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Ele não sabia "dominar uma bola", quis sair do Palmeiras e parou na seleção

Emerson em sua estreia pela seleção brasileira principal, em amistoso contra a Coreia do Sul - Lucas Figueiredo/CBF
Emerson em sua estreia pela seleção brasileira principal, em amistoso contra a Coreia do Sul Imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

01/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Emerson superou até a desconfiança da própria família para jogar futebol
  • Lateral foi comprado pelo Barcelona e hoje é titular absoluto do Betis
  • Emerson foi convocado por Tite e estreou pela seleção contra a Coreia
  • "É um sentimento inexplicável. Algo surreal", afirmou sobre a estreia

Titular absoluto do Betis-ESP, convocado por Tite para a seleção brasileira principal aos 20 anos e já comparado ao consagrado Daniel Alves. Dá pra imaginar que um jogador desse não sabia nem dominar uma bola direito quando era criança? Ou que até sua própria família duvidava que ele pudesse ter sucesso na carreira? Pois foi exatamente o que aconteceu com o lateral direito Emerson, ex-Atlético-MG e Ponte Preta e que está na Europa desde o meio do ano.

Mas o que será que provocou tamanha transformação no jogador que, segunda suas próprias palavras, 'era ruinzinho quando começou a jogar bola'? Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o lateral - que ganhou o apelido de Royal porque 'chorava muito e ficava com o bocão aberto', tal como o famoso logo da gelatina - revela uma fórmula simples para a evolução: treino. Muito treino.

"Quando eu comecei a jogar bola eu era ruinzinho. Aí teve um cara que me viu jogando bola, e minha mãe sabia que eu jogava, me via todo dia na rua, jogando, com uns dez anos. Só que nessa época eu ainda estava querendo jogar, e tinha um projeto lá, do Guanabara, e eu fui lá. Aí fui treinando, treinando, e comentaram com a minha mãe e com o meu pai: 'vocês viram o Royal jogando bola'? Aí eles disseram: 'Não. Eu sei que ele vai treinar lá, mas não vi mais, não'. 'Então vai lá ver'. Foram um dia me ver, e eu correndo pra caramba. E eles: 'caramba', com essa expressão. Aí fui fazer um teste, num time que chamava Condor, uma escola de bairro que não pagava, e comecei a jogar. Fui bem, e o cara do Palmeiras foi e me levou para fazer um teste lá. Isso em um ano. Todo mundo ficou impressionado. Eu não sabia dominar nem uma bola, e depois de um ano jogava no Palmeiras. Aí todo mundo: "Royal, jogando no Palmeiras"", lembra.

Pedro Vale/AGIF
Imagem: Pedro Vale/AGIF

"Eu sempre fui um cara muito dedicado. Para mim evoluir assim tive que trabalhar muito. Trabalho dia e noite, brincando na rua, aprendendo todo dia com o jogo de rua, que é onde mais se aprende. E treinando forte para chegar nesse nível", acrescenta 'Emerson Royal', que chega a alcançar 35 km/h quando dispara em campo. Uma qualidade que o ajuda demais a executar tudo que os técnicos lhe pedem nos jogos. Mas ressalta: não é a principal.

"É uma velocidade alta que eu tenho. Meu pai, meu irmão, são pessoas rápidas, creio que vem um pouco da genética também. E, claro, de trabalhar. Desde pequeno vivia correndo o dia inteiro na rua, e com o passar do tempo fui melhorando minha velocidade. É uma das minhas virtudes, com certeza, mas não é o essencial", conta o jogador de apenas 20 anos.

Dificuldade na base até a Ponte: "não acreditaram muito em mim"

Emerson chegou às categorias de base do Palmeiras bem cedo: aos 10 anos. Sem ser muito aproveitado, optou por deixar o clube alviverde para jogar mais no Independente de Limeira, onde acabou conquistando um título paulista. Em seguida, mais um clube grande apareceu em sua vida profissional: o São Paulo, onde, segundo ele, foi onde mais aprendeu.

Divulgação/Ponte Preta
Imagem: Divulgação/Ponte Preta

"As passagens foram de muito aprendizado. No Palmeiras eu era muito jovem, e eu que quis sair porque não estava jogando, e preferi ir para o Independente de Limeira para jogar o Paulista, onde me consagrei campeão. No São Paulo foi onde eu mais aprendi, passei três anos e meio e aprendi muita coisa. Fiquei um pouco chateado na saída do São Paulo porque foi meio estranho", recorda Emerson, que diz ter parado de ser aproveitado de uma hora para outra no time tricolor.

Em seguida, chegou a vez do Grêmio, onde, segundo ele, não acreditaram no seu potencial. "Tive pouco tempo, não acreditaram muito em mim, e foi quando cheguei à Ponte. Pude ser muito feliz lá", conta Emerson, que chegou ao time campineiro ainda no sub-17 e fez sua estreia no profissional no Paulistão de 2017. Foi quando começou a se destacar no cenário nacional.

As boas atuações com a camisa da Ponte Preta chamaram a atenção do Atlético-MG, que contratou Emerson para disputar o Campeonato Brasileiro do ano passado. Foi bem, logo se firmou como titular da equipe mineira, mas a passagem durou pouco; a Europa o chamava. Em janeiro deste ano, o Galo anunciou sua venda para o Barcelona, que, a princípio, emprestou-o para o Real Betis. As boas atuações fizeram com que ele fosse convocado por Tite para os últimos amistosos da seleção brasileira, contra Argentina e Coreia do Sul.

Nova opção para a carente posição no time de Tite

Sem nenhuma reação. Foi assim que Emerson recebeu a notícia de sua primeira convocação para a seleção brasileira principal, no último dia 9 de novembro.

"A minha primeira reação [ao ser convocado] foi de não saber o que fazer. Não sabia para onde olhar, se era verdade, se eu acreditava ou não. É uma coisa que só vivendo pra você conseguir explicar. É inexplicável. É um sentimento maravilhoso. Eu estava fazendo massagem, veio um fisio aqui em casa, e eu estava deitado na maca. Quando a gente escutou a notícia, meu irmão e minha mãe vieram pra cima de mim e começaram a pular. Foi uma felicidade imensa", conta.

"A gente sempre tem esperança de estar na lista. Eu até esperava, mas não tanto. Não tinha tanta certeza. 1% não, um pouco mais [risos]. Mas foi uma surpresa pra mim", admite.

Lucas Figueiredo
Imagem: Lucas Figueiredo

Emerson é mais uma opção de Tite para tentar acabar com a inconstância da posição que mais desperta dúvidas na seleção atualmente. O treinador tem nas laterais, especialmente na direita, uma das principais lacunas para a renovação do time que poderá disputar a Copa de 2022. Marcinho, de 23 anos, do Botafogo, foi convocado para os amistosos de outubro e é outro nome que está no páreo. Mas Emerson, ao contrário do botafoguense, teve a oportunidade de fazer a tão sonhada estreia com a camisa verde e amarela, no fim da etapa final contra a Coreia do Sul.

"É um sentimento inexplicável. Algo surreal. Quando entrei no campo, eu olhava para o lado, para os meus companheiros... Todos me deram uma força do caramba quando eu entrei. 'Bora negão, faz o seu trabalho'. Tite me deu muita confiança, falou para eu entrar, fazer meu trabalho, jogar e desfrutar do momento. Quando entrei no campo ali passou um filme na cabeça. Você vê jogo da seleção brasileira principal na televisão, no videogame, e você chega e depois de uns dias vê a imagem e é você que está ali. É algo surreal", comenta.

"Graças a Deus tenho uma cabeça muito boa, e sabia que uma hora ia chegar, e eu tinha que estar preparado, e acabou chegando e abracei a oportunidade. Lido bem com isso. Tenho a cabeça boa, até de pessoa um pouco mais velha, e tenho na cabeça que tenho que ter o pé no chão, que vou chegar mais longe, mas tenho que ir passo a passo e nunca achar que está bom, sempre achar que pode melhorar", completa o jogador de apenas 20 anos.

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Técnico do Betis: "Vai chegar no nível do Daniel Alves para melhor"

Essa frase que o professor disse para mim foi uma coisa muito boa porque consigo ver a confiança que ele tem em mim. É uma coisa muito importante. Ser comparado com o Daniel Alves é um prazer porque é um cara que tenho como ídolo e procuro seguir os passos. É um privilégio.

Carlos Sanchez Martinez/Icon Sportswire via Getty Images
Imagem: Carlos Sanchez Martinez/Icon Sportswire via Getty Images

Importância de André Jardine na seleção de base: "devo muito a ele"

Como eu disse uma vez, ele não tem só um dedo, tem uma mão inteira. Ele me ajudou muito. Aprendi muito, meu futebol evoluiu muito, e me ajudou a desenvolver meu futebol no clube e a chegar à seleção brasileira. É um cara que eu tenho um carinho muito grande e devo muito a ele.

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