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Em 5 meses de trajeto, brasileiro encara lendária trilha dos Estados Unidos

André durante a Pacific Crest Trail, trilha lendária que cruza a costa oeste americana - Arquivo pessoal
André durante a Pacific Crest Trail, trilha lendária que cruza a costa oeste americana
Imagem: Arquivo pessoal

Marcel Vincenti

Colaboração com Nossa

30/06/2021 04h00

A trilha Pacific Crest Trail (PCT) , que corta a costa oeste dos Estados Unidos por mais de 4.200 quilômetros de extensão, desafia física e mentalmente caminhantes que cruzam os estados da Califórnia, Oregon e Washington — e já foi até locação de filme ("Livre", de 2014, estrelado por Reese Witherspoon).

E uma das pessoas que alcançaram este feito foi o brasileiro André Felipe Fuão, hoje com 26 anos, que demorou nada menos do que cinco meses para percorrer o trajeto.

Eu sabia que esta era uma das trilhas mais lindas dos Estados Unidos e que cortava Estados americanos que queria conhecer. E é um trajeto que tem de tudo. Tem neve, deserto, florestas densas e montanhas", explica ele.

A caminhada pela Pacific Crest Trail começa na região da fronteira dos EUA com o México e, em um de seus primeiros trechos, já coloca os viajantes em uma desértica zona do sul da Califórnia. Mais ao norte, os caminhantes entram na área montanhosa da Sierra Nevada, com altitudes que passam dos 4.000 metros e possibilidades de abundância de neve.

André em um dos mirantes da Pacific Crest Trail - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
André em um dos mirantes da Pacific Crest Trail
Imagem: Arquivo pessoal

O horizonte fica mais verde com o ingresso no Estado de Oregon, com florestas lindíssimas. E, em Washington, um dos destaques vai para fotogênicas montanhas com picos nevados que coroam o horizonte. O percurso termina no Canadá.

André é um trilheiro experiente (já fez trekkings em locais como Nepal, Peru e Sudeste Asiático), mas considera a Pacific Crest Trail especial.

Isso porque, além de ter lindas paisagens, o trajeto envolveu uma superação.

"Três dias antes de começar a trilha, eu estava em Los Angeles e sofri um acidente de bicicleta. Machuquei seriamente meus dois joelhos. No primeiro dia da trilha, só consegui caminhar seis quilômetros. No segundo dia, foram oito quilômetros. Neste início de viagem houve muita dor, mas fui progredindo até conseguir fazer pelo menos 30 quilômetros por dia".

Cachoeira na Pacific Crest Trail - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cachoeira na Pacific Crest Trail
Imagem: Arquivo pessoal
André no final da Pacific Crest Trail - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
André no final da Pacific Crest Trail
Imagem: Arquivo pessoal

Qualquer esforço físico, entretanto, era recompensado pelos cenários naturais que marcam a PCT.

Na jornada, o brasileiro curtiu o nascer e o pôr do sol do deserto californiano, admirou áreas montanhosas cortadas por rios, atravessou terrenos cheios de cogumelos em uma floresta do Oregon e visitou lagos cercados por árvores.

E, de quebra, viu diferentes bichos, de cobras nas zonas áridas da Califórnia a ursos em um bosque.

Escalada e noites na natureza

O trajeto feito por André também incluiu a escalada do Mount Whitney, uma das mais altas montanhas dos Estados Unidos.

Acompanhado por outras pessoas que estavam fazendo a PCT, comecei a caminhada para a montanha à meia-noite e chegamos a andar com neve até o joelho. Foi um dos momentos que mais me marcaram na viagem", relembra.

André durante a Pacific Crest Trail - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
André durante a Pacific Crest Trail
Imagem: Arquivo pessoal

Em seu dia a dia, ele carregava um mochilão com roupas para frio e calor, barraca de camping, saco de dormir e equipamentos para preparar refeições, como fogareiro e panela.

E, na hora de descansar, o brasileiro teve a oportunidade de passar a noite no meio de uma incrível variedade de paisagens: sem possibilidade de chuva, dormiu fora de sua barraca sob as estrelas do deserto. Também acampou no alto de serras, entre as árvores de bosques e perto de rios e lagos.

Para conseguir comida, porém, ele tinha que abandonar momentaneamente a natureza: quando passava perto de alguma estrada e via que seus mantimentos estavam acabando, o brasileiro pegava carona e ia até a cidade mais próxima, para se reabastecer de alimentos (e, frequentemente, lavar suas roupas e se hospedar por uma noite em um hotel para tomar um banho quente).

O retorno à Pacific Crest Trail era feito da maneira mas rápida possível e, em um piscar de olhos, André estava novamente embrenhado na trilha.

Dedo congelado

Além de ter começado a trilha com dores intensas nos joelhos, André enfrentou momentos difíceis durante a viagem.

Na Califórnia, por exemplo, ele chegou a caminhar mais de 800 quilômetros em terrenos nevados, em aproximadamente 50 dias seguidos. Também cruzou rios a nado, enquanto carregava o mochilão.

André durante a Pacific Crest Trail - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
André durante a Pacific Crest Trail
Imagem: Arquivo pessoal

Já durante a subida no Mount Whitney, sob um frio intenso, pontas dos dedos do pé do brasileiro congelaram.

"Senti muita dor. Saí da trilha e fui a um médico, que recomendou que eu ficasse três meses sem andar. Mas voltei para a trilha cinco dias depois", afirma.

Ao atingir o final da Pacific Crest Trail, André havia perdido 7 quilos (e usado, até gastar, quatro pares de calçados de caminhada).

Muitas pessoas que começaram a trilha na mesma época que eu desistiram no meio do caminho. Para mim, completar a PCT gerou um sentimento de dever cumprido", avalia.