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Globo conviveu desde 2015 com acusações de assédio contra Cereto

Pedro Lopes e Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

06/07/2021 12h56

O jornalista Carlos Cereto, que deixou a Rede Globo na última quinta-feira (1º) depois de 20 anos na emissora, é alvo de acusações de ter assediado moral e sexualmente funcionárias, gerando pelo menos uma condenação judicial à emissora. Ele nega essas acusações.

Em maio de 2019, a Globo foi condenada na Justiça do Trabalho a indenizar uma funcionária por assédio moral praticado entre 2013 e 2015 por Cereto, então chefe de reportagem do SporTV em São Paulo. Procurada, a autora da ação não quis falar sobre o assunto.

No processo, há cópias de emails e conversas em aplicativos de mensagem com ameaças de demissão e questionamento de competência na frente de outros funcionários, relatos de pelo menos quatro testemunhas e, também, uma acusação de assédio sexual.

Sete pessoas que trabalharam com Cereto no SporTV nos últimos anos confirmaram, na condição de anonimato, os comportamentos descritos na ação judicial e relataram situações de constrangimento e assédio nos corredores da Globo. Há episódios de mulheres chorando nos banheiros e pelo menos duas tentativas de denunciar o que acontecia aos departamentos de compliance e recursos humanos.

Cereto nega

Procurado pela reportagem, Cereto se disse surpreso com as acusações, negou ter praticado assédio de qualquer tipo e disse que nunca foi notificado por qualquer departamento interno da Globo por qualquer comportamento inadequado.

"Honestamente, não procede. Terei que me defender de alguma maneira. Isso não aconteceria sem que a Globo tomasse uma decisão. Segui na Globo por anos depois dessa ação, que é de 2016. A emissora tem um departamento de compliance, leva tudo isso muito a sério. Ainda fui transferido para o Rio depois, foi uma promoção, para apresentar o programa. Estou saindo de comum acordo", diz o jornalista.

Advogado do apresentador, Jonas Marzagão afirma que é impossível se defender de uma acusação apócrifa e sem os fatos. "Como advogado de defesa, me causa surpresa. É difícil nos defendermos se não sabemos quem são os denunciantes, onde está essa denúncia, quais são os fatos alegados".

A Globo diz que a saída de Cereto foi "uma decisão de gestão" e que "todo relato de assédio, moral ou sexual, é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento. A Globo não tolera comportamentos abusivos em suas equipes e incentiva que qualquer abuso seja denunciado". A emissora não confirmou nem negou se recebeu as denúncias.

A condenação

O processo julgado em 2019, que fez com que a Globo fosse obrigada a indenizar uma funcionária, baseia-se em e-mails, comunicações internas da emissora e relatos de testemunhas. Ao decidir, a juíza considerou que Cereto praticou o chamado "mobbing" — assédio moral caracterizado pela perseguição, com repetidas cobranças públicas e constrangimento.

"Esses elementos somados aos documentos encartados aos autos pela autora (e-mails e mensagens de WhatsApp em qualquer hora do dia inclusive de madrugada), têm-se que houve prática de ato abusivo (CC/2002, 187) por parte do Diretor-chefe da autora —sr. Carlos Alberto Cereto —, sendo que a ré, através de seu preposto, violou a regra de tratamento com urbanidade com o seu colaborador (trabalhador). Houve excessos por parte do Sr. Carlos em relação à autora", diz a decisão.

Na ação, testemunhas da própria Globo falam em gritos na redação. "Note-se que a própria testemunha da reclamada disse que o sr. Carlos costumava gritar no setor. Considera-se que houve uma ofensa à dignidade da autora". Outra testemunha afirma que Cereto chamava a autora da ação de incompetente frequentemente na frente de outros funcionários e sempre a tratava de forma extremamente ríspida. Há, ainda, uma terceira testemunha, que também se diz vítima de grosseria e gritos diários, e viu funcionárias chorando na redação.

A decisão é de primeira instância, em audiência. A Globo está recorrendo e tenta afastar a tese de assédio moral. "Com efeito, o simples fato de o Sr. Carlos Cereto eventualmente ter sido 'rude', 'grosseiro' ou simplesmente 'gritar' ('quod repugnat') com a equipe não é suficiente para, por si só, caracterizar o alegado assédio moral", diz a peça da emissora.

Funcionários relataram comportamentos abusivos

Uma das testemunhas do processo obtido pela reportagem relatou à Justiça que Cereto tinha comportamentos agressivos e reiterados não só com a autora da ação, mas com o público feminino em geral.

"Com a autora e mais especificamente com a figura feminina, Carlos praticava condutas de humilhação, criando ambiente de terror psicológico em tom de voz alto, praticamente todos os dias, o que foi presenciado pelo depoente até sair do Arena SporTV", afirma o depoimento.

"Ele falou inúmeras vezes na redação que mulher não entende de futebol, apesar de ele ter uma equipe na época com muitas mulheres. Chegou a 'ameaçar' a equipe dizendo que se não levássemos um certo número de pautas por semana, ele pararia de mandar em viagens. Também disse que, em qualquer briga ou discussão, teríamos que estar sempre do lado dele", diz uma ex-funcionária ouvida pelo UOL.

O processo também fala em "assédio sexual" ao descrever o comportamento de Cereto: "Seu supervisor Carlos Cereto a diminuía constantemente perante o departamento em que ambos trabalhavam e, ainda, a assediava sexualmente", diz o texto. "Carlos falava na frente de outros colegas ou por e-mail direcionado à depoente 'que era incompetente, desqualificada, despreparada', fazia ameaças de demissão; que assediava a depoente dizendo que a depoente estava uma delícia, beijava sua mão, e a fazia dar uma voltinha, fatos que constrangiam a depoente", segue a peça.

A decisão diz que "ser chamada de: despreparada, desqualificada, incompetente, 'delícia', fazê-la dar 'voltinhas' é uma afronta à dignidade do ser humano, e, ainda, da trabalhadora, demonstrando conduta preconceituosa e covarde, pois, em regra, a mulher trabalhadora se inserindo no mercado acaba se submetendo a situações vergonhosas que devem ser banidas do ambiente laboral, mas são toleradas na Recorrida".

Os relatos são corroborados por pessoas ouvidas pela reportagem que passaram pela redação sob o comando de Cereto —o jornalista foi transferido para ao Rio em 2017, quando se tornou apresentador. "Ele era muito pior com mulher, mas assédio moral já rolou com vários homens também. Assédio sexual só com mulheres, praticamente com todas, há anos", afirma uma ex-funcionária.

Outros relatos, confirmados por quatro fontes que não fazem parte do processo, contam uma passagem na qual o apresentador teria dito para uma funcionária andar à sua frente, pois ele preferia vê-la "indo do que voltando". Em outro episódio, teria dito que "lamberia" uma das mulheres com quem trabalhava.

À reportagem, um funcionário contou ter sido ofendido publicamente, no meio do ambiente de trabalho, durante a jornada. "Ele se irritou comigo e me mandou tomar no c... e se f... ".

Havia um padrão, ainda segundo as fontes, entre as funcionárias assediadas e desqualificadas pelo então chefe: elas choravam no banheiro. A ex-funcionária afirma que uma colega desenvolveu depressão profunda devido à convivência com Cereto.

Trechos de e-mails de Cereto a funcionários

  • "Juro que tenho dificuldade pra te entender. Mas eu tento. O que uma coisa tem a ver com a outra? Sempre que peço uma solução você me dá um problema?"
  • "O programa de segunda estava fechado na sexta certo? Não fizemos nada no plantão do fim de semana certo? E fechamos o programa de hoje, só hoje, e ainda não fechamos o programa de amanhã, certo? Somos o único programa do canal que tem duas produtoras certo? Alguma coisa está errada certo? Estão com a cabeça no Arena certo?"
  • "Gente, na boa, acho impressionante a dificuldade que temos em botar o roll. Que tal contratarmos a bia? Temos só que arrumar a vaga..."
  • "Eles bobearam com a gente? E você ficou na dependência da um deles? Quem bobeou mais?"

Sete fontes que trabalharam com o jornalista e preferem manter anonimato confirmam o teor do arquivo ao qual o UOL teve acesso.

"Não me lembro de ter tido problema de relacionamento com ninguém"

Em contato com o UOL, Carlos Cereto se disse surpreso com as acusações, negou comportamentos abusivos e afirmou que ao longo de toda sua trajetória na Globo jamais foi questionado em procedimentos internos.

"Não tenho conhecimento, nada me foi passado. Me causa muita estranheza, porque a TV Globo tem um departamento de compliance muito sério, há mecanismos muito sérios. Eu também era chefiado por uma série de pessoas, havia mecanismos para isso, então é fora de propósito. Não me lembro de ter tido problema de relacionamento com ninguém, meu ambiente de trabalho em São Paulo sempre foi muito bom", afirmou.

Para Cereto, decisões tomadas em posição de chefia no exercício do trabalho podem ter gerado incômodo, mas não configuram assédio. "Trabalhei com mulheres, com homens, tenho recebido mensagens. Essa saída está sendo amadurecida há alguns meses, foi de comum acordo, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Tive reuniões com RH, nunca me foi dito nada. Fui testemunha da Globo em vários processos, sempre tive trânsito com jurídico, com as pessoas que chefiam a TV Globo, nunca me disseram nada".

Fontes dizem que caso chegou à chefia

Segundo apurou a reportagem, denúncias envolvendo Cereto chegaram à área de RH (Recursos Humanos) da Globo mais de uma vez. Já havia denúncias de assédio contra o então chefe quando ele foi transferido da reportagem em São Paulo para ser apresentador no Rio de Janeiro em 2017.

Procurada pela reportagem, a TV Globo não respondeu se sabia das denúncias contra Cereto ou confirmou a existência de reclamações no departamento de compliance. Em nota, disse que não poderia comentar assuntos de sua ouvidoria:

"A saída do jornalista foi uma decisão de gestão. Sobre as perguntas a respeito de compliance, a Globo não comenta assuntos da Ouvidoria, mas reafirma que todo relato de assédio, moral ou sexual, é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento. A Globo não tolera comportamentos abusivos em suas equipes e incentiva que qualquer abuso seja denunciado. Neste sentido, mantém um canal aberto para denúncias de violação às regras do Código de Ética do Grupo Globo".

Advogados dizem que comentários configuram assédio

O UOL ouviu dois advogados especialistas no assunto sobre o caso e perguntou se as mensagens descritas configuram assédio. E se esse assédio pode ser configurado como sexual. "Nesse caso, entra a interpretação extensiva da lei, de acordo com o primeiro artigo da Constituição Federal, que garante a dignidade da pessoa. Os atos relatados pela reportagem ferem a dignidade das funcionárias; excede-se e invade-se a intimidade e a liberdade da pessoa. Então, é possível, sim, enquadrar piadas maliciosas no ambiente de trabalho como assédio sexual", diz Waldemar Lima, advogado trabalhista e mestrando em Direitos Humanos.

"O que era considerado xaveco ou brincadeira antes pode ser considerado assédio hoje. A sociedade muda e a lei acompanha. A empresa tem obrigação constitucional de manter o ambiente de trabalho saudável. Assédio sexual e moral geram danos físicos e psicológicos. Por mais que o responsável imediato seja o assediador, legalmente, a empresa, se conivente, também deve ser responsabilizada", explica Marcos Lemos, advogado trabalhista e especialista em Direito Empresarial do Trabalho pela FGV.

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