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REPORTAGEM

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Abandonada algumas vezes, ilha na Antártida recebe turistas com... praia

Banho em águas vulcânicas, em Port Foster, Deception Island - Lyubomir Ivanov
Banho em águas vulcânicas, em Port Foster, Deception Island Imagem: Lyubomir Ivanov

Colunista de Nossa

03/04/2022 04h00

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62º56'S, 60º31'O
Ilha Deception
Ilhas Shetland do Sul, Antártida

A primeira visita de que se tem notícia ocorreu no começo de 1820, quando um brigue inglês navegou por seu entorno. No verão seguinte, em novembro do mesmo ano, o americano Nathaniel Palmer, a bordo de uma chalupa (embarcação pequena, de um ou dois mastros), desembarcou nessa pequena ilha das Shetland do Sul, na Antártida.

Palmer era de uma família de navegadores. Um de seus filhos foi uma das inspirações para "Moby Dick". A Península Antártida já foi conhecida como Terra de Palmer.

Naquela pequena ilha, ele se enganou. Surpreendeu-se com seu formato: não tinha visualizado o canal estreito que se abria para uma baía em forma de ferradura. O pequeno engano o levou a chamar a ilha de Deception.

Alguns dicionários até usam "decepção" como uma tradução possível para "deception", mas professores de inglês o consideram um falso cognato. Palmer pode até ter ficado decepcionado com a ilha, mas o que o levou a batizá-la foi a ilusão da paisagem, segundo William James Mills em "Exploring Polar Frontiers: A Historical Encyclopedia".

Ou seja, um engano mais físico, óptico, do que psicológico. O que ele achou que fosse uma costa sem muitas reentrâncias era, na verdade, uma baía profunda que se revelaria a cratera de um vulcão.

Deception Island - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Deception Island
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Ao longo desses 200 anos, Deception teve pontos altos e baixos, muito baixos (eu diria nulos) na escala de popularidade entre os humanos. Hoje, virou, sem querer, um "laboratório do impacto do turismo nas Shetland do Sul", escreveu Cláudia Collucci na "Folha". Já chegamos lá.

Logo após a visita de Palmer, Deception virou um pequeno polo de caça de focas. Em 1822, centenas de navios aproveitavam o porto natural da ilha, com poucos ventos e pouco gelo. Mas bastaram alguns anos para as caçadas levarem as focas praticamente à extinção nas Shetland do Sul. Em 1825, Deception foi abandonada.

Houve apenas algumas expedições à ilha nos anos seguintes. Mas nada muito relevante.

Restos de um barco de madeira na Whaler's Bay, Deception Island - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Restos de um barco de madeira na Whaler's Bay, Deception Island
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Em 1904, uma outra indústria exploratória chegou àquelas paragens. A caça de baleias já dominava a Geórgia do Sul, 1.700 quilômetros ao norte, mas nas Shetland do Sul teve que se adaptar. Não havia infra-estrutura, então os animais mortos precisavam ser rebocados para navios-fábrica para serem processados. Essas embarcações necessitavam água doce e um ancoradouro protegido, algo que Deception podia oferecer.

Uma companhia norueguesa-chilena iniciou a exploração e foi seguida por outras. Treze navios operavam na baía, e centenas de homens habitavam Deception durante a temporada.

Com o dinheiro fluindo da gordura cetácea, uma questão geopolítica básica aflorou com quase cem anos de atraso. A quem pertencia a ilha?

Palmer podia ser americano, mas os Estados Unidos não demonstraram interesse. Chilenos e argentinos estavam de olho, até que em 1908 os britânicos declararam que Deception pertencia ao arquipélago das Falklands. Logo, era inglesa.

Eles estabeleceram serviços postais e aduaneiros e decidiram que as empresas baleeiras que atuavam na ilha deveriam pagar taxas e licenças. Por um período, funcionou. Deception ganhou estação de rádio, ferrovia e o maior cemitério da Antártida.

Nos anos 1920, os navios-fábricas ganharam rampas para rebocar os animais, dispensando a necessidade de ancoradouros e, consequentemente, de ficarem fixos a um lugar. Os baleeiros, então, mandaram uma banana para os ingleses, e em 1931 já não havia mais ninguém na ilha. De novo.

Pinguins na Deception Island - Getty Images - Getty Images
Pinguins na Deception Island
Imagem: Getty Images

Dez anos depois, no contexto da Segunda Guerra Mundial, um navio de guerra britânico destruiu tanques de combustível e outros suprimentos para evitar que caíssem nas mãos dos alemães. Em 1942, 40 anos antes da Guerra das Malvinas, os argentinos desembarcaram na ilha e hastearam ali a bandeira celeste. No ano seguinte, os ingleses a retiraram.

As disputas terminaram em 1959. A assinatura do Tratado da Antártida estabeleceu que todo o continente, ou partes dele, não pertencia a nenhum país específico e que somente expedições científicas poderiam ocupá-lo. Qualquer luta pelo controle de Deception tornou-se ilegal.

Não que alguém a quisesse àquela altura. Em 1967, a ilha entrou em erupção e destruiu as estações científicas e demais instalações que sobraram. Mais uma vez, foi entregue ao abandono.

Nas últimas décadas, ela tem entrado em roteiros de cruzeiros pela Antártida. Há motivos para visitá-la. Além do formato inusitado, a ilha abriga colônias do simpático pinguim-de-barbicha e oferece banhos de águas termais. Cave um pouco na areia e você poderá curtir a praia mais excêntrica da sua vida — na Antártida!

Por causa da presença de turistas em Deception, ou melhor, em uma área específica acessível a eles, os cientistas estão analisando o impacto no ambiente. Em amostras do solo, eles já encontraram DNA de cebola, uva, plantas e fungos invasores e maconha.

A temperatura de nenhum lugar do mundo está aumentando tanto como na Antártida. Então a presença de espécies invasoras pode acelerar o desaparecimento das nativas. Isso, por sua vez, pode mudar as políticas públicas do turismo antártico.

Deception pode se tornar uma breve desilusão de um tempo em que a agressiva indústria de cruzeiros parecia invencível. Invadia cidades minúsculas do Mediterrâneo e levava hordas de ricos aposentados aos confins da Terra.

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