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No "futebol-raiz" de MG, ex-companheiro de Buffon fatura prêmio de R$ 100

Gladstone, zagueiro que atualmente defende a URT, de Patos de Minas - Reprodução/TV Integração
Gladstone, zagueiro que atualmente defende a URT, de Patos de Minas Imagem: Reprodução/TV Integração

Giancarlo Giampietro

Colaboração para o UOL, em São Paulo

09/03/2019 04h00

O zagueiro Gladstone já fez parte do mesmo time de Gianluigi Buffon e Fabio Cannavaro. De Alex e Luisão. De Marcos e Valdivia. Quer dizer: sua carreira é praticamente dominada pela convivência com um futebol ostentoso, de alto nível, que, segundo o prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, só pode ser curtido pelos ricos no estádio, conforme dito em entrevista ao UOL Esporte

Só não vá dizer ao zagueiro, agora aos 34 anos, que seu vínculo com a URT, de Patos de Minas, num universo quase que paralelo, é algo para se esconder em seu currículo. Um universo no qual pode receber da torcida local até mesmo R$ 100 como prêmio como o melhor em campo em partida histórica para o clube: vitória sobre o Coritiba pela primeira fase da Copa do Brasil. Teve drama: 3 a 2, e foi dele o gol do triunfo.

A quantia foi anunciada em transmissão da Rádio Clube 98, líder de audiência local. Quem agraciou Gladstone foi o "Bilhar Bola Sete". A notícia viralizou na internet mineira, mas não é uma questão de zoeira. É só um episódio, recorrente para os atletas da URT e de tantos times do país adentro, que mostra que o futebol brasileiro ainda pode viver muito bem, obrigado, ao seu modo numa realidade mais modesta.

"É o nosso futebol-raiz", afirma o zagueiro, que foi atleta da Juventus de Turim em 2005 e, 14 anos depois, recebeu uma nota de 100 no dia seguinte ao da partida contra Coritiba.

O que importa aqui não é o valor de face da nota, mas seu simbolismo "Você faz a sua obrigação, que é jogar, tentar vencer, mas tem esse carinho dessa forma, que é impagável", diz o defensor, campeão do Brasileirão, da Copa do Brasil e do Mineiro em 2003 pelo Cruzeiro e da Taça de Portugal pelo Sporting, em 2008. 

"Aconteceu em forma de agradecimento. Agradecem como se tivessem feito um favor para a cidade. A gente fica alegre por ver a simplicidade e o amor e leva isso para dentro de campo, para retribuir o carinho."

Gentilezas

Gladstone conta que um de seus companheiros de time já ganhou do dono de uma oficina local o balanceamento e alinhamento do carro. O radialista Adamar Gomes, narrador responsável pelas transmissões da Rádio Clube que podem passar dos 70% de audiência na região, afirma que já houve jogadores no clube que ganharam mais dinheiro com bonificações dos torcedores do que com o salário bruto.

As premiações muitas vezes vêm da emoção no estádio Zama Maciel. Há repórteres da emissora que são chamados no alambrado, lembra o locutor. Gladstone corrobora: "Nesse mesmo jogo [contra o Coritiba], um repórter entrevistou um rapaz encostado na grade. Perguntou o que havia achado do jogo, e esse torcedor disse que nosso goleiro [Marcão] havia pegado muito e que, quando acabasse, era para passar com ele para pegar R$ 50."

Enfim, a vitória pela estreia na Copa do Brasil evidentemente rendeu, em muitos sentidos. "O Twitter pegou fogo. Achei interessante a gozação do pessoal", diz Adamar, que só quer deixar claro que as premiações não são elaboradas, propostas pela rádio. São coisas da torcida, apenas anunciadas quando vindo de patrocinadores. Podem ser pizzas, calças jeans ou lavagem de carro, entre outros mimos.

É aí que, depois de suas andanças, muitos jogadores acabam ficando na URT, mesmo. "É aquela receptividade do mineiro. Essas pessoas vão se sentindo em casa. Apesar de ser um estádio pequeno, tem essa questão da gentileza, digamos assim", diz o radialista.

Operação de resgate

Também não achem que seja tudo uma maravilha nesse relacionamento. Dá para esperar por altos - e baixos. Adamar Gomes, com mais de 50 anos de rádio, é o primeiro a lembrar que, se a fase for ruim, a torcida da URT pode ser daquelas que "quebra o estádio", numa metáfora. Gladstone concorda e não vê problema.

"Temos de resgatar isso no nosso torcedor, para que os grandes possam ficar em segundo plano. Por mais que haja torcedores de Atlético ou Cruzeiro, que se valorize um pouco mais o time de sua cidade. Automaticamente, a cidade vai ser valorizada, e vão surgindo novos torcedores. Assim vamos mantendo a história viva", diz o jogador.

O começo de temporada do time estava caminhando na direção do "quebra-quebra". Foram cinco partidas sem vitória pelo Mineiro, com dois empates e três derrotas. Até que venceram o Coritiba. Desde então estão invictos em quatro jogos, com direito a empate em casa com o Cruzeiro (1 a 1). "Sabíamos que seria um jogo difícil. Mas, na situação em que a gente se encontrava, uma vitória poderia ser o divisor de águas. Então criamos expectativas para tentar elevar a confiança", diz o zagueiro.

Tudo isso pode parecer pouco para alguém com seu currículo, incluindo aí convocação para a seleção brasileira, na (primeira) era Dunga. Mas também ainda pode soar prazeroso para quem saiu de casa, no Espírito Santo, aos 11 anos, para ser jogador do Cruzeiro e ali começar longa relação com o futebol.

Para Gladstone, valeu muito, assim como para a URT, mesmo que o clube tenha sido eliminado pela segunda rodada da Copa do Brasil pelo Vila Nova-GO, de novo com drama, nos pênaltis. A mera vitoria sobre o Coritiba já havia rendido uma quantia mais que simbólica: R$ 615 mil, desembolsados dessa vez pela CBF.

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