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Renato Maurício Prado

Nota oficial do São Paulo não merece aplauso. É uma jogada política

Anulação do gol do São Paulo causou polêmica no empate diante do Ceará - Kely Pereira/AGIF
Anulação do gol do São Paulo causou polêmica no empate diante do Ceará Imagem: Kely Pereira/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

27/11/2020 23h45

A maior parte da imprensa esportiva recebeu com aplausos, festejos e parabéns a nota oficial do São Paulo, dando conta de que a diretoria tricolor decidiu não recorrer à justiça desportiva, para tentar anular o seu jogo contra o Ceará, baseada no erro de direito ocorrido em uma baita lambança da arbitragem e do VAR, no Castelão. Pois, vou remar contra essa maré!

Primeiro porque acho que os cartolas tricolores não fizeram mais que a obrigação. Seria uma vergonha, um pontapé na ética, um chute na bunda do espírito esportivo, tentar tornar nula uma partida porque o VAR provocou uma confusão até anular o gol que deveria, sim, ter sido invalidado por impedimento indiscutível de Pablo.

Segundo porque, no meu modo de ver, tal postura a favor do resultado ocorrido no campo deveria ter sido assumida imediatamente após o jogo e não 24 horas depois, quando se deu conta de que dificilmente conseguiria seu intento - já há jurisprudência em situação idêntica, num jogo do campeonato de 2019, no qual o Palmeiras derrotou o Botafogo por 1 a 0.

Terceiro porque, com certeza, ao pensar bem no que estava prestes a fazer avaliou que era melhor garantir o pontinho do empate, pois haveria, sim, em um novo confronto, a chance de uma derrota para o Ceará - algo que esteve bem perto de acontecer num dos últimos lances do jogo. Além de que, repetir a partida, aumentaria ainda mais os seus problemas de calendário, já bastante apertado, por causa dos três jogos que tinha adiado (esse era um deles).

Em suma: num país tão escalafobético como o nosso, onde o Presidente da República diz que não disse o que disse, e está gravado em pelo menos dois de seus vídeos oficiais, fazer o certo passou a ser tão raro que por vezes, sim, merece elogios.

Mas não nesse caso do São Paulo, que teve o ímpeto de buscar o tapetão e só desistiu quando percebeu que poderia ser um tiro no pé, tantas seriam as desvantagens, sem ter a certeza de uma vantagem final. Melhor posar de bom moço e sair da história com um suposto "saldo positivo" com a CBF, por não ameaçar ainda mais um calendário totalmente esculhambado. Não se iludam, não foi apenas uma decisão esportiva, mas uma jogada política.

Por fim, uma constatação: boa parte da imprensa tem com o tricolor paulista uma relação esquizofrênica. Há cerca de dois meses, a administração Leco era um desastre completo (e, de fato, o é); Raí, um executivo de futebol inexperiente e inseguro e Fernando Diniz um técnico que já deveria ter sido demitido, depois das vergonhosas eliminações no Paulistinha (diante do Mirassol), da Libertadores (com direito à derrota para o fraquíssimo Binacional) e da Sul-Americana (para o Lanús).

Um punhado de bons resultados e, acima de tudo, três vitórias sobre o Flamengo, campeão brasileiro e da Libertadores, tornaram Diniz um dos melhores treinadores do Brasil (sem ter ganhado um título sequer) e Raí (ainda mais após a nota oficial) um executivo exemplar. Só falta mesmo reabilitarem a administração Leco, como um todo...

Em tempo: em meio a todo esse oba-oba, o São Paulo empatou os seus dois últimos jogos, contra adversários, teoricamente, bem mais fracos: o Vasco (no Morumbi) e o Ceará (no Castelão). Mais dois tropeços e, que ninguém se iluda, a Geni voltará a reinar no Morumbi...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado