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Como Diego Alves foi de ídolo do Flamengo a preterido por Paulo Sousa

Diego Alves durante aquecimento para atuar pelo Flamengo - Thiago Ribeiro/AGIF
Diego Alves durante aquecimento para atuar pelo Flamengo Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF

Letícia Marques

do UOL, no Rio de Janeiro

19/05/2022 04h00

Personagem emblemático na passagem pelo Flamengo, Diego Alves carregou a braçadeira de capitão, conquistou títulos e deixou o nome na história. Porém, nos últimos anos, a vida do goleiro no clube se tornou conturbada, marcada principalmente pelo episódio da renovação. Com a chegada de Paulo Sousa, o camisa 1 mudou de patamar e saiu de ídolo a preterido, com um desgaste acentuado com o treinador — exposto pelo técnico recentemente.

Em janeiro, a nova comissão técnica assumiu o Fla com a proposta de reformulação no elenco, que foi um pedido da diretoria. Sousa recebeu a autonomia para as decisões e iniciou a pré-temporada do clube carioca. Se tratando de goleiros, eram três à disposição: Diego Alves, Hugo e Matheus Cunha.

Paulo Grilo é o homem de confiança de Sousa na preparação dos goleiros. Apesar de a relação entre Grilo e Diego Alves ter ganhado vitrine, logo no início, com vídeos postados nas redes sociais, a situação rapidamente foi ganhando novos capítulos com o passar do tempo.

O último deles foi após a vitória sobre a Universidad Católica, pela Libertadores. Paulo Sousa comentou a ausência de Diego Alves nos últimos jogos do Rubro-Negro, em recuperação de pubalgia. Segundo o técnico, o goleiro pediu para jogar, mesmo sem treinar há dez dias, citou uma reunião com o diretor Bruno Spindel e, por fim, reforçou que "os processos não são assim".

Os dirigentes do Flamengo preferem não se expor tanto com Diego Alves nem com Paulo Sousa. A passagem de responsabilidade do processo de reformulação para o treinador evidencia o quanto Marcos Braz e Bruno Spindel se retiraram do processo de encerramento de ciclos.

Primeiros contatos com Diego

No início da temporada, Diego foi para o departamento médico do Flamengo com dores no joelho esquerdo. O goleiro de 36 anos ficou fora da partida contra o Boavista, que marcou a estreia de Paulo e do elenco principal. Fazendo tratamento para recuperação, o jogador apareceu às vésperas do Fla-Flu afirmando estar pronto para atuar.

Na ocasião, Paulo Grilo apontou que para estar em campo é preciso treinar e, como Diego estava há alguns dias fazendo atividade separadamente, o goleiro não estaria apto. Internamente, entende-se que esse foi o início dos 'atritos' entre o jogador e a atual comissão técnica. A relação tornou-se cada vez mais protocolar entre as partes.

Estreia na temporada

Diego só estreou com Paulo Sousa no terceiro jogo em que foi relacionado, contra o Madureira, em 16 de fevereiro. O goleiro voltou a atuar no dia 27 do mesmo mês, contra o Resende. Ambas as atuações foram marcadas por falhas - em um momento em que Hugo ganhava cada vez mais destaque nos treinamentos.

Relacionado para 16 jogos e não sendo acionado, Diego Alves se viu cada vez mais 'escanteado' por Paulo Sousa. Nos bastidores, o goleiro, inclusive, já relatou se sentir preterido pela comissão. Um dos principais argumentos é a falta de oportunidade, mesmo com as falhas de Hugo.

A comissão, por sua vez, entende que Hugo 'saiu na frente' no início da pré-temporada, visto que Diego passou mais de uma semana no departamento médico. Além de enxergarem o camisa 45 como um 'diamante', que precisa ser lapidado para trazer resultados.

Renovação, transição e posto de terceiro goleiro

Há duas temporadas, Diego Alves e Flamengo renovaram contrato por mais um ano. A primeira vez aconteceu em 2020, com ares de novela. Foram meses de impasse, visto que ambos os lados demoraram a ceder, e somente em dezembro houve um denominador comum, com a assinatura de contrato. Um dos principais motivos para a demora do acordo foi a questão financeira, visto que a diretoria desistiu do que havia oferecido.

Selada a paz, um novo capítulo: em dezembro de 2021, Diego Alves e Flamengo discutiram novamente uma renovação. A nova negociação dividiu opiniões nos bastidores. Uma ala da diretoria foi resistente ao novo contrato devido à idade do goleiro (36 anos), os valores e, principalmente, a avaliação interna da necessidade de reformulação do elenco.

O goleiro sempre se mostrou ciente do processo de passagem de bastão. Mas, com a renovação recém-assinada, há quem diga que Diego não esperava perder o posto tão rapidamente. No entanto, a chegada de Paulo, a lesão no início da temporada e a confiança em Hugo mudaram o cenário para o camisa 1.

A situação se tornou ainda mais conturbada quando Paulo Sousa, antes mesmo de chegar ao Brasil, mapeou o elenco e diagnosticou a necessidade de ir ao mercado em busca de um goleiro. Logo depois, o português escolheu Santos, que estava no Athletico-PR. O técnico o indicou por características de jogo e pela sua personalidade, o que ajudaria no processo de transição de Hugo.

A chegada do 'escolhido' de Sousa tornou Diego Alves a terceira opção da comissão técnica. Enquanto o camisa 1 atuou em dois jogos, o recém-chegado foi titular em quatro oportunidades, sendo três na Libertadores.

Episódio 'similar' em 2018

No fim de 2018, Diego Alves se envolveu em uma polêmica parecida. À época, após a eliminação na semifinal da Copa do Brasil, para o Corinthians, o goleiro sentiu uma lesão. Durante o período de tratamento, Mauricio Barbieri acabou demitido e chegou Dorival Júnior. O novo treinador, primeiramente sem opção para o setor, colocou César, que, na avaliação da comissão, correspondeu bem.

Para a partida contra o Paraná, pelo Brasileiro, mesmo com Diego Alves recuperado, houve a decisão de manter César no time titular, o que desagradou o experiente goleiro, que se recusou a viajar com a delegação para Curitiba. Houve relatos de que o camisa 1 e o técnico chegaram a discutir durante uma reunião do elenco. No entanto, publicamente, ambos depois, em diferentes momentos, amenizaram o episódio.

Na ocasião, Diego Alves chegou a treinar separadamente do elenco e o futuro no Rubro-Negro esteve em xeque. Em 2019, a gestão encabeçada por Rodolfo Landim assumiu o clube e chegou o técnico Abel Braga, o que provocou uma mudança no panorama, e ele permaneceu, se tornando o titular e capitão da equipe.

Descontentamento e cobranças

O cenário deste mês de maio é reflexo da relação arrastada desde o primeiro atrito. As escolhas de Sousa para o gol não agradaram ao renomado goleiro, e Diego Alves não se contentou com o banco de reservas. Enquanto isso, a postura do camisa 1, em dizer que está apto para jogar sem longos períodos de treinamento, não encaixa na metodologia da nova comissão técnica.

A declaração feita na coletiva expôs, para além do Ninho, a conturbada relação de Diego com a comissão e instaurou mais um capítulo. Internamente. O goleiro se mostrou ainda mais insatisfeito e, agora, descontente com o pronunciamento de Paulo.

Em conversas, Diego alega estar exposto e, inclusive, cobrou um posicionamento do departamento de futebol. Na visão do goleiro, Spindel, que foi citado pelo português, precisa se pronunciar. O dirigente foi procurado pela reportagem, mas não respondeu.

Em meio a essa crise, o Flamengo se reapresenta hoje (19), no Ninho do Urubu, com foco na partida contra o Goiás, sábado (21). Diego Alves, por sua vez, esteve no CT ontem (18) para dar continuidade na recuperação - fazendo trabalho interno e no campo com o fisioterapeuta.

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