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Baralho "sagrado" e resistência a fotos: como era Coutinho fora dos campos

Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos
Imagem: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos

Eder Traskini

Colaboração para o UOL, em Santos

13/03/2019 04h00

Se Antônio Wilson Honório, o Coutinho, fez da área sua casa enquanto vestia chuteiras e a imaculada camisa do Santos, foi atravessando a rua da Vila Belmiro que encontrou sua morada após encerrar a carreira.

Uma mesa de plástico, o copo de cerveja e um baralho se transformaram em apetrechos constantes na vida do ex-jogador em um bar em frente ao portão 7/8 do estádio onde desfilou seu futebol por tanto tempo.

Por cerca de oito anos, o jogo de tranca começava ali por volta das 17h e por vezes entrava pela madrugada até 3h da manhã. Coutinho levou para aquele recinto todo o seu espírito vencedor e ai de quem ousasse fazê-lo perder uma partida.

"Ele era bravo. Gostava de esconder uma carta... Se ele não ganhasse era briga. Ele era um ganhador nato e não gostava de perder ou de empatar. Era tudo sério, só podíamos conversar com ele numa boa quando ele ganhava. Enquanto ele não ganhasse uma, não dava pra conversar", lembra o dono do estabelecimento conhecido como Alemão, em entrevista ao UOL Esporte.

"O mais engraçado é que quem perdia tinha que dar lugar para outra dupla. Tinha. Ele gostava tanto de jogar tranca que quando perdia, continuava na mesa e só mudava seu parceiro. Mas como todos já estavam acostumados ficava tudo certo. Ele detestava perder", reforça Vanir Matteo, companheiro de mesa, à reportagem.

Entre uma partida e outra, claro, não faltavam histórias da época em que jogou no ataque dos sonhos: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, o quinteto que embala canções e que viverá para sempre no mundo do futebol.

Por vezes era reconhecido pelos fãs, mas ai de quem tentasse tirar uma foto com o lendário centroavante enquanto a partida de tranca se desenrolava.

"Ele não gostava de entrevista e tirar foto. Os turistas chegavam no bar pra tirar foto e era uma briga para ele tirar o olho da carta e tirar a foto. A gente apertava ele e ele brigava com a gente porque era muito turista no bar. Mas teve uma época que ele começou a descontrair e estava aceitando. Nos últimos três anos ele já estava numa boa", conta Alemão.

Segundo Matteo, o ídolo santista demorava a ceder, mas tirava foto "mesmo resmungando". O parceiro promete um torneio de tranca em homenagem ao amigo. "Troféu Coutinho! Do céu ele vai estar querendo participar", arrisca.

Discreto, Coutinho preferia permanecer em seu recinto mesmo diante de festividades como a do Centenário do Santos. Não quis participar do filme em homenagem aos 100 anos do clube e nem do livro sobre os maiores jogadores do clube, intitulado "Os Dez Mais do Santos".

"Eu gosto de ficar lá no bar, gosto de jogar tranca com meus amigos, qual o problema? Cada um faz o que quer, eu gosto de jogar baralho. Tem gente que gosta de festa, eu sou discreto", disse certa vez em entrevista ao UOL Esporte.

O "professor da pequena área", como definiu o Santos em suas redes, morreu na noite da última segunda-feira aos 75 anos, mas viverá para sempre no coração e na memória de todos aqueles que vivem o futebol e também na lembrança dos seus companheiros de tranca.

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