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Pela paz, cidade peruana celebra o Natal com um festival de pancadaria

Mulheres lutam durante o Takanakuy, no Peru - Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images
Mulheres lutam durante o Takanakuy, no Peru
Imagem: Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

19/12/2021 04h00

14º27'S, 72º04'O
Arena de Santo Tomás
Chumbivilcas, Cusco, Peru


Sicília, Córsega e Montenegro têm algo em comum em seus rincões mais isolados. Lindos e montanhosos, são lugares onde, historicamente, a vingança se desenvolveu como algo cultural, às margens de sistemas judiciários formais. Há até termos específicos para os ritos de vingança de honra: "omertà" no sul da Itália, "rimbecco" na ilha francesa e "osvetta" no país balcânico.

Nas montanhas próximas a Cusco, a falta da lei também alimentou a cultura vingativa, mas com uma solução diferente. Algumas vilas e cidades promovem um festival de pancadaria na época do Natal. Pode parecer estranho, mas a ideia, em teoria, é promover a paz.

"Takanakuy", do quíchua para "troca mútua de golpes" (em português claro: cair na porrada), é um evento que acontece nas províncias de Chumbivilcas e Antabamba, nos departamentos de Cusco e Apurímac, respectivamente. O ritual das lutas ganha complexidade e beleza com o acompanhamento de canto e dança. É uma festa de briga, sim, mas é uma festa cultural.

O ápice do evento acontece no dia de Natal, em Santo Tomás, em Chumbivilcas. A arena da cidade recebe centenas de lutadores de cidades vizinhas, e os embates têm como trilha sonora a cantoria huaylilla, gênero que anda de mãos dadas com o Takanakuy.

Tradicionalmente, duas mulheres cantam, acompanhadas por harpa e violino. Acordeão, bandolim e violão também podem aparecer.

Além da música, há os personagens. O majeño simboliza os habitantes da região do rio Majes (no departamento vizinho de Arequipa), que trocavam aguardente por produtos de Chumbivilcas. Por isso sua indumentária mascarada inclui um chifre para levar o álcool, que tem especial importância no Takanakuy. É uma festa em que se bebe muito.

O qarawatana é um personagem que tem um animal dissecado na cabeça e um visual de membro de gangue, com casacos de couro. Assim como os outros, ele também usa uyach'ullu, uma máscara de esqui colorida e estilizada, que serve para ocultar a identidade da pessoa — algo útil quando se quer dançar em paz ou dar um safanão no seu cunhado.

O qarawatana do Takanakuy, no Peru - Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images - Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images
O qarawatana do Takanakuy, no Peru
Imagem: Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images

As origens do festival são incertas. Segundo a Universidade Wiener, de Lima, que realizou uma exposição sobre o Takanakuy, uma possível origem está nas fazendas escravocratas da região no século 19. O comércio com a zona de Majes era intenso, especialmente por cañazo, aguardente de cana-de-açúcar semelhante à cachaça e que hoje é uma bebida um tanto esquecida no país do pisco.

A ausência do Estado nessa terra sem lei propiciou o surgimento de rinhas espontâneas, que acabaram crescendo, institucionalizando-se em lutas organizadas, frequentes, com apostas, entre escravizados e majeños (por isso mesmo, outro personagem tradicional é o "negro").

Quem desce à arena tem algum motivo. Luta por esporte, a fim de demonstrar valentia e talento. Luta por amizade, por ter assumido o compromisso por alguém querido. Luta para resolver problemas pessoais ou familiares, por honra ou solidariedade.

Homens lutam durante o Takanakuy, no Peru - Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images - Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images
Homens lutam durante o Takanakuy, no Peru
Imagem: Sebastian Castaneda/Anadolu Agency/Getty Images

É por isso que os defensores do Takanakuy o veem como uma ferramenta de paz. Historicamente, nos lugares esquecidos pelo poder central, ignorados por governos, a lei e a justiça se impõem de outras maneiras, com frequência mais violentas, seja em ciclos de vingança que afogam gerações em sangue, como no sul da Itália, seja no Estado paralelo de máfias, do crime organizado e afins.

A ideia é que, em vez de jogar um coquetel molotov na casa do seu chefe e acidentalmente matar a família dele (o que colocaria a sua própria família em situação perigosa), você resolva suas desavenças na arena, sob os olhos da comunidade, em meio a um ritual que tem como premissa lavar toda a roupa suja de uma vez e começar o ano novo de maneira leve e bem resolvida. Por isso, as lutas devem terminar com um abraço.

Tudo sob os olhos do Menino Jesus, que na festa veste roupas típicas chumbivilcanas. Uma lindeza de sincretismo.

Modernidades

Com o tempo, o festival ganhou novas facetas. Chegou às regiões metropolitanas de Lima e Arequipa, passou a atrair pessoas de origens não-indígenas e de classe média. Alguns meninos usam máscaras de Halloween. Mulheres passaram a participar, de cara limpa e sem máscaras, na troca de socos. Nem todos enxergam a novidade com bons olhos, mas elas, em seus vestidos floridos, não dão a mínima.

Os agentes da lei não são complacentes com a prática. Já tentaram erradicá-la em Lima, sem sucesso. No fim de novembro, em Arequipa, a segunda maior cidade do país, a polícia dispersou um evento de Takanakuy com 600 participantes. O motivo alegado foi diferente dessa vez, segundo o "Diario Correo", de Lima: os organizadores não respeitaram as medidas sanitárias contra a covid-19. A pandemia fez um estrago tremendo no Peru, matando mais de 200 mil pessoas.

Não dá para cair no soco e respeitar o isolamento social. O lado bom é que muitos usavam máscaras.

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