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Renato Mauricio Prado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

RMP: Ao Rei, com carinho

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Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

21/01/2022 23h11Atualizada em 22/01/2022 02h49

Eu devia ter uns 10 anos, não mais que isso. Meu pai foi a Santos, a trabalho, e na volta me trouxe um pequeno tesouro. Um cartão de visita dele, com uma dedicatória nominal: "Para o Renato Maurício, com um abraço do Pelé". Claro, após algum tempo, entendi que aquilo nem era algo tão especial. Em sua condição de ídolo, um carinho normal com um pai que, no vestiário da Vila Belmiro, lhe pedira um autógrafo para o rebento apaixonado pelo futebol.

Desde pequeno, portanto, Edson Arantes do Nascimento me encantava. Vi-o jogar algumas vezes pela seleção brasileira, no Maracanã, ora em amistosos, ora nas eliminatórias para a Copa de 70. Estava lá quando quebrou a perna de um alemão que o caçava em campo, em 1965. E vibrei alucinadamente, com quase 200 mil torcedores, no dia em que marcou o gol da vitória apertada das "Feras do Saldanha" contra o Paraguai, classificando o Brasil para aquela que viria a ser a Copa do tricampeonato..

O Mundial de 70, ainda adolescente, acompanhei pela TV. Em preto e branco. E Pelé fez o que fez. Um monstro. Capaz de enfeitiçar o mundo até nas jogadas geniais que não terminaram em gols. O maior de todos, numa equipe formada por vários supercraques da bola. Como não idolatrá-lo?

Por tudo isso, em 1979, minhas pernas tremeram no dia em que, já jornalista, o vi, frente a frente, no vestiário do Flamengo, num jogo amistoso do fenomenal time de Zico contra o forte Atlético Mineiro. Nesse dia, ele vestiu o Manto Sagrado número 10 (cedido por Zico, que usou a camisa nove).

O Fla venceu por 5 a 1, com um show de Júlio César "Uri Geller", mas o que mais me lembro é de entrevistar o "Rei", depois que ele teve que ser substituído, por levar um bico do zagueiro Luisinho na canela, contusão que o obrigou a tomar alguns pontos, ainda no Maracanã.

Para ser sincero, nem me recordo o que lhe perguntei naquele dia. Mas não me esqueço da expressão serena e simpática, com que, apesar das dores, atendeu a todos nós, repórteres naquele dia. Sua majestade, o rei do futebol, diante de súditos encantados, como todos éramos naquele momento.

Aos mais jovens, aconselho: esqueçam comparações tolas com outros gigantes do futebol. Ninguém jogou como Pelé, nem tampouco conquistou três títulos mundiais em Copas do Mundo (dois como protagonista absoluto) e dois em competições interclubes - seu Santos foi, indubitavelmente, uma das melhores, senão a melhor, esquipe de todos os tempos.

Tive ainda com ele duas outras passagens inesquecíveis. A primeira, numa excursão da seleção brasileira à Europa, em 1981, quando foi homenageado, em Paris, pelo prestigioso jornal francês L'Equipe, como atleta do século. Era uma cobertura importantíssima em minha carreira de repórter. E ele me atendeu, na véspera do jogo pelo telefone (quando comemorava o aniversário dele) e, no dia seguinte, pessoalmente, no Parc des Princes.

Sempre atencioso. Sempre com aquele sorriso encantador e inesquecível no rosto. Foi o mais aplaudido naquele dia, embora a seleção de Telê brilhasse intensamente naquela viagem (vitórias sobre a Inglaterra, a primeira em Wembley, a França, em Paris, e a Alemanha, em Stuttgart).

O encontro mais marcante, porém, aconteceu no GLOBO, em 1994, quando, ele, então Ministro do Esporte, foi recebido por toda a diretoria da empresa. Como ex-editor e colunista de esportes, me coube fazer as honras da casa e levá-lo a uma reunião cheia de engravatados, muitos deles daquele tipo que considerava o futebol uma "coisa menor".

Cheguei na sala de reuniões temeroso, pronto para defender o "Rei" caso alguém ousasse interpelá-lo ou diminuir sua importância - ele,, também receoso, me pedira que o fizesse. Santa inocência. Dele e minha. Difícil foi controlar os pedidos de autógrafos e fotos, ao final do "meeting". Não somente doa vários executivos, mas de centenas de funcionários de toda empresa, que fizeram fila para vê-lo, tocá-lo, pelo menos se aproximar dele. Pelé encantou a todos que, na verdade, já estavam rendidos, assim que ele entrou na sala.

Mas, afinal, por que resolvi escrever sobre o maior jogador de futebol de todos os tempos, agora? Porque, ao final de uma live do meu Canal no You Tube, com José Ilan, li na internet a devastadora noticia do agravamento de seu estado de saúde. Foi o bastante para que encerrássemos o programa, consternados, antes que eu desabasse em lágrimas.

Rezo para que Pelé consiga driblar mais esse dificílimo adversário. E agradeço a ele e a Deus a ventura de ter visto em ação e ter convivido um pouco com o maior de todos em todos os tempos. Que me perdoem Maradona, Messi, Di Stefano, Cristiano Ronaldo e que tais. Nenhum engraxa a chuteira do senhor Edson Arantes do Nascimento. O nosso Pelé. O Rei do Futebol.

P.S: Se você não teve a fortuna de acompanhá-lo ao vivo e ainda não viu "Isto é Pelé" e "Pelé Eterno", corra para assisti-los e você entenderá perfeitamente do que estou falando.

Tributo

O título dessa coluna é uma singela homenagem a outro craque negro: o ator Sidney Poitier, primeiro afro-americano a ganhar um Oscar - em 1963, pelo filme "Uma voz nas sombras" ("Lilies of the Field"). Uma interpretação dele, num filme açucarado e adorável, "Ao Mestre com carinho", marcou a adolescência da minha geração. Poitier morreu no início de janeiro, aos 94 anos.