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Rodrigo Mattos

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que Flamengo e São Paulo agem diferente sobre Pedro e Daniel nos Jogos

 Pedro jogador do Flamengo comemora seu gol durante partida contra o Palmeiras  - Jorge Rodrigues/AGIF
Pedro jogador do Flamengo comemora seu gol durante partida contra o Palmeiras Imagem: Jorge Rodrigues/AGIF
Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

18/06/2021 04h00

A lista da seleção olímpica tem dez jogadores de times brasileiros. Desses, Pedro e Daniel Alves causaram comoção pela importância para seus times. Flamengo e São Paulo, no entanto, adotaram posturas bem diferentes: o time carioca vetou a liberação, e o paulista avalizou a ida de seu craque. Há motivos nos bastidores que explicam essas atitudes.

Não há obrigação de liberação de atletas para a Olimpíada que não está no calendário oficial da Fifa. Clubes europeus não permitem seus atletas na competição salvo exceções. No Brasil, os clubes vão perder jogadores nas oitavas de final da Libertadores, da Copa do Brasil e em rodadas do Brasileiro.

Pedro retornou de amistosos da seleção olímpica com Covid-19. Após três gols nesses jogos, a diretoria do Flamengo sabia que seria convocado por Jardine. Por isso, resolveu se antecipar e conversar com o atleta.

Há dez dias, o departamento de futebol explicou a Pedro que o clube fizera bastante esforço para investir R$ 90 milhões em sua contratação junto à Fiorentina. O clube atravessará momento decisivo da temporada na Libertadores e Copa do Brasil. Pedro contra-argumentou que era seu sonho estar na Olimpíada. Dirigentes rubro-negros ponderaram que não seria possível liberá-lo.

A CBF informou da presença de Pedro na lista de convocação olímpica por e-mail. O clube enviou uma carta em que afirmava que ele não seria liberado. Entendia que seria feito o mesmo que ocorreu com Neymar e Marquinhos, que, diante da recusa do PSG, foram excluídos da relação.

Pois a CBF mandou um e-mail ao Flamengo informando para desconsiderar a convocação. Mas, no anúncio da lista, Jardine o incluiu entre os chamados. Dirigentes rubro-negros têm certeza de que o objetivo é forçar a barra para o atleta pedir para ir. Fontes da confederação confirmaram a estratégia. Pedro fez um post em rede social em que agradece a convocação e ao Flamengo. O clube rechaça mudar de posição. Só o presidente Rodolfo Landim poderia alterar essa decisão e já deu indicativos internamente de que isso não ocorrerá.

Como pano de fundo, a disputa entre Flamengo e CBF já ocorreu com Gabigol na Copa América: o jogador não se reapresentou para ser examinado pela agremiação rubro-negra usando um atestado de médicos da seleção. O clube se irritou e ameaça multa-lo.

Do outro lado, o São Paulo é um clube com boa relação com a CBF. Mas, no caso de Daniel Alves, não foi isso que pesou na liberação. Inicialmente, ele não estaria na lista porque os jogadores acima de 24 anos seriam Marquinhos, Neymar e Weverton, todos vetados por seus times.

O São Paulo, no entanto, tem uma dívida de R$ 10 milhões com o jogador em salários não pagos nos anos anteriores. Daniel Alves tem sido compreensivo, mas já avisou que uma hora isso teria de ser resolvido. Não foi.

Pois bem, Daniel não bateu o pé de que iria à Olimpíada de qualquer jeito. Deixou claro ao São Paulo, no entanto, que era seu sonho atuar na competição. O clube não se viu em posição de resistir. Há uma consciência de que sua saída representa uma perda técnica em jogos importantes da temporada e que a reação da torcida seria negativa. Mas o clube era a parte frágil da negociação.

Os salários de Daniel Alves — que estão na casa de R$ 1,5 milhão por mês com tudo incluído — estão em dia durante a gestão de Julio Casares. Mas o pendura do passado abriu as portas da Olimpíada para o jogador.

Rodrigo Mattos