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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Perrone: Legado de Jô no futebol explica Copa de 1954 e Telê criticado

Zé da Galera, um dos personagens de Jô Soares - Reprodução
Zé da Galera, um dos personagens de Jô Soares Imagem: Reprodução
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Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

05/08/2022 10h58

A morte de Jô Soares na madrugada desta sexta (5) deixa um buraco na cultura do país. Lá se vai um cara raro, que com seu humor inteligente, quase extinto atualmente, e sua bagagem cultural foi marcante em todas as áreas.
No futebol sua contribuição foi relevante. Sem rodeios, se você não leu o livro "A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar", leia.
A obra, escrita em parceria com os também geniais Armando Nogueira e Roberto Muylaert, nos ajuda a entender melhor o Mundial de 1954, marcado pela icônica seleção da Hungria do craque Puskás.
Logo nas primeiras páginas, o livro me fez atentar para o fato de que uma Copa emblemática para o futebol mundial, principalmente por causa dos húngaros, era tratada como um evento "sanduíche" por aqui. Ficou espremida entre o fracasso de 1950 e a redenção de 1958.
É uma delícia ver as impressões do jovem Jô sobre aquele Mundial, que para a seleção brasileira terminou com derrota por 4 a 2 justamente para a Hungria na "Batalha de Berna".
O trabalho de Jô, torcedor do Fluminense, também não nos deixa esquecer que Telê Santana, hoje tratado como quase unanimidade, foi criticado como técnico da seleção brasileira.
Seu personagem humorístico no programa "Viva o Gordo", o Zé da Galera, em fictícias ligações via orelhão, representava a torcida cobrando o responsável por comandar o Brasil na Copa de 1982: "bota ponta, Telê".
Pura análise tática com humor e sem o pesado "tatiquês" de hoje em dia.
Só uma figura como Jô poderia expressar com um personagem humorístico o sofrimento da torcida corintiana no maior jejum de títulos da história do clube e a loucura que tomou conta da Fiel com a conquista do Campeonato Paulista de 1977. O Timão tinha vencido o Estadual pela última vez em 1954.
Em 2013, ele contou no programa "Bem amigos" que foi homenageado pela Gaviões da Fiel por conta desse trabalho.
Jô era assim, fazia a gente rir e refletir, além de nos representar, ao mesmo tempo. Habilidade de craque que a partir de hoje desfalca duramente um país cada vez mais carente de capacidade de análise, humor refinado e incentivo à cultura.