Rafael Tonon

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Opinião

R$ 100 para cortarem seu bolo? Os abusos dos restaurantes chocam clientes

Em uma tradicional taberna na Calle del Acuerdo, em Madri, peço por uma mesa para dois e o garçom logo pergunta: "É para jantar? Se for, pode me acompanhar".

Um grupo de quatro pessoas que queria apenas tomar um coquetel enquanto conversava não teve a mesma sorte: os dois casais se viram obrigados a verter seus vermutes em pé, na calçada.

Nenhuma placa ou aviso no cardápio antecipava a "política da casa": os itens estavam dispostos na mesma ordem de importância — drinques e comidas. Acordo, mesmo, só no nome da rua.

Nas últimas semanas, notícias de restaurantes que decidiram adotar práticas restritivas com relação aos clientes ganharam destaque nos jornais em todo mundo todo.

Na Espanha, corre o risco de você ficar em pé na porta do restaurante
Na Espanha, corre o risco de você ficar em pé na porta do restaurante Imagem: Zowy Voeten/Getty Images

Ainda na Espanha, por exemplo, restaurantes em Barcelona têm impedido que clientes comam sozinhos nas mesas externas: elas estariam disponíveis apenas para duplas ou grupos.

As restrições acontecem em vários restaurantes da cidade catalã, em bairros muito movimentados como Poble-Sec e Eixample, e ganharam as páginas de portais do país.

Tem sido uma forma dos estabelecimentos de garantir maiores faturamentos em tempos em que a procura por mesas está em alta com a volta do turismo pós-pandemia.

"Taxa-corte"

"Servizio torta": um corte do bolo a 20 euros em Palermo, na Itália, chocou clientes
"Servizio torta": um corte do bolo a 20 euros em Palermo, na Itália, chocou clientes Imagem: Reprodução
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Mas vêm da Itália as notícias mais absurdas: um restaurante em Palermo, na Sicília, cobrou 20 euros (cerca de R$ 108) para cortar em pedaços um bolo de aniversário levado por uma família.

Nas redes sociais têm circulado outras fotos de contas em que clientes foram cobrados na cidade de Cuneo por pedirem colher para dividir uma sobremesa.

Em outro caso, uma turista teve que pagar 2 euros (cerca de R$ 10) para ter seu sanduíche cortado na metade.

Bar Pace e sua conta do corte do sanduíche
Bar Pace e sua conta do corte do sanduíche Imagem: Reprodução

Ela estava no Bar Pace, em Gera Lario, à beira do Lago Como, e ficou indignada com a taxa cobrado na conta e postou nas redes sociais.

A polêmica fez com que uma das donas do estabelecimento, Cristina Biacchi, se pronunciasse ao jornal italiano "La Repubblica".

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Tivemos que usar dois pratos em vez de um e o tempo de lavá-los dobrou. Para cortar o sanduíche pela metade leva-se tempo e o trabalho deve ser pago", defendeu.

Os "bons clientes"

Em pleno verão na Europa, muitos são os clientes que têm reclamado de precos exorbitantes, como no caso de dois cafés e duas águas a um valor de 60 euros (cerca de R$ 325) em um bar de hotel em Porto Cervo.

Os proprietários do Cervo Hotel justificaram que "não se tratava de um simples café, mas de uma experiência" de sentar ali, com uma das melhores vistas da cidade.

Vista do Cervo Hotel
Vista do Cervo Hotel Imagem: Reprodução

Em Saint-Tropez, na França, uma discussão acalentada tem ganhado destaque com relação à taxa de serviço e caixinha dos garçons.

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Isso porque um episódio colocou restaurantes e clientes em conflito no rico balneário da Riviera Francesa. Depois de terem consumido alguns milhares de euros em um restaurante local, um grupo de clientes deixou uma gorjeta de 500 euros (cerca de R$ 2,7 mil).

O garçom que atendeu à mesa questionou o valor: defendeu que tinha que ser no mínimo o dobro, em comparação aos 20% em média que os clientes habituais deixaram para a equipe de serviço.

Mesas em Saint Tropez
Mesas em Saint Tropez Imagem: Karl Hendon/Getty Images

O jornal local Var-Matin foi investigar o caso e descobriu que muitos restaurantes locais criaram uma lista partilhada de "bons clientes".

Eles compartilham fotos e informações sobre aqueles que gratificam bem o atendimento — o que os permite favorecer reservas e mesas para eles.

Regra do jogo, mas com respeito

A discussão que essas práticas levantam está no cerne do que se trata de abuso ou de uma prerrogativa que os restaurantes podem ter em relação a seus clientes.

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Do ponto de vista legal, as leis mudam com relação a cada país, estado ou até cidade. Em geral, bares e restaurantes são espaços de livre acesso, ou seja, precisam estar aptos a receber todos os tipos de pessoas, sem restrições.

Mas podem, como é suposto, criar suas próprias normas. Os proprietários têm o direito de impedir a entrada ou interromper a permanência de alguém se as regras de acesso e permanência não forem cumpridas.

Assim, é nestas regras que deve constar se um cliente que permaneça no local sem consumir deve sair do mesmo. Os restaurantes podem até cobrar aquilo que querem: um café a 10 euros (R$ 54), por exemplo.

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Imagem: Getty Images/iStockphoto

O cliente que se senta, olha o menu, tem acesso aos preços e depois reclama de pagar o que foi cobrado está errado, claro. Mas o maior problema é quando algo não está suficientemente transparente.

Como no caso de estabelecimentos que querem alterar as regras do jogo para se beneficiar em situações que podem ter maiores vantagens — financeiras, quase sempre.

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E o pior, sem deixá-las claras ao cliente, algo cotrário ao que prega toda e qualquer cartilha de defesa ao consumidor: seja na Itália, seja no Brasil.

Porque não é apenas legalmente inaceitável (e abertamente passível de questionamento e punição), mas sobretudo porque é moralmente incorreto.

Os restaurantes se constituem de um acordo tácito com os clientes: eles servem comida, investem em serviço, buscam criar um ambiente agradável para atrair consumidores.

Os clientes pagam pelos serviços e produtos vendidos pelos primeiros. Desde a invenção dos restaurantes (por Roze de Chantoiseau, na França do século 18) a coisa tem sido assim.

Desrespeitar o outro lado da equação não apenas impede que ela seja positiva a longo prazo, mas implode a própria essência da razão pela qual esses estabelecimentos foram criados em princípio.

Os restaurantes só existem porque têm clientes: subjugá-los por meio de regras obscuras é dar um tiro no pé. E correr o grande risco de ter que fechar as portas.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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