PUBLICIDADE
Topo

Renato Maurício Prado

Messi e CR7 não passam de súditos do Rei do Futebol. Parabéns, Pelé!

O mito Pelé, que nem sempre ficou perto de uma bola - Getty Images
O mito Pelé, que nem sempre ficou perto de uma bola Imagem: Getty Images
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

24/10/2020 15h56

Naquela casa o futebol era sempre o principal assunto à mesa. Os almoços de domingo, então, tornavam-se autênticas mesas redondas, com as polêmicas gerando inflamadas discussões. O avô, o pai e o neto compartilhavam a mesma paixão clubística, mas isso não os impedia de discordar veementemente em vários assuntos.

- Sério, vô? Como você pode achar a conquista da Libertadores de 81 superior à de 2019? O time do Zico pegou Olímpia, Jorge Wilsterman, Cobreloa... Já o do Gabigol encarou Inter, Grêmio e River Plate! Nem dá pra comparar - provocava o menino.

- Você não sabe o que diz ? replicava o senhor. O Atlético Mineiro, naquele tempo, tinha Reinaldo, Éder, Toninho Cerezo, Palhinha, Luisinho etc. Era muito melhor que todos esses times de agora. Uma máquina de jogar futebol arte! Aquela foi a verdadeira final antecipada.

O pai, que sempre atuava como mediador entre o mais velho e o mais jovem, balançava a cabeça, sorrindo, com cumplicidade para a mãe e a avó. Eis que na TV um noticiário começa a homenagear Pelé, pelo aniversário de 80 anos, e, ato contínuo, o pai e o avô se apressaram em encerrar o disse me disse:

- Silêncio, agora. Hora de reverenciar o maior de todos os tempos - pediu o patriarca, quase em tom de oração.

- Lionel Messi? - disparou o moleque.

Pronto! Estava lançada a cizânia!

- Não blasfeme, meu neto! Eu vi o negão jogar. Perto dele, Messi é apenas bonzinho.

- Aí também exagerou, né pai? - interveio o filho.

Verdade seja dita, nas novas gerações, principalmente fora do Brasil, não são poucos os que já pensam como o guri. Até porque não viram Pelé em ação, a não ser em tapes e filmes bem antigos.

- Meu neto, quantas Copas do Mundo o Messi ganhou? Quer saber, pra mim, ele está atrás até do Maradona - alfinetou o avô.

- E quantas vezes Pelé foi eleito o melhor do mundo? Diz aí! - rebateu o mais novo.

- Se ele entrasse nessa disputa, na época dele, teria ganhado umas dez dessas bolas de ouro - garantiu o mais velho.

Uma vez mais, investido na função de árbitro, o pai lembrou que, em 2014, a France Football revisou toda a lista de Melhores do Mundo, usando as regras atuais e decidiu conceder a Pelé sete troféus da Bola de Ouro.

- Com isso, ele se tornou o maior vencedor da premiação. Na revisão, Pelé ganhou em 1958, 1959, 1960, 1961, 1963, 1965 e 1970. As Bolas de Ouro lhe foram entregues durante cerimônia no início de 2014. Messi, ao menos por enquanto, só tem seis - esclareceu.

- Armação dos velhinhos da Fifa... ? resmungou o garoto, sem se importar com o fato de que o prêmio da France Football nada tem a ver com a Fifa.

- A carreira do Messi já está chegando ao fim (tem 33 anos) e ele está longe dos mil gols. Quanto mais dos mil e duzentos do Rei do futebol - argumentou o senhor.

- Isso porque Pelé conta até gol dos tempos em que servia o Exército! Em gols em jogos oficiais Messi já está bem perto. Faltam apenas 58 - devolveu o neto.

Para encerrar a discussão, após a sobremesa, o avô foi até o seu quarto e, na volta, colocou na TV da sala o DVD do filme "Pelé Eterno", filme de Aníbal Massaini Neto. Também fãs de futebol, até a avó e a mãe sentaram-se no sofá para assisti-lo mais uma vez.

- Olha isso! Cada golaço! E esses dribles e essas tabelinhas? Meu Deus... As expressões de admiração e encanto iam se sucedendo, enquanto o menino assistia a tudo, emburrado, mas de olhos arregalados.

- Veja só o que ele fez numa Copa do Mundo, com 17 anos!

- Olha essa arrancada e esse gol contra o México, na Copa de 62! Não fica nada a dever ao segundo gol do Maradona, contra a Inglaterra, e a um outro, do próprio Messi, jogando pelo Barcelona. Só não foi tão badalado porque naquela época não havia transmissão de TV ao vivo e o filme, com a jogada inteira, só pode ser visto muitos anos depois.

- E suas atuações na Copa de 70? Meu Deus!

O filme ia chegando ao fim e o fedelho começou a prestar mais atenção na tela de seu celular do que nas diabruras de Pelé, na TV. Mas, ainda assim, mantinha sempre um olho na tela, como se tentasse descobrir defeitos que justificassem sua preferência por Lionel, seu ídolo maior. Quando o DVD acabou, o pai bancou Salomão e decidiu:

- Messi é o maior de todos na era moderna do futebol. Mas Pelé é incomparável. Inigualável! Unia as melhores qualidades do argentino com as do português Cristiano Ronaldo, os dois maiores craques na atualidade. É isso que o filme deixa bem claro.

- E quem garante que boa parte desse filme não é montagem? - apelou o pirralho, só pra provocar, antes de sair da sala, encerrando o assunto.

É preciso ser muito espírito de porco pra duvidar. Se você também é jovem e acha que Lionel Messi é o melhor de todos os tempos, assista a ?Pelé Eterno?. Duvido que não mude de opinião.

Parabéns e obrigado

Como dizia o mestre Armando Nogueira, meninos, eu vi. Graças a Deus (e ao fato de já ter uma certa idade), muitas vezes ao vivo. Principalmente no Maracanã. Ainda está pra nascer (se é que nascerá um dia) alguém para jogar divinamente como o senhor Edson Arantes do Nascimento.

Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Zidane, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Zico, Falcão e tantos outros foras de série são apenas súditos. Do primeiro e único Rei do Futebol.

Obrigado, Pelé e parabéns por seus 80 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Renato Maurício Prado