PUBLICIDADE
Topo

O que acontece quando hobbies "de rico" viram tendência de moda?

Miu Miu | Outono-inverno 2021 - Divulgação
Miu Miu | Outono-inverno 2021
Imagem: Divulgação
Gustavo Frank

Gustavo Frank

Formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui certificados em "Análise da Criação de Artes Visuais", na Escola Nacional de Belas Arte de Lyon (ENSBA Lyon), e no curso "Fashion as Design", parte do programa de ensino do Museu de Arte Moderna (MoMA).

De Nossa

15/06/2021 04h00

"Que tal um final de semana esquiando na montanha?" ou "vamos passear a cavalo?" são perguntas relacionadas a atividades que poucos de nós temos acesso — que dirá realizá-las de fato. Por outro lado, esses hobbies parecem ter se transformado em uma tendência para as grandes grifes na Europa — o que torna as coisas um pouco mais compreensíveis, mas ainda peculiares.

A moda na montanha já vem ganhando força há algum tempo. A italiana Moncler é um exemplo disso. A marca, que recentemente anunciou o antigo dirigente da Nike Gino Fisanotti como diretor e a compra da Stone Island, é especialista em vestuários montanhosos e vem se tornando uma das favoritas no mercado de luxo. Na avaliação da Lyst Index, no primeiro trimestre de 2021, ela aparece em 5º lugar entre as "mais quentes do momento", superando nomes como a Prada e a Louis Vuitton.

Moncler - Divulgação - Divulgação
Moncler
Imagem: Divulgação

A Moncler carrega ainda o título de "marca de luxo mais sustentável do mundo", segundo o Dow Jones Sustainability Indices (DJSI), indicador global de performance financeira. O lançamento das jaquetas Born to Protect, feitas a partir de materiais reciclados, foi um dos impulsionadores para esse feito.

Jaqueta Born to Protect, da Moncler - Divulgação - Divulgação
Jaqueta Born to Protect, da Moncler
Imagem: Divulgação

Essa peça, em especial, nos leva às jaquetas puffers, os casacos mais queridos do momento. Nos últimos tempos, em que dificilmente pudemos abraçar outras pessoas, elas foram escolhidas como os substitutas para tal demonstração de afeto.

"Esse é um tipo de casaco que até bem pouco tempo atrás era tido como cafona, sem silhueta, que não valorizava o corpo. A ideia da silhueta aumentada fez com que ele voltasse à tona de uma forma fashion e não mais apenas como proteção para baixas temperaturas", disse o professor Marcio Banfi, stylist e professor da Faculdade Santa Marcelina, para Nossa.

A Miu Miu foi uma das marcas que escolheu a peça como uma das estrelas da coleção outono/inverno 2021. Para isso, modelos foram levadas até a montanha para um desfile que parecia um passeio na estação de esqui. As demais roupas vestidas por elas traziam materiais próprios para a atividade: macacões peludos e balaclavas que protegiam parte dos seus rostos, sendo esse último em cores pastel.

Criamos roupas que poderiam desafiar a percepção e o contexto, além da pretensão de praticidade"
Miuccia Prada

Miu Miu | Outono/Inverno 2021 - Divulgação - Divulgação
Miu Miu | Outono/Inverno 2021
Imagem: Divulgação
Miu Miu | Outono/Inverno 2021 - Divulgação - Divulgação
Miu Miu | Outono/Inverno 2021
Imagem: Divulgação

Os tecidos peludos e acolchoados marcaram presença também da Chanel para o Ready-to-Wear Outono/Inverno 2021. As peças apresentadas, dessa vez, se adequavam mais ao urbano.

Provavelmente, até esse ponto, você já considerou em algum instante: mas as pessoas que compram essas roupas, com valores (bem) distantes do popular, não são as mesmas que praticam tais atividades, como o esqui? O questionamento é retórico. Mas é esse o papel exclusivo da moda?

Nem todas as grifes pensam assim.

Gucci | Aria - Divulgação - Divulgação
Gucci | Aria
Imagem: Divulgação

Para Aria, coleção centenária de Alessandro Michele para a Gucci, o esqui deu lugar às cavalgadas. Além do destaque para as peças que traziam a identidade da Balenciaga — ambas pertencem ao grupo Kering — como sinal de admiração do diretor criativo, quem também chamou a atenção foram os trajes dignos de um passeio à cavalo luxuoso: botas de cano alto prendendo as calças para o interior do calçado e, ainda mais vislumbrante, os chapéus de equitação.

Gucci | Aria - Divulgação - Divulgação
Gucci | Aria
Imagem: Divulgação

A ideia de Michele para a coleção era retomar as origens da Gucci como um fabricante de selas para a nobreza italiana. Mas não se restringiu a isso. Embora os artigos de luxo remetessem a esse campo burguês, o caminhar de quem vestia essas roupas trazia um comportamento subversivo, enquanto como, por exemplo, estalavam os chicotes na passarela.

Na mesma linha, com direito a decotes para a coleção masculina, à la "Vestido da Vingança" de Lady Di, a alemã GmbH foi ainda mais incisiva. Com modelos, dentre eles muitos negros, vestindo as camadas de pelo sintético e peças que claramente faziam referência à equitação, marca confrontou o motivo pelo qual tais hobbies ainda são associados à determinado grupo de pessoas.

GmbH | Outono 2021 - Divulgação - Divulgação
GmbH | Outono 2021
Imagem: Divulgação

Por que certos espaços e atividades, como passeios a cavalo, caminhadas ou esqui são normalmente vistos como mais para gente rica, branca e bougie? Basicamente, queríamos recuperar esse espaço".
Serhat Isik, diretor criativo da GmbH, à i-d Magazine

GmbH | Outono 2021 - Divulgação - Divulgação
GmbH | Outono 2021
Imagem: Divulgação
GmbH | Outono 2021 - Divulgação - Divulgação
GmbH | Outono 2021
Imagem: Divulgação

Além de servir como símbolo de ostentação para quem tem condições financeiras — e pode desembolsar milhares de dólares na compra dessas roupas —, a moda, principalmente nos tempos de pandemia, mostrou um caminho ainda mais interessante a ser seguido: a criação de peças que, a partir da fantasia, discutem a atualidade e questões sociais.

A partir dessa fórmula, é possível fazer com que, não só o público que pode comprá-las, mas um leque maior de pessoas possa se identificar com a marca.