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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

R.I.P. Fernando Paiva: um daiquiri em homenagem ao jornalista e amigo

O jornalista Fernando Paiva - Reprodução
O jornalista Fernando Paiva Imagem: Reprodução
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Miguel Icassati

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas ?Playboy? (1998-2000) e ?Veja São Paulo? (2000), editor-assistente e um dos fundadores do ?Paladar/jornal O Estado de S. Paulo? (2004 a 2007), editor dos guias ?Veja Comer & Beber? em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista ?Men?s Health Brasil? (2011 a 2014). É colunista de ?Cultura de Boteco? da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da ?Revista de Vinhos? (Portugal).

Colunista do UOL

06/05/2022 04h00

Perdi — perdemos — um grande amigo, o jornalista Fernando Paiva. Conheci o Paiva à mesa do restaurante Jaber, na Avenida Morumbi, bairro do Brooklin. Era outubro de 1997 e a redação da revista Playboy, à qual eu havia me juntado havia poucos dias, na função de atendimento ao leitor, estava de mudança do edifício Panambi, numa travessa da Berrini, para o bairro de Pinheiros.

Antes, porém, tivemos esse almoço de despedida e o Paiva, que havia brilhado na Playboy, nessa época trabalhava na revista Carta Capital. Aquele seria o primeiro de muitos encontros que aquela equipe, capitaneada primeiramente por Juca Kfouri — que vim a conhecer no almoço seguinte, em dezembro, no Il Fornaio d'Italia, no Itaim Bibi — e depois por Ricardo Setti, teria ao longo dos 25 anos seguintes.

Cada um daqueles jornalistas, fotógrafos e artistas gráficos seguiria caminhos profissionais diferentes nos anos seguintes — eu, por exemplo, tornei-me repórter da Playboy em março de 1998 e lá fiquei até o início de 2001 — mas a amizade, o respeito e o encanto de uns pelos outros estavam amalgamados.

Tal qual o primeiro, muitos desses encontros aconteceram à mesa de bares e de restaurantes: por um tempo fomos fiéis a um bar na Vila Madalena, que já não existe mais, e ficava no mesmo endereço do Bom Motivo.

Outro de nossa preferência era e continua sendo o Martin Fierro. Fomos mais de uma vez a um italiano na Vila Ipojuca, cujo nome também me foge, e ao Jabuti, na Vila Mariana, mesmo bairro da Academia da Gula, onde estivemos uma vez. No mais recente encontro, durante uma trégua na pandemia, parte do grupo visitamos o Valadares, na Lapa.

E me lembro especialmente da happy hour no Ciao!, no Paraíso, na qual a turma teve a companhia de minhas filhas: a mais nova, ainda no carrinho; a mais velha, com cinco ou seis anos à época, talvez não aguentasse passar aquelas horas à mesa, com tantos adultos chatos, que só falavam de jornalismo, se o Paiva não tivesse pegado uma caneta na mochila e começado a desenhar um cachorrinho no guardanapo, sempre pedindo a opinião dela de como deveria ser o traço seguinte: "e a orelha dele, é grande ou pequena?"; "o rabo tem de ser curto ou mais comprido?".

Embora eu nunca tenha trabalhado diretamente com o Paiva em uma redação, devo a ele uma das maiores oportunidades que tive na condição de repórter: em 2002, quando ele dirigia a MIT Revista, na Trip Editora, sugeri um perfil do biomédico argentino Alberto Granado, que vivia em Havana.

Granado foi amigo de Ernesto Che Guevara, com quem, em 1951, viajou a bordo de sua moto La Poderosa II pela América do Sul, história que rendeu um livro e que estava sendo rodada para o cinema sob a direção de Walter Sales e que resultaria no filme "Diários de Motocicleta", lançado em 2004.

Imagem de 1952 mostra Esnerto Guevara e Alberto Granado enquanto cruzavam o rio Amazonas em sua viagem pela América Latina - EFE - EFE
Imagem de 1952 mostra Esnerto Guevara e Alberto Granado enquanto cruzavam o rio Amazonas em sua viagem pela América Latina
Imagem: EFE

Paiva topou minha sugestão e, depois de 11 meses de negociação para a entrevista — Granado me deu uma canseira, estava sempre viajando para dar palestras ao redor do mundo a respeito da relação com Che —, finalmente topou me receber em outubro de 2003, por uma hora, em sua casa.

Como a viagem aconteceria em poucos dias e não havia tantos voos assim para Havana na época, a solução foi comprar um pacote de seis dias. Com tempo livre, aproveitei para perambular pela capital de Cuba, especialmente por Habana Vieja, o decrépito e fervilhante centro histórico da cidade, onde se localizam o Museu do Rum e dois dos mais clássicos bares de todo o mundo, eternizados nos livros de Ernest Hemingway, meu autor predileto: El Floridita e La Bodeguita del Medio.

Interior do Floridita, bar favorito de Ernest Hemingway, em Havana - Getty Images - Getty Images
Interior do Floridita, bar favorito de Ernest Hemingway, em Havana
Imagem: Getty Images

El Floridita havia sido reconhecido como um dos sete bares mais famosos do mundo pela revista Esquire em 1953, graças ao famoso daiquiri. La Bodeguita, por sua vez, existe desde os anos 1940 e recebe diariamente turistas em busca de mojito.

Além da recordação dessas dois bares, a viagem me rendeu muito mais. Aquela hora de entrevista se transformou em três sessões, com mais de cinco horas de conversa espalhadas por três dias, que resultariam em uma matéria da qual muito me orgulho de ter escrito. Na próxima vez que eu for à Floridita, erguerei uma taça de daiquiri em honra da nossa amizade, inesquecível Paiva.