês de negócios. Tenho dificuldade até hoje. Me virei do jeito que dava".

Isso mostra que qualquer pessoa consegue fazer o que quer com as ferramentas que tem".