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Renato Maurício Prado


Renato Mauricio Prado: Ao Mister, com carinho

Thiago Ribeiro/AGIF
Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

18/11/2019 04h00

Em meio à ridícula tentativa de vários treinadores daqui minimizarem, por inveja e despeito, os méritos evidentes de Jorge Jesus, no Flamengo, tive um sonho bom. Nele, todos os técnicos campeões brasileiros pelo rubro-negro vinham me visitar e, encantados, falavam das virtudes que enxergavam nessa equipe treinada pelo português, reconhecendo e elogiando o seu trabalho excepcional.

O mais eloquente era o saudoso Cláudio Coutinho, um revolucionário, como Jesus, responsável pelo primeiro título brasileiro, em 1980, e autêntico artesão da máquina de Zico e Cia., que conquistaria o continente e o mundo, no ano seguinte, já sob a batuta de Paulo César Carpegiani:

"Jesus diz que não lê livros sobre futebol, mas confessou ser fã da literatura sobre basquete. Eu também tirei muita coisa do que lancei da turma da bola ao cesto. De onde você acha que saiu o 'overlapping' (a ultrapassagem dos laterais)? E o ponto futuro (lançamento no vazio, no local onde o atacante chegará)? E a intensa rotatividade no meio-campo e no ataque? Isso tudo se vê há anos na NBA. Também bebi nessa fonte, mas é inegável que Jesus aprimorou esses e outros conceitos, sabendo adaptá-los aos gramados e chegando a um incrível nível de excelência".

Acompanhei, como repórter, do primeiro ao último dia do capitão Coutinho no Flamengo, e sei como ele era exigente e sincero. Características semelhantes também tinha Carpegiani, seu sucessor. E foi ele quem, no meu devaneio, pediu a palavra, em seguida:

"O que mais me encanta no time atual é a capacidade de fazer a bola circular do meio-campo ao ataque, sem um grande maestro, como era o Zico. O Arrascaeta é ótimo, mas não é um meia-esquerda, nem um fora de série, como o Galo. Atua mais pelo lado. Mesmo assim, Jesus consegue uma eficiência impressionante no toque de bola e nas mudanças de velocidade no ataque, como nas penetrações do Bruno Henrique ou do Gabigol. Ressalto: o time atual é ótimo, mas tem menos talentos individuais do que eu tinha. E já não falo nem só do Zico, mas de laterais como Leandro e Júnior. Como não reconhecer, então, a qualidade do trabalho do português?".

Seguindo a ordem cronológica das conquistas rubro-negras, chegou a vez de Carlos Alberto Torres, o inesquecível capitão do tri, campeão brasileiro no Fla, em 1983. Com seu jeito de malando carioca e o bom humor de sempre (como não recordar o famoso "Bigu e mais 10"?), mandou na lata:

"A verdade é que o Mister chegou chacoalhando não somente o Flamengo, mas todo o futebol brasileiro. E isso incomoda. Nunca um time venceu o campeonato com tanta facilidade. Desde que o portuga assumiu, não teve pra ninguém. Passou o carro em cima de todos os adversários mais fortes. E sabe o que mais aplaudo? Assim como Zagallo, em 70, ele botou os melhores pra jogar. Antes dele, ninguém acreditava que Gerson, Arrascaeta, Bruno Henrique, Gabigol e Éverton Ribeiro poderiam atuar juntos. Quem vai marcar? Pois a questão se inverteu. Quem consegue marcar um time com tantos talentos juntos?".

Depois de Carlos Alberto, surgiu no meu sonho uma figura simpaticíssima: Carlinhos, o Violino, um cracaço como jogador e um treinador que, por seu jeito humilde e sua voz fina, nunca teve o valor devidamente reconhecido na Gávea. Mas sabia de tudo e foi campeão em 87 e 92.

"Não entendo essa má vontade com os técnicos estrangeiros. Aprendi muito, no Flamengo, com alguns deles: Armando Renganeschi (argentino), Modesto Bria (paraguaio) e Fleitas Solich (também paraguaio) me ensinaram muitas coisas. Jorge Jesus é excelente e merece aplausos. O time atual me lembra muito o que dirigi em 87, que também tinha jogadores excepcionais do goleiro ao ponta-esquerda. Mas nem sempre isso é o bastante, se o comandante não souber explorar suas melhores qualidades individuais em prol do coletivo. É isso que Jesus está fazendo".

O último a se manifestar foi Andrade, campeão improvável em 2009, a última conquista, há exatos dez anos. Com seu jeito simples, o Tromba não se fez de rogado:

"O cara é fera! Dá gosto ver as atuações do time dele. Até quem não é flamenguista, mas gosta do futebol bem jogado, bate palmas. A ideia dele colocar o Gerson como volante foi sensacional. O cara está jogando o fino. Me lembra muito a mim mesmo, nos bons tempos".

Conhecendo muito bem, como conheci a todos eles, em meus tempos de repórter, tomei a liberdade de lançar uma pergunta de sopetão:

"Vocês acham que Jesus conquistará também a Libertadores, alcançando um feito que nenhum de vocês conseguiu, numa mesma temporada?".

Carpegiani saltou nas tamancas e lembrou que ele venceu, sim, o Brasileiro e a Libertadores, em sequência (no final de 81 e início de 82) e elevou o nível do sarrafo para o português:

"Ganhei Libertadores, Mundial e Brasileiro, um atrás do outro. É isso que espero do Mister", brincou, piscando o olho.

Todos concordaram, porém, que o Mundial, agora, será bem mais difícil. Mas sobre a Libertadores, o otimismo é grande.

"O destino desse time é ser campeão!", encerrou Cláudio Coutinho, repetindo uma frase que me disse, no aeroporto do Galeão, ao chegar de Los Angeles, onde treinava os Aztecas, poucos dias antes de sua morte.

Acordei sorrindo. Ao menos nos meus sonhos, os verdadeiros campeões reconhecem o mérito de seus pares e sabem elogiá-los. Por que parece ser tão difícil fazer o mesmo na vida real? Com a palavra, Vanderlei Luxemburgo, Renato Gaúcho, Joel Santana, Odair Hellmann, Muricy Ramalho, Mano Menezes, Alberto Valentim e quejandos...

Renato Maurício Prado