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Histórias do Mar

REPORTAGEM

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Mar minado: bombas flutuantes à deriva aterrorizam vizinhos da Ucrânia

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Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

23/07/2022 04h00

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No mês passado, para relaxar da permanente tensão provocada pela guerra com a Rússia, um ucraniano, morador da cidade de Odessa, foi até uma praia da cidade com a família.

Lá, para amenizar o forte calor que atinge a Europa, resolveu se refrescar, entrando no mar.

Foi até a beira d´água, deu alguns passos mar adentro e... explodiu após pisar em uma mina enterrada na areia da praia.

A cena deixou a família horrorizada.

Bombas à deriva

Dias antes, perto dali, um navio cargueiro estoniano também explodiu parcialmente ao tocar uma mina flutuante, felizmente sem nenhuma vítima fatal — sorte que não tiveram todos os tripulantes de outros sete navios que também foram vítimas de bombas marinhas na região (dois deles naufragaram, deixando duas mortes), desde que começou a invasão russa ao território ucraniano, em fevereiro deste ano.

Por trás destas explosões traiçoeiras no mar ucraniano estão as minas marítimas que tanto a Rússia quanto a própria Ucrânia estão usando para tentar deter e combater o inimigo, na insana guerra que já se arrasta há mais de cinco meses.

Histórias do Mar :: mina, bomba - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Agora, porém, surgiu outro problema: alguns destes petardos flutuantes estão sendo arrancados por tempestades dos pontos onde foram fixados e levados pelas correntezas para o alto-mar e, de lá, para países vizinhos.

Tornaram-se bombas errantes à deriva, sem nenhum tipo de rastreio ou controle.

Vizinhos em pânico

Semanas atrás, a Marinha da Romênia, um dos quatro países vizinhos a Ucrânia que também são banhados pelas águas do Mar Negro, precisou entrar em ação, para desativar uma mina desse tipo, que foi dar no seu litoral.

Antes disso, a Turquia já havia detectado duas outras minas de superfície em suas águas territoriais, o que levou o governo turco a proibir a pesca noturna (quando é bem mais difícil visualizar estes petardos na superfície), e interromper a travessia de embarcações pelo Estreito de Bósforo, um dos principais corredores marítimos do mundo, durante dois dias.

Já o governo da Bulgária alertou todos os moradores de cidades costeiras a ficarem atentos a objetos flutuantes e evitar os banhos de mar (mesma medida tomada pela Ucrânia em algumas de suas praias — como aquela que vitimou o pobre banhista).

Histórias do Mar :: mina, bmba - Getty Images/EyeEm - Getty Images/EyeEm
Imagem: Getty Images/EyeEm

Ninguém sabe quantas são

O problema maior das minas marítimas que já infestam certas partes do mar que banha a Ucrânia — além do seu alto poder explosivo, naturalmente — é que nenhum dos dois lados do conflito sabe, ou quer, precisar quantas foram colocadas na água — tampouco quantas desgarraram e estão à deriva, para terror dos países vizinhos.

Mas é certo que, após o término do conflito — que ninguém arrisca dizer quando será —, levarão anos para que o Mar Negro fique totalmente livre do tormento que as minas marítimas representam.

Um acusa o outro

A ideia de lotar certas partes do mar ucraniano com minas — flutuantes ou não — partiu das duas partes do conflito.

A Rússia teria minado áreas próximas aos principais portos ucranianos já conquistados, a fim de impedir o escoamento de grãos, como forma de pressionar o restante da Europa a suspender a ajuda militar à Ucrânia.

Mas Moscou não confirma isso.

Já a Ucrânia admite ter depositado minas em certas áreas de seu mar territorial, mas dentro do permitido pelo artigo 51 da Convenção de Haia, que permite aos países em conflito se protegerem contra invasores.

Ao contrário das minas terrestes, as marítimas não são proibidas, desde que não sejam usadas em águas internacionais — como, agora, parece ser o caso de algumas bombas flutuantes que desgarraram do litoral da Ucrânia.

Bombas da Segunda Guerra Mundial

Para complicar ainda mais as coisas, o Mar Negro ainda abriga minas não detonadas da Segunda Guerra Mundial, e a Ucrânia alega que a Rússia estaria deliberadamente soltando no mar minas marítimas ucranianas que estavam guardadas em um depósito de Sebastopol, na Criméia, área que foi ocupada pelos russos em 2014, a fim de responsabilizar o inimigo perante o mundo.

Como funciona uma mina?

Existem diferentes tipos de minas marítimas, mas todas extremamente sensíveis e... explosivas.

Algumas são magnéticas, que grudam nos cascos dos navios, outras, equipadas com vibro-sensores, ultrasensíveis aos toques ou colisões com embarcações.

Também podem ser flutuantes ou semi-submersas, neste caso ainda mais eficientes, porque ficam escondidas logo abaixo da superfície, presas ao fundo por cabos de aço, feito âncoras.

Histórias do Mar :: mina, bomba - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

O problema é quando estes cabos se rompem, deixando as minas à deriva.

É o que está acontecendo agora na guerra da Ucrânia.

Seriam só 10?

O único consolo é que, aparentemente, até agora poucas minas se soltaram.

Seriam menos de dez, segundo informações — não confiáveis — dos governos das duas partes.

Mas, como em tempos de guerra a primeira vítima é sempre a verdade, os governos dos demais países banhados pelo Mar Negro — Bulgária, Romênia, Georgia e Turquia — preferem não acreditar em números e montaram autênticas operações caça-minas em suas águas, embora não estejam envolvidos em nenhum conflito.

São os efeitos perversos de qualquer guerra.

Bombas errantes

Quando totalmente à deriva, minas marítimas viram bombas errantes, que vão para onde o mar levar, e podem passar décadas ainda ativas, embora isso seja raro.

Já o aparecimento delas em locais distantes e após muitos anos dos conflitos são bem mais comuns.

Nos anos de 1960, um grupo de amigos que fazia um passeio de barco no Rio de Janeiro encontrou um estranho objeto flutuando no mar.

Intrigados com o formato abaloado do objeto, sinal de que havia algo dentro dele, resolveram abri-lo, através de uma portinhola que havia na lateral.

Como ela estava enferrujada pelo tempo e longo contato com a água salgada, pegaram um martelo e passaram a dar vigorosas pancadas no metal.

Só após muitas marteladas, conseguiram desvirar o objeto na água — para descobrirem, apavorados, que se tratava de uma mina flutuante da Marinha Americana ainda da Segunda Guerra Mundial, que terminara um quarto de século antes — e que, possivelmente, só por isso não explodiu.

O caso ficou lendário nos clubes náuticos da cidade.

Feitiço conta o feiticeiro

Outro famoso caso envolvendo o controle impossível sobre minas flutuantes à deriva aconteceu na própria Segunda Guerra Mundial — e, ironicamente, vitimou o lado do conflito dono do petardo.

Em outubro de 1942, o ex-transatlântico americano President Coolidge, então transformado em navio transporte de tropas, foi vítima de uma mina que os próprios americanos haviam colocado para proteger o canal que dava acesso à base para a qual ele seguia, no Pacífico Sul, com mais de 5 mil soldados.

Histórias do Mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Milagrosamente, só dois soldados morreram no episódio, porque o aturdido comandante, que não fora informado sobre as minas no canal, conseguiu arremessar o navio na praia, antes que ele afundasse — clique aqui para conhecer esta interessante e ilustrativa história sobre as consequências nem sempre previsíveis das minas marítimas.

No caso do navio americano, o feitiço virou contra o feiticeiro.

E foi exatamente isso o que aquela mina ucraniana, fincada naquela praia de Odessa, fez com aquele infeliz banhista, que só queria espairecer da guerra em um tranquilo dia de praia.