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REPORTAGEM

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Indústria de móveis baratos e corrupção estão matando "Amazônia da Europa"

Urso das florestas romenas, consideradas a "Amazônia da Europa" - Getty Images/iStockphoto
Urso das florestas romenas, consideradas a "Amazônia da Europa" Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

20/03/2022 04h00

47º30'N, 25º55'L
Floresta de Slatiorara
Suceava, Romênia

Ao longo do último milhão de anos, florestas de faias, gênero de árvores típicas do Hemisfério Norte, sobreviveram às Eras do Gelo em alguns pequenos refúgios isolados da Europa. Ao final da última era glacial, há cerca de 11 mil anos, esses bosques passaram a crescer e a se adaptar a novos climas por todo o continente.

Parte disso sobreviveu, apesar do desenvolvimento da agricultura, 7,5 mil anos atrás, da urbanização crescente dos últimos séculos e da Revolução Industrial.

Um mapeamento da Universidade Humboldt, da Alemanha, indica que 34 países europeus ainda tenham resquícios de florestas primárias, ou seja, aquelas que nunca sofreram mudanças significativas causadas pelos humanos. Áreas em 18 países integram as "florestas primárias e antigas de faias dos Cárpatos e outras regiões", nome pelo qual a Unesco as agrupou e definiu como patrimônio natural da humanidade.

Acontece que elas não estão protegidas totalmente. Nem perto disso.

Cárpatos, em Bucegi, Romênia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Cárpatos, em Bucegi, Romênia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Como o nome diz, os Cárpatos, cadeia de montanhas no centro e no leste do continente, concentram a maior parte dessas florestas. Muitas ficam em dois países em especial. Um é a Ucrânia, cujo futuro é incerto por causa da atual guerra, embora seja cedo para cravar alguma ameaça direta e específica, já que seus bosques ancestrais ficam no extremo-oeste do país, mais afastadas do conflito.

O outro é a Romênia, que vem sendo chamada nos últimos anos de "Amazônia da Europa". No melhor e no pior dos sentidos.

Os Cárpatos romenos preservam cerca de 70% das florestas virgens europeias. A história do país ajuda a explicar. A maior parte das matas do continente foi para o beleléu a partir da Revolução Industrial, no século 18. Só que esse processo de industrialização não foi nada homogêneo. Começou na Grã-Bretanha e seguiu para Bélgica, França, Alemanha, Áustria-Hungria, depois para Estados Unidos, Japão?

A Romênia demorou para se industrializar e, consequentemente, derrubar florestas. Há 200 anos, uma coisa estava ligada à outra. Hoje, só mentes estreitas defendem que cortar árvores é bom para a economia.

Somente 4% das florestas virgens da Europa ficaram de pé com os avanços da Revolução Industrial. A Romênia surgiu como um país independente do Império Turco-Otomano em 1878 (outros territórios, como a Transilvânia, permaneceriam sob domínio austro-húngaro até o fim da Primeira Guerra Mundial). Com os otomanos em plena decadência e distante dos centros da Europa Ocidental, o país não viveu essa primeira onda de industrialização.

Na Segunda Guerra, mesmo seguindo Hitler no início, o país se aliou aos soviéticos logo que eles se saíram vencedores. Uma das primeiras medidas dos socialistas no poder foi converter todas as florestas romenas em propriedade pública, deixando-as afastadas do mercado internacional de madeira. Consequentemente, florestas apinhadas de abetos, faias e carvalhos permaneceram décadas praticamente intocadas.

Veja bem, comentarista apressadinho, não estou aqui dizendo que o socialismo era um sistema amigo da sustentabilidade, paz-e-amor e abraçador de árvores. Levando-se em conta o tamanho de suas economias, a União Soviética gerava 50% mais poluição do que os Estados Unidos, segundo um estudo de 1994. Mas, no caso específico da Romênia, geografia e história colaboraram para ela preservar tantas florestas.

O jogo virou

Cachoeira de Bigar, no parque Nera Beusnita Gorges, na Romênia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Cachoeira de Bigar, no parque Nera Beusnita Gorges, na Romênia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Em 2007, o país ingressou na União Europeia. Uma onda de privatizações inaugurou uma era de corrupção desenfreada. Em 2011, a Romênia chegou ao 75º lugar no Índice de Percepção da Corrupção, da Transparência Internacional (duas posições atrás do Brasil).

O acesso ao pujante mercado europeu escancarou as portas para a barata e abundante madeira romena. Madeireiras austríacas e fabricantes de móveis suecos logo sentiram o cheirinho de oportunidade e abriram escritórios em Bucareste e em outras cidades.

Pinos, carvalhos, bordos e, especialmente, abetos e faias, alimentam a crescente indústria de móveis de baixo custo, o que na gringolândia é chamado de "fast furniture" e já é visto como um problema para o planeta semelhante à "fast fashion".

A marca que representa isso tudo, a Zara dos móveis, é a Ikea. Ela não opera no Brasil, mas a sua presença comum em séries americanas, em editoriais de revistas e sites estrangeiros e no perfil de influenciadores a deixou relativamente bem conhecida por aqui. Produtos e lojas da Ikea aparecem em cenas importantes de "Clube da Luta" (1999), "(500) Dias com Ela" (2009) e "Deadpool" (2016). Ela foi satirizada em "30 Rock" e ganhou sua versão springfieldiana dos Simpsons.

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Por essas e outras, eu chuto que, assim que a primeira loja abrir por estes trópicos, filas imensas formar-se-ão, tal qual quando o Burger King chegou a São Paulo, em 2004. Até no Reddit já estão perguntando quando isso vai acontecer.

A Ikea é, hoje, um colosso. Tem mais de 400 lojas em 50 países e é a maior consumidora de madeira do planeta: são 2 milhões de árvores por ano, e 10% disso viria da Romênia.

Toda essa gula dobrou em dez anos, e em 2016 ela já consumia 1% da madeira disponível comercialmente no planeta. A empresa sueca desembarcou na Romênia em 2015, começou a comprar florestas às baciadas e, em questão de meses, virou a maior proprietária privada de terrenos do país.

Entre 2015 e 2018, 38,6 milhões de metros cúbicos de madeira, por ano, deixaram a Romênia, segundo um documento vazado do governo — sendo que apenas 18,5 milhões haviam sido licenciados, segundo uma reportagem do site "New Republic". Ou seja, pelo menos metade dessas árvores foi derrubada ilegalmente. Estima-se que, desde a entrada na UE, 15 anos atrás, algo entre 50% e 65% das florestas ancestrais da Romênia vieram abaixo.

O resto da história conhecemos bem. Onde há extração ilegal de madeira, há violência. Em 2017, a ex-ministra do meio ambiente foi envenenada com mercúrio após tentar barrar a prática. Em 2019, dois guardas florestais foram assassinados. Os crimes levaram a Agência de Investigação Ambiental (EIA, na sigla em inglês) a comparar esse pequeno país "nos confins da União Europeia" a grandes regiões famosas por serem praticamente um velho oeste da exploração madeireira: a Rússia, a Bacia do Congo e a Amazônia.

É uma realidade para a qual a Romênia jamais se preparou. Em 2015, havia somente 617 guardas florestais, e essa diminuta equipe não trabalhava à noite nem nos fins de semana. Voluntários e ativistas precisam se juntar a eles para tentar proteger o que resta.

A Ikea e outras empresas que atuam na Romênia fizeram pouco das acusações. Disseram que quase 100% de sua madeira tem procedência sustentável, com selinho e tudo, e chegaram a alegar, segundo a EIA, que muito desse desmatamento ilegal vinha, na verdade, dos cidadãos romenos em busca de lenha.

Detalhe importante que deixa esse argumento ainda mais surreal e de mau gosto: enquanto a derrubada de árvores disparou no país, a população diminuiu de 23 milhões, em 1991, quando o período socialista virou passado, para 19 milhões. Fica difícil.

Vista das montanhas Rarau, na Romênia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vista das montanhas Rarau, na Romênia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A ameaça às florestas primárias não é grave apenas por elas representarem um legado de milhares de anos, por terem uma riqueza descomunal de biodiversidade e por serem importantes para a conservação do solo e a dinâmica dos recursos hídricos. Além de tudo isso, florestas antigas absorvem até 70% mais gás carbônico do que árvores replantadas. Preservá-las significa ter uma arma muito mais potente contra as mudanças climáticas.

O Brasil lidera o ranking de derrubada desse tipo de floresta nos últimos anos, segundo a ONG Global Forest Watch. Países como RDC, Indonésia, Bolívia, Peru e Colômbia vêm atrás. Bem atrás.

A violência está crescendo. No ano passado, ativistas e jornalistas que documentavam a extração de madeira no condado de Suceava foram espancados por um bando de 20 pessoas, segundo o site local "Romanian Journal".

Em Suceava ficam algumas das maiores serrarias da Romênia. A Ikea possui grandes propriedades na região.

Suceava fica na região histórica de Bucovina, considerada uma fronteira da Europa Central com a Oriental. Foi capital do antigo principado da Moldávia e, desde muito antes disso, abriga a floresta ancestral de Slatiorara, que integra o conjunto de bosques patrimônios da humanidade.

Nascer do sol em Bucovina, Romênia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Nascer do sol em Bucovina, Romênia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A madeira é tão importante para a cultura local que existe um museu aberto em Bucovina dedicado a preservar a arquitetura tradicional da região, toda baseada no material. O principado costumava ser apinhado de igrejas de madeira.

Até o time de futebol mais bem-sucedido de Suceava, que chegou a jogar na primeira divisão do campeonato romeno, tinha um nome que entregava a que veio. De uniforme verde e amarelo e em atividade até 2003, ele se chamava Foresta. Além dele, existe um outro Foresta em Suceava, que joga na série C e também usa o verde e o amarelo.

A herança da dominação romana explica por que a Romênia é o único país do Leste Europeu cujo idioma é neolatino (e, por isso, tem tantas palavras em comum com o português). Seria melhor se essas semelhanças com o Brasil parassem por aí.

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