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Boteclando

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Lado par da rua Thomaz Gonzaga, na Liberdade: tradição até dizer chega

Liberdade, em São Paulo - Gabrielle Roncarate/Unsplash
Liberdade, em São Paulo Imagem: Gabrielle Roncarate/Unsplash
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Miguel Icassati

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas ?Playboy? (1998-2000) e ?Veja São Paulo? (2000), editor-assistente e um dos fundadores do ?Paladar/jornal O Estado de S. Paulo? (2004 a 2007), editor dos guias ?Veja Comer & Beber? em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista ?Men?s Health Brasil? (2011 a 2014). É colunista de ?Cultura de Boteco? da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da ?Revista de Vinhos? (Portugal).

Colunista de Nossa

03/04/2022 04h00

Do início, no encontro da Avenida Liberdade com o Largo da Pólvora, até o fim, no encontro com a Galvão Bueno, a rua Thomaz Gonzaga, na Liberdade, tem 140 metros de extensão.

Com apenas um quarteirão e em um leve declive, ela abriga uma papelaria (a Hai Kai), dezoito postes de iluminação — daqueles vermelhos, típicos do bairro, alusivos às luminárias orientais feitas de papel e bambu —, a sede do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo, ao menos três estacionamentos, alguns sobrados, dois ou três edifícios comerciais e nada menos do que 21 — vinte e um — estabelecimentos de gastronomia, a maioria dos quais, evidentemente, restaurantes dedicados à culinária oriental, especialmente a japonesa.

Entre esses endereços estão, por exemplo, o restaurante que reivindica para si o posto de japonês mais antigo de São Paulo, um surpreendente indiano, aberto em 2021, além de cafés, sorveteria, confeitaria e um izakaya que, de ponto de encontro da comunidade do sumô, tornou-se um boteco dos mais hypados da cidade — com justiça, diga-se —, bem ao lado de uma casa temática dedicada à personagem Hello Kitty.

Essa diversidade gastronômica, aliás, confere à rua Thomaz Gonzaga um astral cosmopolita bem bacana. É por isso que faço questão de apresentar os detalhes de cada um desses 21 endereços desta Broadway gastronômica, em pleno bairro da Liberdade. Neste texto, vamos destacar o lado par. No próximo, falarei a respeito das casas do lado ímpar.

Lado direito (par):

TK Taverna e Kaffee (Rua Thomaz Gonzaga, nº 28) - Miguel Icassati - Miguel Icassati
TK Taverna e Kaffee (Rua Thomaz Gonzaga, nº 28)
Imagem: Miguel Icassati

TK Taverna e Kaffee (Rua Thomaz Gonzaga, nº 28)
Num ambiente com teto rebaixado e clima de pub, o público majoritariamente jovem se reúne nas mesas para degustar algumas das opções da extensa carta de cervejas artesanais e especiais. Entre as bebidas há também uma opção de hidromel, fermentado alcoólico à base de mel, de origem escandinava, popularmente conhecido como "a bebida dos vikings".

Fuji (nº 36) - Miguel Icassati - Miguel Icassati
Fuji (nº 36)
Imagem: Miguel Icassati

Fuji (nº 36)
No cardápio estão presentes as mais diferentes e tradicionais receitas japonesas, das cruas -- sushi e sashimi, por exemplo, são servidos em sistema de rodízio -- aos preparos, como teishoku, lamen, udon, kare, teppan e petiscos. O prato que combina karê (curry japonês, picante) e karaaguê (frango frito) tem boa saída nos dias frios.

Hinodê (nº 62)
Em atividade desde 1965, define-se como o restaurante de cozinha japonesa mais antigo de São Paulo, com funcionamento ininterrupto. A partir de 1999, porém, a casa passou a ser administrada por novos proprietários, da família Sekiguchi. Na cozinha, quem dá as cartas é o chef Sekai Sekiguchi, que décadas atrás aprofundou os estudos culinários durante três anos no Japão.

A fachada e as instalações internas não decepcionam quem busca um ambiente alusivo ao Oriente, repleto de madeira, para provar receitas como a porção de guioza e o sashitei de salmão, que traz fatias grossas de sashimi acompanhadas de arroz, sunomono, missoshiro e outros itens triviais.

Yamaga (nº 66)
É outro veterano da rua, embora vinte anos mais jovem: foi aberto em 1985 pelo chef Toshizo, que nasceu no Japão e lá mesmo fez sua formação em culinária tradicional do país, onde recebeu uma certificação concedida pelo governo.

Em 1976, Toshizo visitou o Brasil e decidiu que era aqui que iria viver. Fundou o Sapporo, uma casa que era especializada em lamen, até que, em companhia da mulher, inaugurou o Yamaga. O talento do chef pode ser conferido em pratos como o tonkatsu teishoku (carne suína empanada com molho tarê, acompanhado de arroz, missoshiro e conservas). Mais tradicional, impossível.

Itidai (nº 70), um dos japoneses mais tradicionais do lado par da rua Thomaz Gonzaga - Miguel Icassati - Miguel Icassati
Itidai (nº 70), um dos japoneses mais tradicionais do lado par da rua Thomaz Gonzaga
Imagem: Miguel Icassati

Itidai (nº 70)
Mais um japonês "raiz", mantém duas salas privativas com tatame, que podem ser reservadas por grupos de quatro pessoas ou mais.

No cardápio, todas as quinze opções de teishoku são servidas ao lado de arroz, missoshiro e outros três acompanhamentos do dia. O tepan misto de frutos do mar e peixe na chapa custa R$ 105. O teishoku especial, recomendado para duas pessoas, inclui sushi, sashimi, tempura, yakizakana e guioza e vale R$ 185.

Espaço Kazu (nºs 84-90)
Esse complexo gastronômico acomoda uma cafeteria oriental pero no mucho (para entender esse meu comentário, vale pedir a versão japonesa do profiterole, a nossa carolina) no andar superior, uma adega especializada em saquê, shochu e uísque, com cerca de 150 rótulos, além de um movimentado restaurante no térreo, que se destaca pelas porções fartas de teppan yakis, teishokus e, grata surpresa, sobá.

O sobá é uma espécie de macarrão feito de trigo sarraceno, que recebe diversos acompanhamentos, e que é muito popular, curiosamente, como comida de rua em Campo Grande (MS), para onde seguiram alguns imigrantes. Por R$ 54 pode-se provar o sobá com caldo de shoyu, carne bovina em fatias, cebolinha e molho especial. Antes, porém, peça a porção de takoyaki, o saboroso bolinho de polvo frito (R$ 40).

Sushi-Yassuh (nº 98)
A última parada do lado direito da rua é um dos restaurantes de cozinha japonesa dos mais clássicos da cidade. Com meio século de história, a casa foi fundada pela família Ujiie e está sob gestão da terceira geração.

Sempre lembrado pelas suas salas privativas, na qual os comensais sentam-se diretamente no tatame de tatame, o Sushi Yassuh dispõe de seis marcas de saquê (o preço das garrafas vai de R$ 105 a R$ 518) que podem ser compartilhadas com o trio de temaki (R$ 76 a R$ 96) e os célebres combinados, a exemplo do Liberdade (R$ 376), que tem 40 peças, sendo 6 niguiri, 22 fatias de sashimi, 6 uramaki california, 6 tekka maki.