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Boteclando

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Um achado entre SP e PR: o restaurante onde o PF traz até farofa de ostra

Farofa de ostra: uma iguaria no bar-restaurante onde as culinárias caiçara e quilombola se encontram - Miguel Icassati/UOL
Farofa de ostra: uma iguaria no bar-restaurante onde as culinárias caiçara e quilombola se encontram Imagem: Miguel Icassati/UOL
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Miguel Icassati

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas ?Playboy? (1998-2000) e ?Veja São Paulo? (2000), editor-assistente e um dos fundadores do ?Paladar/jornal O Estado de S. Paulo? (2004 a 2007), editor dos guias ?Veja Comer & Beber? em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista ?Men?s Health Brasil? (2011 a 2014). É colunista de ?Cultura de Boteco? da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da ?Revista de Vinhos? (Portugal).

Colunista do UOL

11/03/2022 04h00

No quilômetro 11 da estrada de cascalho que liga os vilarejos de Itapitangui e Ariri, no município de Cananeia, na divisa do estado de São Paulo com o Paraná, a comunidade do Mandira reúne cerca de 25 famílias, que vivem em meio ao que percebi como a mais preservada área de Mata Atlântica do litoral paulista.

Trata-se de um povoado que nasceu como quilombo, no século 19, e que em 2002 passou a fazer parte da Reserva Extrativista do Mandira, criada para regulamentar o cultivo e a extração de ostras e pescados.

O nome da reserva alude a Francisco Mandira, filho do senhor de escravos Antônio Florêncio de Andrade com a escrava Teresa. Mandira recebeu um enorme lote de terras como doação de uma meia-irmã e ali se estabeleceu. Teve filhos, netos e hoje vivem ali, entre cerca de 100 pessoas, muitos da sétima geração dos Mandira.

É um lugar simples, até hoje, com algumas casas de alvenaria, sítios, cachoeiras, serra, rios que abastecem piscinas naturais, ruínas e em cuja estrada estão situados alguns bares-restaurantes também simples, muito simples, como o Bar Mandira, o Rancho da Ostra e o Ostra e Cataia.

O marisco é retirado dos mangues da região: produtos fresco para o preparo - Miguel Icassati/UOL - Miguel Icassati/UOL
O marisco é retirado dos mangues da região: produtos fresco para o preparo
Imagem: Miguel Icassati/UOL

A ostra, principal fonte de renda dos locais, tem seu manejo feito nos braços de rio que separam Cananeia da Ilha do Cardoso e do Parque do Superagui, já no Paraná. Cataia é uma bebida local, uma espécie de licor feito de um arbusto encontrado nos mangues da região, a cataia, com cachaça. E o mangue é o ecossistema do qual os descendentes quilombolas extraem justamente a ostra, caranguejo e os mariscos com os quais preparam as receitas que servem aos turistas e fregueses.

É um lugar simples, eu dizia, e cuja simplicidade é um convite a uma refeição sem frescuras mas com muita dignidade: onde mais eu poderia encontrar um PF de arroz, feijão, peixe e mandioca frita vem escoltado por uma farofa de ostra?

A ostra, claro, é a estrela do cardápio e vem servida no bafo, gratinada e crua, ao preço médio de 25 reais a dúzia. E também pode ser recheio de um gostoso pastel, vendido a 7 reais a unidade, mesmo preço do bem temperado pastel de palmito, outro produto nativo ali do Vale do Ribeira, no sul do estado.

Entre as ostras e os mariscos, preciso dizer, sou do time dos mariscos, que no Ostra e Catraia aparecem no arroz lambe-lambe, uma receita preparada pelos caiçaras das costas Sul à Norte — por falar nisso, recomendo fortemente o arroz lambe-lambe feito pelo chef Eudes Assis no restaurante Taioba, no sertão de Camburi —, e nos mariscos cozidos com cheiro-verde, que vêm à mesa numa porção gigante.

Marisco do mangue com mandioca: receita que eu ?inventei? inspirada nos moules et frites - Miguel Icassati/UOL - Miguel Icassati/UOL
Marisco do mangue com mandioca: receita que eu inventei inspirada nos moules et frites
Imagem: Miguel Icassati/UOL

Foi justamente enquanto eu tentava vencer essa porção, em pleno domingo de Carnaval, que tive uma epifania: lembra da porção de mandioca frita que vem no PF? Pois é, pedi uma cumbuquinha extra, acomodei duas ou três mandiocas no meu prato; em seguida fiz o mesmo com alguns mariscos, e, oh là là, criei uma versão quilombola-caiçara dos moules et frites, o delicioso prato típico da Bélgica, que reúne mexilhões com batatas fritas.

Nada mau para um botequeiro paulistano que tem sangue holandês correndo nas veias.

Vai lá

Como chegar ao Ostra e Cataia, à partir de São Paulo:

1. Régis Bittencourt até saída 464 (para Pariquera-Açu / Cananeia)
2. BR-478 até SP-193 (à esquerda)
3. Logo à direita virar na Estrada Municipal Colônia da Santa Maria-Mandira e seguir por 12 quilômetros. O boteco vai estar à direita