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Antero Greco


O Palmeiras deve recomeçar do... cinco

Bruno Henrique comemora gol do Palmeiras sobre o Corinthians pelo Brasileiro  - ANDRÉ ANSELMO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Bruno Henrique comemora gol do Palmeiras sobre o Corinthians pelo Brasileiro Imagem: ANDRÉ ANSELMO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

29/11/2019 04h00

Caro e paciente amigo que me honra com a leitura destas linhas semanais, por acaso estranhou o título da crônica? Provavelmente, né. Pois então, antes de entrar no assunto do bate-papo, me permita uma digressão cinematográfica.

No começo dos anos 80 do século passado, o então jovem ator Massimo Troisi fez um filme chamado "Ricomincio da tre" ("Recomeço do três"). Era a história de um moço que deixava Nápoles e ia para Florença para refazer a vida, que andava sem graça.

Ao revelar os planos para um amigo, este alertou: "Mas o certo é falar que vai recomeçar do zero!". Troisi devolveu: "Não concordo. Teve três coisas boas até agora na minha vida. Portanto, quero recomeçar do três, para não desperdiçar tudo." Fazia sentido.

O filme, divertido, nunca foi exibido no Brasil. Mesmo assim, Troisi ficou famoso por aqui com o personagem do carteiro no filme "O carteiro e o poeta". Lindo. Morreu dias depois de encerradas as filmagens, em 1994. Tinha 41 anos e problemas cardíacos.

O raciocínio se aplica ao Palmeiras. O campeão nacional do ano passado despontou como candidato a tudo, em 2019, e só acumulou decepções - da queda na semifinal no Paulista (em casa, nos pênaltis, diante do São Paulo) ao melancólico encerramento na participação no Brasileiro atual. De quebra, frustrou expectativas também na Copa do Brasil e na Libertadores.

Os tropeços verdes levam à inevitável conclusão de que o elenco precisa de reforma ampla, geral e irrestrita, se quiser concorrer com o Flamengo nos principais desafios de 2020. Se não der uma chacoalhada daquelas, não fará sequer cócegas no novo bicho-papão do futebol doméstico (e sul-americano e, quiçá, logo mais mundial).

Amigos, vamos falar sem rodeios: o Palmeiras deu é raiva em 2019! Até iludiu o torcedor com a largada fulminante na Série A. Parecia que o bi estaria no papo. Depois da Copa América, só desceu a ladeira, em tudo quanto foi torneio. Um horror.

Daí a necessidade de uma tremenda peneirada. Fosse dirigente, eu bagunçava o coreto e faria as modificações começarem na cartolagem, antes de mais nada. Depois na Comissão Técnica e, por fim, no grupo de jogadores. Tem muito fruto que já está no bagaço. Vários têm belos serviços prestados ao clube; outros nem disseram ao que vieram.

Não seria uma devastação na trupe; porém, ficaria perto. Por isso, o título "recomeço do cinco". Há um quinteto que merece crédito: Weverton, Gomez, Victor Hugo, Felipe Melo e o indefectível Dudu (na verdade, o único intocável.) Vá lá, para não falar que estou com má vontade, um voto de confiança (com restrições) para Bruno Henrique, Scarpa e Willian.

No mais, seria rigorosíssimo nas avaliações e generoso em liberar, se aparecessem ofertas.

Uma pincelada rápida na turma atual - e aqui não vai juízo de valor sobre profissionalismo, caráter, pois parto do princípio de que todos são pessoas honradas. Também não se despreza a contribuição de muitos em sucessos recentes.

No gol, hora de um dos veteranos (Jaílson e Prass) abrir espaço. Buscaria dois laterais para chegarem e ficarem (como Rafinha e Filipe Luís no Fla) e abriria mão de outros tantos (a escolher entre Mayke, Marcos Rocha, Diogo Barbosa e Victor Luís). No miolo da zaga, seguraria Luan, daria uma placa para Dracena e abdicaria de Antonio Carlos, se houvesse vantagem.

No meio-campo, além de BH e Scarpa, citados com "crédito de confiança", manteria Thiago Santos (se não aparecer outro melhor), Mateus Fernandes (pela juventude, mas sob observação) e Zé Rafael. Os demais tentaria recolocá-los no mercado (Jean, Hyoran, Ramires, Lucas Lima, Raphael Veiga).
Na frente, um abraço e muito obrigado para Henrique Dourado, Deyverson, Borja, Carlos Eduardo. Ficaria com Luiz Adriano (se não se machucar muito), Willian e Angulo (por causa da idade). E Dudu, claro.

Isto posto, daria espaço para pratas da casa e, em seguida, iria ao mercado. Não para torrar dinheiro, mas para empregá-lo em investimentos pontuais, precisos, "tiros certos".

Inadmissível repetir erros como os deste ano, em que a maioria das contratações deu em nada (Felipe Pires, Artur, Ramirez, Dourado, Ricardo Goulart, Carlos Eduardo). Só valeram a pena Victor Hugo (o retorno), Luiz Adriano e Zé Rafael (embora sem empolgar).

Temor tenho um, e forte: o de que o Palmeiras subiu no salto, com Copas do Brasil e Brasileiros ganhos nos últimos anos, e tenha perdido a mão para montar elencos competitivos e para voos mais altos e duradouros.

A conferir.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informado anteriormente, o jogador do Palmeiras se chama Felipe Pires e não Filipe Luis. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Antero Greco