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Os incríveis cartazes da luta (fracassada) da URSS contra o alcoolismo

"Nem uma gota", diz o cartaz da campanha - Reprodução
"Nem uma gota", diz o cartaz da campanha Imagem: Reprodução

Felipe van Deursen

Colaboração para Nossa

01/01/2021 04h00

Hoje, em média, o russo bebe menos que o alemão ou o francês. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o consumo de álcool na Rússia caiu 43% desde 2003, graças a uma série de medidas do governo, como a proibição de venda de bebidas após as 23h, aumento do preço mínimo para o consumidor e campanhas em prol de um estilo de vida mais saudável.

Parece surpreendente. E é mesmo. A fama de nação bêbada tem respaldo histórico.

Alcoolismo é um drama de saúde pública há séculos na Rússia. Efeito colateral do protagonismo que a vodca tem na economia do país desde antes de o império se consolidar. Em 1478, o governo tirou o domínio da Igreja sobre a produção e iniciou o processo de monopolização da bebida, o que se consolidou sob o reinado de Ivan, o Terrível (1530-84).

"Seu mundo interior"

Cartazes soviéticos antiálcool 05 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A vodca foi o primeiro produto industrial de massa russo. Mais que isso, ela deu o impulso necessário para Ivan, que adotou o título de czar, colocar em prática o projeto de uma nação russa, centrada em Moscou.

O monopólio deu certo, porque beber fazia parte da vida das pessoas. Os vários tipos de vinho de cereal, como a vodca era chamada, estavam no cotidiano. Russos bebiam em negociações. Bebiam na colheita. Na falta de dinheiro, pagavam em bebida. Subornavam em bebida. A mulher entrou em trabalho de parto? Vodca. Bebê não para de chorar? Vodca goela abaixo que é para acalmar.

"Não sou eu que sou amado pela mamãe"

Cartazes soviéticos antiálcool 04 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"Vamos expulsar os bêbados do ambiente de trabalho"

cartazes soviéticos - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Nada muito diferente do que outros povos faziam na mesma época, mas os russos se destacavam no quesito. A popularização do destilado no cotidiano criou uma permanente classe de bêbados e contribuiu inclusive com o aumento de incêndios no país.

Não que a Rússia seja há 500 anos um país exclusivo de pinguços, é evidente. As posições sóbrias da Igreja Ortodoxa Russa ecoavam nos discursos da temperança, movimento antiálcool que cresceu bastante no fim do século 19, com o apoio de algumas da mentes mais brilhantes do país.

"Passagem para outro mundo"

Cartazes soviéticos antiálcool 07 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"A vodca é uma bebida incolor que pinta seu nariz de vermelho e enegrece sua reputação", declarou Anton Tchekhov. Fiódor Dostoievski, filho de um alcoólatra, escreveu que "o consumo de bebidas alcoólicas brutaliza o homem e o transforma em um selvagem". Já o outrora bêbado contumaz Leon Tolstoi escreveu sobre os malefícios do álcool e criou, em 1887, a Liga Contra a Embriaguez.

Em 1914, com o país em crise e o czar Nicolau 2º desacreditado, o governo decretou a Lei Seca, a primeira do gênero na história. Com soldados sóbrios, o país teria melhores condições para entrar na Primeira Guerra Mundial. Além disso, com o conflito, o povo voltou a se unir e apoiar o czar.

Não por muito tempo. Com a Lei Seca, secou também o dinheiro que abastecia os cofres estatais com o monopólio de álcool. Faltaram investimentos nas forças mobilizadas para a guerra e na infraestrutura do país. O povo se revoltou, a Rússia apanhou em combate, a revolução estourou. A vodca acelerou a queda do czarismo.

"Ficou bêbado, estragado, quebrou a árvore. Está com vergonha de olhar as pessoas no rosto"

Cartazes soviéticos antiálcool 03 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Os líderes da Revolução Russa condenavam o álcool e mantiveram a proibição. Mas, em 1924, a União Soviética, país criado dois anos antes, retomou a produção, dando início a uma nova era de monopólio. Em 1943, após a vitória sobre os nazistas na Batalha de Stalingrado, o Exército Vermelho passou a dar uma ração diária de vodca aos soldados.

No começo, quem não bebia optava por chocolate, mas em 1945 o hábito já era tão comum entre as tropas que recusar a dose podia ser visto como insubordinação. Como toda a população masculina ativa da URSS estava no Exército, a bebedeira rapidamente voltou à rotina e se tornou uma constante nos anos socialistas.

Uma das primeiras medidas da Perestroika, o movimento de reformas liderado por Mikhail Gorbachev a partir de 1985, foi lançar uma forte campanha antiálcool. O problema, segundo os críticos, é que a medida mirou a produção de vodca, e não a saúde pública. Fazendas foram dissolvidas e destilarias, quebradas.

"Ou [o bebê], ou [a vodca]"

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Imagem: Reprodução

Sobrou para a economia nacional, pois a vodca ainda era monopólio estatal, responsável por cerca de 25% do orçamento do governo. A produção de samogon (destilado clandestino e muitas vezes tóxico) voltou a crescer, detonando a saúde da população, que recorria até a fluido de geladeira para se entorpecer.

Com o colapso soviético, a Rússia ressurgiu como um país em 1991, comandada por Boris Yeltsin. O novo presidente seria uma das grandes figuras políticas globais da década, porém, com o passar dos anos, isso se devia mais a uma imagem folclórica do que de liderança. Yeltsin aparecia em eventos visivelmente bêbado e teria problemas graves com alcoolismo.

Cartazes soviéticos antiálcool 02 - Reprodução - Reprodução
“E falam que nós somos os porcos”
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cartazes soviéticos - Reprodução - Reprodução
"É hora de acabar com a festa”
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Nos anos soviéticos, houve diversas campanhas de conscientização e combate ao consumo excessivo de álcool no país. Muitas vinham munidas de cartazes produzidos pela cultuada escola do design gráfico russo.

Os cartazes (que foram apresentados no decorrer desta reportagem) são uma pequena aula de história da arte e de saúde pública.

Cartazes soviéticos antiálcool 09 - Reprodução - Reprodução
“Socialmente perigoso”
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“Pare, antes que seja tarde”
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