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Impasses em renovações refletem o estilo Nobre de gerir o Palmeiras

Danilo Lavieri

Do UOL, em São Paulo

24/04/2014 06h01

O empresário e presidente do Palmeiras Paulo Nobre é um apaixonado pelo que faz. Chega a ser autoritário e vaidoso com suas decisões. Tem a convicção que, tão importante quanto o título, é a conta bancária do clube estar no azul. Quem afirma isso são pessoas que trabalham direta e indiretamente com o cartola. Por semanas, o UOL Esporte conversou com empresários, conselheiros, funcionários e diretores do Palmeiras para contar como Nobre conduz o clube no ano do seu centenário.

Negociações de renovação com jogadores como Alan Kardec e Wesley reúnem fatores que servem de grande exemplo sobre qual é o estilo do cartola. Nobre quer ver os atletas colocando o Palmeiras acima de tudo. Ele não se conforma com o que entende ser um excesso de entrevistas que o estafe de Alan Kardec concede. É inflexível sobre manter os pés no chão no aspecto financeiro, por mais que saiba da importância desses jogadores para o Palmeiras. Essa conduta resulta numa pressão enorme em cima dele, até mesmo por parte de seus aliados. O interesse de rivais só aumenta o aperto. Mas nada disso importa. A última palavra será a dele.

Há o risco real do Palmeiras perder esses jogadores para rivais diretos. Muitos no clube dão a saída de Wesley como certa. Para o dirigente, não há a menor chance do meia renovar sem aceitar o formato de produtividade implantado nesta gestão. A postura do volante até aqui desagrada tanto Nobre que até uma procuração para que Wesley seja vendido já foi assinada.

"Ele ama muito, mas muito o Palmeiras. É impressionante. Mas quando ele coloca alguma coisa na cabeça, não adianta. Ele vai levar aquilo até o fim. Ele fica muito chateado quando vê que o futebol tem muito malandro. Fica até difícil lidar com ele algumas vezes, mas pelo menos sabemos que ele sempre tem a intenção de fazer o melhor para o clube. Claro que às vezes perdemos alguns jogadores, mas acontece", disse um de seus funcionários.

A trajetória de vida de Nobre antes dele se tornar uma pessoa pública mostra o tamanho dessa paixão relatada pelos seus parceiros que trabalham no clube. É incontável o número de produtos relacionados ao Palmeiras que Nobre possui. Além de todo tipo de artigo esportivo de qualquer época, são abundantes na coleção do presidente gravatas estampadas com porquinhos e réplicas do animal em diferentes tamanhos. Também piloto de rali, ele tem um carro com as cores e símbolos do clube e carrega o apelido de “Palmeirinha” no meio da velocidade. É frequentador das arquibancadas do Palestra Itália desde muito jovem. Em seu sítio em São Roque, guarda várias lembranças da sua paixão. Ali organiza jogos com direito até a vestiários semi-profissionais e a visitantes de luxo como o ídolo Evair.

Com o futebol e o Palmeiras sempre em primeiro lugar na vida de Nobre, não surpreende que ele tenha dado o próprio nome para avalizar empréstimos milionários e dar algum fôlego financeiro ao clube. Isso mesmo sabendo que a estratégia não seria 100% aceita pelo Conselho Deliberativo e até pelo mercado, que é unânime em dizer que um executivo na posição de Nobre nunca deve ser credor de uma instituição. Membros do COF (Conselho de Orientação e Fiscalização) afirmaram ao UOL Esporte que, nas próximas reuniões do grupo, o presidente será bastante questionado por essa operação.

Na visão do presidente, no entanto, esse é o único jeito de viabilizar o caixa palmeirense. Nem mesmo uma baixa em suas ações, que beira os R$ 100 milhões com a desvalorização dos papéis do grupo de Eike Batista, o fazem repensar o crédito que dá aos cofres do clube. Ao lado de conquistar títulos, Nobre tem como grande missão deixar o Palmeiras com as contas equilibradas. Mesmo que isso signifique sofrer mais um pouco dentro de campo.

Há uma cobrança bem explícita para todos que jogam pelo Palmeiras: honre muito essa camisa. Ele faz questão de falar isso para qualquer jogador que apresenta para a imprensa e não se conforma quando o "amor ao clube" fica em segundo plano.

Foi assim no caso do zagueiro Henrique, por exemplo. Na cabeça de Nobre, um funcionário nunca pode levar uma discussão interna para a justiça, por mais razão que tenha nisso. Esse é um erro primário para qualquer atleta que queira, hoje, trabalhar no Palmeiras. Assunto interno é para ser conduzido e resolvido dentro Academia de Futebol.

Ceder ao jogo de empresário de atleta significa ir contra a sua convicção. Nobre não faz isso nem que seja muito pressionado. Por isso, ele tem sido criticado por oposição e situação pela condução de algumas negociações. Entre os empresários e colaboradores do presidente que falaram com a reportagem, “ego” é a palavra mais falada hoje para os que querem achar problemas na atual gestão.

A turma do ex-presidente Mustafá Contursi, por exemplo, o ajudou na eleição. Hoje, não poupa críticas ao diretor-executivo, José Carlos Brunoro, ao diretor de marketing, Marcelo Giannubilo, e ao valor gasto com o grupo de profissionais. Mas Nobre dá de ombros. Tem certeza que a profissionalização é o único caminho para reestruturar o clube. Por isso, impõe políticas como o vínculo por produtividade, mesmo sendo o único do país a fazer isso, o que, muitas vezes, significa perder atletas para concorrentes.

Esse é o efeito colateral apontado por empresários de jogadores que conversaram com o UOL Esporte. Eles não são contra o modelo de contrato que inclusive é adotado no sempre badalado futebol europeu, mas apontam que o grande problema é que essa não é a prática comum no mercado. O jeito certo, para os agentes, seria fazer um grande acordo para que esse modelo fosse a lei de mercado no país. Outro porém visto pelos que cuidam da carreira de atletas é a sempre possível falta de continuidade na gestão. Uma mudança de presidente, por exemplo, pode colocar tudo a perder.

Outra convicção de Nobre é a renovação de poder. Hoje, sua base tem vários nomes que eram praticamente desconhecidos no Conselho Deliberativo. Mais do que isso. Conta com pessoas que são sócios do clube e não conselheiros. Junto a isso, a aposta para que a estrutura palmeirense tenha mudanças profundas é de dar mais voz ao sócio-torcedor e acabar com qualquer privilégio para torcedores organizados. A pressão desse último grupo, aliás, é gigantesca, com direito a violência. Ele se reforça, anda com segurança particular, mas também não cede.

Nobre também não cedeu na hora de escolher seus principais conselheiros. Respeita à risca o que é traçado pelo seu assessor de imprensa e se revolta quando ouve críticas por aceitar influência de quem já trabalhou com Kia Joorabchian e a MSI. Ele acredita que essa experiência profissional pode ajudar o Palmeiras nos bastidores do futebol.

A princípio, o presidente está decidido a tentar a reeleição. E está confiante na vitória.

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