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Renato Maurício Prado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Djokovic escala o Everest do tênis e domina o fim de semana esportivo

Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

13/06/2021 22h16Atualizada em 14/06/2021 12h45

Me desculpem os apaixonados fãs do velho e violento esporte bretão, mas o maior feito esportivo do final de semana não aconteceu num campo de futebol. Nenhum jogo da Eurocopa, do Campeonato Brasileiro ou da Cova América produziu façanha tão gigantesca quanto a protagonizada pelo tenista sérvio Novak Djokovic, número 1 do ranking mundial, em Roland Garros, onde conquistou o 19º título de Grand Slam de sua carreira.

É senso comum entre os esportistas que derrotar o espanhol Rafael Nadal na quadra Philippe Chatrier, a principal do charmoso complexo parisiense, é das tarefas mais difíceis entre todas as modalidades do esporte. É como escalar o Everest, costumam dizer os tenistas. Sem ampolas de oxigênio, acrescento.

Até a última sexta-feira, o Miúra fizera 105 jogos no saibro de Paris e perdera apenas dois (para o sueco Robin Soderling, em 2009, e para o próprio Djokovic, em 2015). Em 16 participações, fora campeão em 13 (abandonou o torneio, contundido, antes de fazer o jogo pela terceira rodada, em 2016). Não à toa, virou estátua, inaugurada este ano, no lindo complexo de quadras no "Bois de Boulogne".

Por isso, o confronto entre o número 1 do ranking e o rei do saibro, na sexta-feira passada, dessa vez na semifinal do torneio, atraía todas as atenções. E o jogo (que jogo!), não decepcionou. Veja o que escreveram, no Twitter, alguns dos maiores nomes das quadras, durante e depois da partida, que se estendeu por mais de quatro horas, com dezenas de pontos de tirar o fôlego.

"É impossível jogar um tênis melhor, no saibro. É a perfeição" - escreveu Andy Murray.

"Até agora é um dos melhores jogos de tênis que eu já vi" - Andy Roddick.

"Em respeito ao que vi nas últimas quatro horas, @DjokerNole @Rafael Nadal para sempre campeões" - Maria Sharapova.

"O maior jogo já disputado" - Cris Evert.

"Nós, tenistas, praticamos o mesmo esporte que esses dois?" - Diego Schwartzman.

"O nível é insano" - Victoria Azarenka.

"Fenomenal performance de @DjokerNole. Mostrando porque é o número 1. Que jogo entre dois dos maiores do esporte!" - Greg Rusedski.

"Preciso de um banho depois de ver esse jogo" - Heather Watson.

"Um dos maiores jogos que já vi. Parabéns Novak e Rafa. Tênis brilhante" - Darren Cahill

"Dois gladiadores numa partida épica para a história" - Tracy Austin.

"Tremenda partida. Não dá pra acreditar no que jogaram. Obrigado @DjokerNole e @RafaelNadal. Sonho voltar a enfrentá-los" - Juan Martin del Potro.

Sim, foi, sem dúvida, uma das mais espetaculares partidas de tênis de todos os tempos. E Djokovic se classificou para a final (3/6, 6/3, 7/6 e 6/2), "escalando o Everest". A partida foi tão excepcional que a prefeitura de Paris resolveu abrir uma exceção em seu toque de recolher, permitindo que a torcida, em Roland Garros, assistisse ao jogo até o fim.

Às 22h40mins, após o fim do terceiro set (considerado pelos especialistas, o melhor set já disputado no saibro em todos os tempos), seria preciso esvaziar o complexo (que tinha apenas 65% de sua lotação permitida, por causa da pandemia). Os fãs já começavam a protestar quando o locutor oficial anunciou o acordo com as autoridades para que o público pudesse permanecer, "dado o caráter absolutamente excepcional das circunstâncias". As vaias foram, então, transformadas em aplausos delirantes. E o magnífico duelo pode ser concluído com plateia.

- Foi, com certeza, meu melhor jogo aqui em Roland Garros e um dos três melhores de minha carreira, justamente, contra o meu maior rival, na sua quadra predileta - reconheceu exausto e radiante Nole.

Por si só, já seria grandioso. Mas faltava ainda a última partida. Aquela que valia o título. Contra um jovem talentosíssimo, o grego Stefanos Tsitsipas, de apenas 22 anos, em sua primeira final de torneio de Grand Slam. Um baita desafiante que chegava especialmente credenciado por ser o tenista com o maior número de vitórias na temporada.

Quando subiu a bolinha, o primeiro set foi parelho e Djokovic teve chances para ganha-lo. Mas, sacando em 6/5 foi quebrado. E veio o tie-break. Stefano liderou, mas Novak reagiu e chegou a ter um set-point. O grego salvou-o e, jogando um tênis brilhante, levou a primeira parcial.

Má notícia para o sérvio, doze anos mais velho, vindo de uma maratona de mais de quatro horas contra Rafael Nadal. E seu desgaste físico parecia cada vez mais evidente quando, no segundo set, Tsitsipas passeou na Philippe-Chatrier, vencendo por 6/2. Faltava apenas mais um para a conquista inédita para o tênis da Grécia. E ela parecia muito bem encaminhada.

À essa altura, muita gente já se perguntava se Novak Djokovic seria mais uma vítima da maldição que parecia cair sobre aqueles que derrotam Rafael Nadal em seu terreno sagrado. Soderling o fez e caiu para Roger Federer, na final de 2009. E o próprio Nole sentiu na pele o efeito da praga ao ser derrotado por Stan Wawrinka em 2015. Estaria de pé o feitiço do Miúra?

Foi aí que renasceu o grande campeão. De onde tirou forças, ao voltar do vestiário, perdendo por 2 sets a 0 não se sabe bem. Talvez da dose de energia extra que só os fora de série possuem. Fato é que Nole retornou jogando com aquela consistência impressionante, capaz de levar à loucura quem está do outro lado da quadra. Praticamente não errou mais e, assim, venceu os dois sets seguintes. Tudo igual na Chatrier.

Na quinta e decisiva parcial, sofrendo quando sacava, Tsitsipas teve o serviço quebrado, no terceiro game, e a partir daí ninguém mais duvidava de que o décimo-nono titulo de Grand Slam de Djokovic estava a caminho. O feito hercúleo se consumou após novo confronto de mais de quatro horas (6/7, 2/6, 6/3, 6/2 e 6/4). Conquista que deixa o sérvio agora a apenas um título do recorde dividido por Roger Federer e Rafael Nadal, que tem 20 títulos de torneios de Grand Slam.

Outras marcas, porém, já foram estabelecidas. O sérvio é o primeiro tenista na era aberta a conquistar pelo menos duas vezes todos os torneios de Grand Slam (Roy Emerson e Rod Laver, contando títulos da era amadora, são os outros dois a conseguir o mesmo). Um feito similar ao recorde que Nole também estabeleceu nos Masters 1.000, onde nenhum outro ganhou todas as etapas e ele venceu pelo menos duas vezes cada uma elas.

Ao triunfar em sequência no Australian Open e em Roland Garros (como em 2016, quando unificou os quatro títulos de Grand Slam, mas em duas temporadas), Novak Djokovic se candidata a uma nova marca gigantesca que só Rod Laver atingiu na era aberta.

Se ganhar Wimbledon (onde já foi campeão cinco vezes) e o US Open (do qual já tem três títulos), fechará, num mesmo ano, o Grand Slam puro-sangue. E poderá até chegar ao chamado Golden Slam (algo que só a alemã Steffi Graf tem), caso conquiste o ouro olímpico.

Difícil? Muito. Mas é bom não duvidar desse tenista que acaba de escalar o Everest e, mesmo exaurido pela empreitada homérica, foi capaz de, lá em cima, roubar do deus grego, Tsitsipas, muito mais jovem, o pote de ouro atrás do arco-íris.

Em tempo: se ganhar Wimbledon e o US Open na atual temporada, Djokovic fechará o ano com um título de Grand Slam a mais que Federer e Nadal. E aí até aqueles que não gostam dele (e são muitos) terão sérias dificuldades para lhe negar o galardão de melhor tenista de todos os tempos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado