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Novo xodó do Goiás brilhou na base da Inter e deixou Itália após 12 anos

Rosiron Rodrigues/Goiás Esporte Clube
Imagem: Rosiron Rodrigues/Goiás Esporte Clube

Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

09/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Daniel Bessa foi um dos reforços anunciados pelo Goiás para 2020
  • Meio-campista já tem dois gols em apenas três jogos pelo Esmeraldino
  • Bessa deixou o Brasil com 15 anos para jogar na base da Inter de Milão
  • Aos 28 anos, volta para realizar o sonho de jogar em seu país natal
Classificação e Jogos

Sabe aquele período de adaptação que os jogadores que estão há um tempo no exterior precisam (ou pedem) quando voltam a atuar no Brasil? Pois bem, ele não foi necessário para o meio-campista Daniel Bessa, um dos reforços do Goiás para a temporada 2020 e que acertou com o Esmeraldino depois de muito tempo na Europa, especialmente no futebol italiano.

De volta ao Brasil após 12 anos, o volante/meia que viajou para a Itália com apenas 15 anos mostrou uma adaptação incrível neste início de temporada. Logo em sua estreia pelo Goiás, ele saiu do banco no segundo tempo e marcou o terceiro gol da vitória por 3 a 1 sobre o Anapolina, pelo Estadual. Passou em branco no clássico contra o Vila Nova, mas voltou a balançar as redes na vitória por 2 a 0 sobre o Fast Clube, pela Copa do Brasil, em sua primeira partida como titular.

Até aqui, são dois jogos em três jogos (143 minutos), sendo apenas um deles entre os 11 iniciais de Ney Franco. Nada mal para um jogador de meio-campo e que acaba de chegar ao Goiás.

"Eu tenho uma característica de segundo volante que veio da Itália, ou até meia, e isso faz com que algumas temporadas eu faça mais gols, outras menos. Quanto a início de temporada assim, com três jogos e dois gols, se eu não me engano teve no Verona [foram dois gols em quatro jogos], e foi muito bacana, uma história bem legal para mim. Fazia tempo que eu não estava jogando, por vários motivos, mas a cabeça está muito boa, vim muito concentrado, e senti muita motivação por parte do clube, e isso está fazendo com que a gente comece com o pé direito. Claro que não é minha principal função fazer gols com essa sequência, mas, se acontecer, que seja bem-vindo e uma coisa a mais para gente", disse em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Daniel Bessa deixou o Brasil em 2008, após passar pelas bases de Coritiba e Athletico-PR. Depois de passar por oito clubes na Europa (Inter de Milão, Vicenza, Olhanense-POR, Sparta Rotterdam-HOL, Bologna, Como, Verona e Genoa), sendo seis italianos, o brasileiro naturalizado italiano optou por, enfim, retornar ao país natal e jogar ao lado dos amigos e familiares. Mas por quê?

"Foi muito do meu momento na Itália. Nesses últimos anos já existia essa grande vontade de retornar ao Brasil. O futebol do Brasil está crescendo muito, e eu me senti com a adrenalina de retornar também pelo que eu já tinha feito na Itália, já tinha percorrido minha estrada e então procurava novos ares. Todo ano surgia um interesse de retorno ao Brasil, às vezes mais intenso, às vezes menos intenso... Dois anos atrás, o Grêmio teve uma grande postura, me procurou, mas eu acabei indo jogar no Genoa. E esse ano, graças a Deus, com o Goiás a gente encontrou essa sintonia e o clube me deu muita energia positiva tanto quanto ao projeto técnico como de infraestrutura... Um clube que todos me deram referências de ser um clube muito sério, e isso eu prezava muito. Foram todos esses pontos, até mesmo a cidade...", explicou.

"O que eu mais sentia falta é de jogar aqui perto dos meus amigos, dos familiares, e usufruir e aproveitar dessa adrenalina que é jogar no meu país", acrescentou.

Milão com apenas 15 anos e esforço da mãe

Foi em um torneio de base pelo Athletico Paranaense que Daniel Bessa chamou a atenção de olheiros do futebol italiano. A oferta, no começo, deixou dúvidas no meio-campista, mas uma conversa em família e o apoio da mãe, que seguiu para a Itália com ele, ajudou na resposta final.

"A oportunidade apareceu durante o torneio de Votorantim de 2008. Joguei pelo Athletico, jogamos a abertura contra o Santos, e naquele jogo tinha muita gente no estádio, olheiros, e depois teve a sequência na fase, passamos, e acabamos caindo para Inter ou Grêmio. E lembro até hoje... Era meu aniversário durante o torneio, a gente fez uma festa com o time, e minha mãe falou: 'a hora que acabar o torneio eu preciso falar com você, mas não quero falar antes porque te conheço...'. Quando acabou, ela falou: 'Daniel, seu irmão precisa falar com você... No torneio tinham pessoas que olhavam [jogadores] para clubes da Europa e estão te convidando, tem um negócio da Itália e já estão falando com o seu irmão, e gostaria de saber se tem vontade'. Aí as conversas foram aumentando, recebi o convite da Inter para conhecer as categorias de base, e eu passei as férias e, depois de dois meses, estava em Milão conhecendo o clube...".

"Tive a felicidade, graças a minha mãe, de ter dupla cidadania. Meu irmão já estava na Itália atuando como jogador de futsal, e aí a gente sentou pra conversar na família; eu ainda estava em dúvida, e minha mãe também, mas ela se disponibilizou a ir morar comigo, abdicou da carreira profissional dela - aliás, conseguiu conciliar e se aposentar pra poder me acompanhar -, e a gente tomou a definição de tentar, e foi onde tudo começou. Com 16 anos pude assinar meu contrato e, graças a Deus, tudo aconteceu muito bem. Vivemos momentos difíceis também, minha mãe não ficou muito legal no começo, enfrentamos algumas coisas familiares, de doença, mas conseguimos, sempre com fé e dedicação, superar tudo isso. Tenho que agradecer muito a minha mãe e ao meu irmão pela experiência de vida, que foram fundamentais, e depois as coisas foram acontecendo e, já adulto, continuei minha vida como jogador na Itália. Eles retornaram ao Brasil, eu me casei, enfim, tudo aconteceu da melhor maneira possível", recordou.

Camisa 10 e destaque na base da Inter. Mas e o profissional?

Daniel Bessa sempre foi visto como grande promessa da Inter de Milão. Virou até camisa 10 e colecionou títulos pela base, entre eles o Campeonato Italiano e a NextGen Series 2011/12, espécie de Champions League da categoria sub-19. Mas dois fatores em especial fizeram com que o jogador não tivesse espaço no time principal: uma séria lesão meses antes de subir para o profissional e a forte concorrência num time que, na época, era um dos principais da Europa e contava com nomes como Sneijder e Cambiasso - só pra citar alguns meio-campistas.

#TBT foto de 2012 com o #fenomeno @ronaldo

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"Eu fui muito questionado. As pessoas que não acompanharam têm essa dúvida. Mas o meu percurso na Inter de Milão foi muito bonito. O clube me ajudou muito, fui para lá muito cedo, e ganhei muitos títulos na base tanto no juvenil como nos juniores. No sub-19 ganhamos a Champions League e o Campeonato Italiano. Além dos gols e assistências que fiz naquela temporada, que era pré-profissional, acabei tendo uma fatalidade... No último jogo da temporada, que fomos coroados com o título, acabei rompendo o ligamento cruzado, e teve essa dificuldade além da concorrência que existia na época, que era muito grande. Aí o destino fez com que a gente tivesse de percorrer outras estradas, mas tudo dentro dos conformes... Não foi o clube que não me deu oportunidade, até porque fiz parte de muita pré-temporada, fui muito pra banco, torneios, então foi só uma questão de uma reabilitação, e dificultou um pouco. Mas foi maravilhoso e só tenho lembranças boas", conta o jogador que, pelo sub-23 da Inter de Milão, participou de 50 jogos e marcou 13 gols - além de dar cinco assistências.

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O que já conhecia do Goiás

A gente fica um pouco distante, mas eu acompanho muito. Eu gosto muito de assistir futebol, e acompanhei bastante não só o Goiás, mas o Campeonato Brasileiro, Libertadores, Sul-Americana... E o Goiás vem numa crescente, tem um potencial enorme, ano passado foi muito bem na reta final do Brasileiro...

Sobre quem eu conhecia, pessoalmente, é um grande amigo meu, o Sandro, que veio junto comigo nessa janela de mercado, e os outros conhecia de ver jogar, de conhecer, de ter amigos em comum... E quanto à contratação, o que chegou até mim é que o clube e a comissão técnica queriam contar comigo, então isso é muito importante. Gosto de trabalhar num lugar onde as pessoas tenham essa vontade de todos os lados, então isso foi fundamental. Não cheguei a falar diretamente com o professor antes de chegar aqui, mas sabia da aprovação e da vontade do clube e de toda comissão para gente trabalhar junto.

Clubes onde mais enfrentou dificuldades

Aí eu já conecto à resposta anterior. De todos os clubes, os que eu mais passei dificuldade foram os dois após a lesão que eu fui emprestado, tanto em Portugal como Holanda... Tanto pela questão de emprestado e ainda ser muito jovem, de subir pro profissional, como por fazer parte da reabilitação do joelho. E saí de uma Inter de Milão, com uma estrutura diferente... Como sempre vim de uma escola de muito sacrifício, de muita luta, que é Brasil, Coritiba, Athletico, eu depois retomei o caminho correto.

O melhor jogador que enfrentou e o melhor que atuou junto

Enfrentei tanto jogador extraordinário que fica difícil falar o melhor. Mas acho que o melhor mesmo foi o Cristiano Ronaldo. E junto, pra não falar só em treinamento que poderia ser o Eto'o, quando subi para o profissional, acho que, de atuar junto uma temporada e meia, apesar de já estar numa idade avançada, o jogador de mais peso e diferenciado que eu joguei foi o Pandev, no Genoa. Ele ganhou todos os títulos na Europa e era bem diferenciado mesmo. Também poderia falar do Matusalém, que é um brasileiro que joguei junto no Bologna, fantástico.

+3!!! Grandissima Vittoria AVANTI COSÌ #Forzagenoa @genoacfcofficial @seriea

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Também gosto de citar algo que me surpreendeu muito quando eu subi para treinar com a Inter. Eram todos fenomenais, conhecia quase todos de jogar no Playstation, como Sneijder, Maicon, Júlio César... Mas o cara que mais me surpreendeu, que eu não esperava, foi o Thiago Motta. Foi uma coisa que eu não sabia e não tinha percebido o quanto ele era bom. E o cara era sensacional. Sempre aprendi alguma coisa com ele. Ficou muito marcante para mim e comecei a ver o comportamento dele, e a maneira que ele jogava era absurda.

Os frequentes casos de racismo na Itália

Esse assunto é delicado, não gosto nem de falar. Existiu, existe, a gente sabe que tem, mas também não adianta fechar os olhos para esse tipo de assunto. Racismo é muito grave. Infelizmente eu participei de alguns momentos chatos, mas a gente procurava sempre dar uma força. E, pra mim, era muito difícil lidar com isso porque, por mais que também tenha no Brasil, nós somos um povo multi raças, e pra mim é sempre difícil ver essa situação. É complicado. Não entendo o porquê disso. Dois dos meus melhores amigos que jogaram seis anos na base da Inter, um é senegalês e outro é ganês, tinha hora que eles se sentiam ofendidos, mas buscava deixar bem claro para eles. E, quanto a isso, brasileiro lá é muito bem visto, porque temos uma fama legal de ser pessoas felizes, solidárias, e a gente não leva esse tipo de problema, e isso diminui bastante. Teve, ainda tem, mas acho que precisamos denegrir menos e dar menos ênfase, porque aí as pessoas param de fazer. Ou achar o culpado e fazer pagar, mas sem dar muita notícia, muito estrelismo, porque tem pessoas que fazem só pra aparecer.

Importância do futsal e as passagens por Coritiba e Athletico

O futsal, pra mim, foi fundamental. Inclusive eu não queria parar de jogar, deixar isso de lado, e isso foi resistência dos meus professores da época, do meu irmão, porque depois eu iria me arrepender [não ir para o campo], mas eu era apaixonado por futsal, amava jogar, treinar, e, pra mim, as bases que eu tenho hoje vieram muito do futsal. A passagem pelo Coritiba foi longa, de quase seis anos, bem criança, e no Athletico foi muito rápida. Eu acabei indo por uma questão de a categoria de base do Coritiba não funcionar naqueles anos, mas fiquei só uma temporada, nem um ano inteiro, e aí acabei indo para a Inter de Milão. Então o Athletico me abriu portas para jogar torneios nos quais, se eu não jogasse, provavelmente não teria ido para a Itália. Então, a importância de futsal, Coritiba e Athletico foram enormes.

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