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Mauro Cezar Pereira

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Fatos derrubam versão de Jesus, que rejeitou possibilidade de volta ao Fla

Jorge Jesus, ex-técnico do Flamengo - Valter Gouveia/Getty
Jorge Jesus, ex-técnico do Flamengo Imagem: Valter Gouveia/Getty
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Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

05/05/2022 15h29

Afinal, o Flamengo tentou trazer Jorge Jesus de volta no final do ano passado? Ou já estava acertado com Paulo Sousa quando os dirigentes conversaram com o técnico campeão brasileiro e da Libertadores em 2019? Perguntado por Renato Maurício Prado se os dirigentes chegaram a convidá-lo para voltar, quando estiverem em sua casa, em Portugal, no final do ano passado, JJ respondeu:

"Não. A conversa foi superficial e em momento algum me fizeram um convite ou, ao menos, me perguntaram se eu queria voltar. E aquele era um momento difícil, pois se eu pedisse demissão do Benfica, teria que pagar uma multa de 10 milhões de euros. Por isso, tinha sugerido que só viajassem para Portugal em final de janeiro, quando a situação seria mais fácil para negociar. Mas quiseram ir em dezembro e a sensação que tenho é que, quando me visitaram, já tinham tomado a decisão de contratar o Paulo Sousa. Foram apenas cumprir uma obrigação social comigo".

Deixemos de lado as sensações. O que dizem os fatos? Vamos a eles, cronologicamente.

Em 22 de dezembro, o auxiliar João de Deus deu entrevista coletiva na véspera do jogo com o Porto, pelas oitavas de final da Taça de Portugal, já que Jorge Jesus estava suspenso. Nela, foi categórico:

"Em relação às notícias, tenho falado muito com o Mister, e especificamente hoje mais ainda. Ontem (terça) houve um encontro (dele) com os amigos do Flamengo, e devidamente autorizado pelo Benfica, e com o conhecimento de Rui Costa (presidente benfiquista). O Mister disse que não pode e nem quer neste momento abandonar o Benfica. Há um contrato para cumprir, quer cumprir e quer ganhar títulos no Benfica. Foi isso que nos fez vir para Portugal novamente".

Ora, se Jorge Jesus disse que não poderia abandonar o Benfica ante o que foi noticiado à época, que diferença faria os rubro-negros demonstrarem, ou não, interesse em sua volta? Por que ele agora fala a respeito como se pudesse acertar um retorno que era rejeitado publicamente. Há uma contradição aí.

O cenário fica mais claro se lembramos que no mesmo dia 22, às 14h29, sob o título "Informações falsas na CNN Portugal", o Benfica emitiu uma nota parecia escrita em conjunto com o treinador, pois faz referência direta a ele como quem comungava da posição do clube lisboeta:

"O Sport Lisboa e Benfica e o seu treinador Jorge Jesus refutam cabalmente a existência de qualquer acordo com o Flamengo para a libertação da sua equipa técnica mediante entendimento entre os clubes.

Jorge Jesus tem contrato com o Sport Lisboa e Benfica e está focado nos objetivos desportivos do Clube, sendo manifestamente falso e descabido que tenha demonstrado qualquer vontade de regressar ao Brasil nesta altura.

O Sport Lisboa e Benfica lamenta que, na véspera de uma partida decisiva para a sua continuidade na Taça de Portugal, um órgão de informação com a chancela CNN se predisponha a disseminar informações falsas e já desmentidas em direto pelo próprio representante do Flamengo.

Jorge Jesus, ao contrário do que foi divulgado pela CNN Portugal, não deseja voltar ao Brasil, mas sim voltar a ser campeão pelo Sport Lisboa e Benfica".

Em suma, Benfica e Jorge Jesus refutaram pública e oficialmente qualquer possibilidade de o treinador deixar o clube português naquele momento. Conclusão óbvia: com ou sem proposta do Flamengo ele prosseguiria na agremiação encarnada.

No dia 23, os benfiquistas foram ao Estádio do Dragão, onde o Porto lhes impôs 3 a 0. Jogo assistido, in loco, pelos dirigentes do Flamengo, o que incomodou benfiquistas. Já se sabia que JJ era carta fora do baralho diante das declarações de João de Deus e, principalmente, após a nota oficial.

Sem Jesus, os rubro-negros partiram para o "plano B", e o acordo com Paulo Sousa foi fechado na noite de 25 de dezembro, em Portugal. O clube queria um técnico para a reapresentação dos atletas, em 6 de janeiro, o que obviamente inviabilizava a ideia defendida por Jesus na entrevista, na qual sugeriu que os dirigentes só o procurassem em janeiro. Detalhe, caso o time não fosse eliminado pelo Porto na Taça de Portugal, ele provavelmente ganharia sobrevida, e se conseguisse mais alguns resultados, manteria viva a chance de comandar o Benfica na Liga dos Campeões. O duelo de ida com o Ajax seria apenas em 15 de março. Como o Flamengo poderia correr o risco de esperar tanto tempo?

Em 26 de dezembro às 14h42, este blog informou em primeira mão a contratação do novo técnico: "Diante da indefinição de Jorge Jesus e as dúvidas sobre seu desligamento, ou não, do Benfica, no final do ano, o Flamengo tomou uma decisão: acertou com Paulo Sousa para treinar o time em 2022"

No dia 28, o Benfica demitiu Jorge Jesus. Foi menos de uma semana após publicar nota na qual registrava enfaticamente que o técnico seguiria seu trabalho.

Em 29 de dezembro, o Flamengo anunciava oficialmente ter contratado Paulo Sousa. No dia seguinte, desta vez pelo campeonato português, nova derrota do Benfica para o Porto no Dragão, desta vez por 3 a 1. A essa altura Jorge Jesus estava fora, com os "dois passarinhos voando", nenhum em suas mãos.

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