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Nó tático em Deschamps marca título de Scaloni, técnico mais jovem da Copa

Lionel Scaloni tem 44 anos e conduziu a Argentina ao tricampeonato mundial - Kai Pfaffenbach/Reuters
Lionel Scaloni tem 44 anos e conduziu a Argentina ao tricampeonato mundial Imagem: Kai Pfaffenbach/Reuters
Gabriel Carneiro, Igor Siqueira, Bruno Andrade, Danilo Lavieri, Pedro Lopes e Rodrigo Mattos

Do UOL, em Doha (Qatar)

18/12/2022 15h16

Classificação e Jogos

Técnico mais jovem da Copa do Mundo do Qatar, Lionel Scaloni conduziu a Argentina ao terceiro título da competição neste domingo (18), no estádio de Lusail, na decisão contra a França nos pênaltis. Nascido em maio de 1978, ele tem 44 anos e deixou digitais em todos os confrontos do Mundial com mudanças relevantes na escalação e na forma de jogar do time. Na final, consagrou o título com um nó tático no primeiro tempo num jogo de xadrez contra o veterano Didier Deschamps.

A superioridade argentina ficou clara no início da partida. Depois de variar esquemas ao longo da Copa, Scaloni entrou na final com o time no 4-4-2, com Di Maria pela esquerda e Messi mais solto para circular entre o lado direito, o meio-campo e o ataque. A ideia era ter Di Maria para cima de Koundé, que é um zagueiro improvisado de lateral e não sobe para atacar. Ou seja, o camisa 11 nem precisava voltar tanto para marcar e tinha fôlego de sobra para jogadas de um contra um.

De Paul foi deslocado para ajudar Molina na marcação pela direita, desafiar Mbappé e evitar as subidas ao ataque de Theo Hernández, o que deu ainda mais liberdade para Messi. Liberdade muito bem aproveitada, por sinal.

Os ajustes defensivos da Argentina travaram o jogo da França de um jeito pouco visto no torneio. Sempre dono das partidas, construindo vitórias que em algum momento parecem inevitáveis, Deschamps viu sua estratégia ruir. Com bola, não tinha criação. Sem bola, a Argentina desfilou e fez seus gols aos 23 e 36 minutos do primeiro tempo, com Messi e Di Maria. Normalmente calmo à beira do campo, até sentado, Deschamps levantou, gesticulou, se irritou e fez duas trocas no time ainda antes do intervalo.

Foi um nó tático do treinador mais jovem da Copa do Mundo num dos mais experientes. Campeão mundial em 2018 e já em sua terceira edição como técnico, o francês tem 54 anos sucumbiu diante do estreante Scaloni, que foi de bombeiro interino a revolucionário no comando da Argentina em menos de quatro anos.

Lateral-direito de carreira na Europa, mas pouco destaque, Scaloni parou de jogar em 2015. Deschamps já tinha uma Copa como técnico da França. O argentino migrou para a área técnica em outubro de 2016 após um convite do técnico argentino Jorge Sampaoli (ele mesmo, ex-Santos e Atlético-MG) para ser auxiliar no Sevilla. Juntos, chegaram à seleção argentina em junho de 2017.

Depois do fracasso na Copa do Mundo da Rússia, Sampaoli saiu do comando da Argentina, mas Scaloni ficou porque também fazia um trabalho de integração com as categorias de base e era querido pelos jogadores por tentar abafar as crises de relacionamento do ex-chefe com as estrelas.

Ninguém aceitou o cargo de técnico da Argentina depois da Copa de 2018. Só do que se tornou público, Marcelo Gallardo, Diego Simeone, Mauricio Pochettino e Marcelo Bielsa disseram "não", o que deixou a AFA sem saída. Scaloni, então, foi alçado a treinador interino e começou a entregar resultado, bom relacionamento com o elenco e identidade de jogo. No fim de 2018, sem qualquer experiência como treinador principal, foi efetivado como uma aposta, não mais do que isso.

A confiança da mídia argentina e dos torcedores foi sendo construída aos poucos. No começo, o termo "Scaloneta" usado para exaltar o time como um rolo compressor de adversários, era irônico. Mas vingou. O auge foi na Copa América disputada no Brasil. Era como se fosse a última chance de Scaloni mostrar algo que justificasse trabalhar na Copa do Mundo, já que na Copa América de 2019 tinha caído para o Brasil nas semifinais por 2 a 0.

Na edição seguinte, disputada em 2021 por causa da pandemia, a Argentina foi campeã no Maracanã. Muito graças ao treinador, que adaptou seu time para explorar a fraqueza da seleção brasileira na final. Curiosamente, Scaloni colocou Di Maria para jogar nas costas do ofensivo lateral-esquerdo Renan Lodi, que acabou entregando. Um ano depois, Di Maria do lado esquerdo da defesa adversária foi de novo o segredo na construção da vantagem.

Veja fotos do encerramento e da grande final da Copa do Mundo do Qatar

Esse tipo de ajuste tático a depender do adversário é especialidade de Scaloni. Sem Lo Celso na Copa do Mundo, ele escalou o time com Papu Gómez e um 4-2-3-1 na estreia contra a Arábia Saudita e perdeu. Na rodada seguinte, em que podia ser eliminado, mudou seis peças e a formação tática e, enfim, respirou. No mata-mata, o time mudou para um esquema com três zagueiros durante o jogo contra a Austrália. Manteve diante da Holanda o tal 3-5-2.

Na semifinal contra a Croácia, voltou ao 4-4-2 para controlar melhor o meio-campo da Croácia e deixar Modric travado. Mais ou menos a receita contra a França, mas desta vez bloqueando as ações de Mbappé. Só que não deu para fazer isso o jogo inteiro.

Aos 19 minutos, Scaloni lançou o marcador Acuña na vaga do cansado Di Maria para dobrar a marcação e atrapalhar ainda mais a seleção que precisava correr atrás do resultado, mas as mudanças de Deschamps tiveram impacto muito maior. Kolo Muani, uma das mexidas antes do intervalo, sofreu o pênalti do primeiro gol da França. Também saídos do banco, Coman, desarmando Messi, e Thuram, com a assistência, participaram da jogada do segundo gol marcado por Mbappé.

Scaloni reagiu com Montiel, Paredes e Dybala ao longo do primeiro tempo da prorrogação. Deschamps lançou Fofana e Konaté. Messi fez gol e Montiel cometeu um pênalti, o que poderia ter colocado o plano do técnico argentino a perder, mas a França não foi além do empate em 3 a 3 na prorrogação. É que nos pênaltis, deu Argentina. E foi no jogo de xadrez com Scaloni a maior ironiza: o gol do título foi de Montiel.

César Menotti, Carlos Bilardo e agora Lionel Scaloni. O condutor do tricampeonato, aliás, é o mais jovem a vencer uma Copa do Mundo justamente desde Menotti, que faturou o título em 1978 aos 39 anos de idade. Exatamente no ano em que nasceu Scaloni.

O choro nos braços dos jogadores da Argentina depois do jogo valeu por estes anos todos. O bombeiro é campeão.