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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A Lusa voltou. O Canindé vai ressuscitar?

Estádio do Canindé, sede da Lusa - Eduardo Anizelli/ Folhapress
Estádio do Canindé, sede da Lusa Imagem: Eduardo Anizelli/ Folhapress
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Miguel Icassati

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas ?Playboy? (1998-2000) e ?Veja São Paulo? (2000), editor-assistente e um dos fundadores do ?Paladar/jornal O Estado de S. Paulo? (2004 a 2007), editor dos guias ?Veja Comer & Beber? em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista ?Men?s Health Brasil? (2011 a 2014). É colunista de ?Cultura de Boteco? da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da ?Revista de Vinhos? (Portugal).

Colunista do UOL

16/04/2022 04h00

"Cruzador e Lusa tomorrow?"

O convite do meu brother Paulo Vieira piscou no whatsapp às 18h30 da sexta-feira passada, véspera da segunda partida semi-final do Campeonato Paulista da série A-2, a velha e nunca boa segunda divisão.

A ideia era almoçarmos no Cruzador — restaurante localizado na esquina da Florêncio de Abreu com a Paula Souza, na região da Luz, que eu havia apresentado a ele pouco antes da pandemia, e onde come-se um ótimo bacalhau — e seguirmos para o Estádio do Canindé, para assistir ao jogo Portuguesa x Rio Claro.

Restaurante Cruzador - Miguel Icassati - Miguel Icassati
Prato do restaurante Cruzador, a pedida para um almoço pré-jogo no Canindé
Imagem: Miguel Icassati

Na partida anterior, a Portuguesa havia ganhado do Rio Claro por 1 a 0 no interior. Bastaria não perder o jogo da volta em sua casa, que a Lusa garantiria a vaga na final e, o mais importante, o retorno à primeira divisão do futebol de São Paulo, depois de sete anos.

Respondi às 9h36 da manhã do sábado, agradecendo pelo convite, mas eu teria de recusar porque havia assumido alguns compromissos em família para aquele final da manhã e tarde.

Pouco antes do almoço, outro amigo, Tonhão, perguntou, no grupo do whatsapp do Colégio Santo Antônio do Pari: "alguém vai no Canindé hoje"? Ele, Bart e Osvaldo iriam.

Às 15h18, o Paulo mandou essa foto abaixo da arquibancada: "Cheiaço aqui".

Foto do estádio cheio no jogo da Lusa, no Canindé - Paulo Vieira - Paulo Vieira
Foto do estádio cheio no jogo da Lusa, no Canindé
Imagem: Paulo Vieira

E eu, ficaria de fora dessa? De jeito nenhum.

Pedi licença às pessoas presentes no meu compromisso, passei em casa só pra buscar minha camisa da Lusa, embarquei no 106-A e segui para o Canindé. "No busão. Vou chegar pro segundo tempo", escrevi para o Paulo às 16h26.

Às 17h06 entrei no estádio, que estava lindo, cheiaço mesmo. O segundo tempo tinha acabado de começar, 1 a 0 pra nós. Encontrei o Paulo e o seu sogro, Juarez, devidamente uniformizados, e assistimos o restante do jogo juntos. O Rio Claro empatou, o jogo ficou dramático mas o placar final de 1 a 1 era o que a Lusa precisava para voltar à série A.

Foi bonita a festa, pá! Quase 13.000 torcedores no estádio e buzinaço nas ruas do entorno. Que eu me lembre, não se via alegria assim naquelas bandas desde 2011, quando o time, apelidado de "Barcelusa", ganhou a série B do Campeonato Brasileiro.

Estádio do Canindé foi palco de grandes embates e gols memoráveis, como o de Dener, em 1993 - Eduardo Anizelli/ Folhapress - Eduardo Anizelli/ Folhapress
Estádio do Canindé foi palco de grandes embates e gols memoráveis, como o de Dener, em 1993
Imagem: Eduardo Anizelli/ Folhapress

Os anos seguintes, porém, seriam de derrocada e absoluta tristeza para a Portuguesa. Em 2013, a equipe foi rebaixada para a série B novamente, graças ao "caso Héverton", quando o clube perdeu pontos por escalar o jogador irregularmente para uma partida do Brasileirão. De lá para cá o time desceu às séries C e D do futebol nacional e hoje não disputa nenhum torneio com essa abrangência.

Coincidência ou não, a partir de então o próprio clube entrou em decadência — contei um pouco dessa situação num texto para este blog em 2020 — assim como a região do Pari e do Canindé, onde o clube está situado e na qual vivi minha infância, adolescência e início da idade adulta.

No antigo "bairro doce" de São Paulo, a fábrica de biscoitos da Tostines tornou-se um shopping frequentado por sacoleiras. As duas ruas em que morei, Thiers e Vautier, reuniam sobrados e pequenas lojas e foi naquelas calçadas que aprendi a andar de bicicleta, dando voltas no pacato quarteirão.

Hoje, são o epicentro da feirinha da madrugada e do comércio pirata. O local em que existiu o folclórico e bom restaurante Galinhada do Bahia, bem em frente à sede do clube, está dando lugar a um condomínio. Ao menos três padarias — a excelente Folar, a 2001 e a Flor de Liz — encerraram as atividades, assim como a cantina Tempone e a doceria Dsunta, que preparava um irresistível meia-lua, docinho formado metade por brigadeiro, metade por beijinho de coco.

Da velha guarda gastronômica do bairro, restam o Bar do Jô e o decano restaurante Santos (ambos na Conselheiro Dantas), além do Rei das Esfihas (na Doutor Ornellas), do Minuano e da Taberna do Cais do Porto, que funciona na área social da Portuguesa mas é aberta ao público. O Carlinhos Restaurante mudou-se para um shopping no Brás.

Na saída do Canindé, enquanto eu aguardava a carona num boteco pé-sujo na rua Araguaia, ouvi um freguês perguntando ao dono da birosca:

- Diz aí, se não fosse o jogo a essa hora o bar estaria fechado, né?

O sujeito concordou, balançando a cabeça.

Neste domingo, às 19 horas, a Portuguesa joga no mesmo Estádio do Canindé a finalíssima da série A-2 do Paulistão contra o São Bento. O título será bem-vindo mas o que eu queria mesmo é que este regresso do clube seja duradouro e traga prosperidade ao pequeno comércio e aos botecos do velho e mal-cuidado Pari.

Feliz Páscoa.