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Brasileiros se oferecem por River x Boca, mas nem sequer consultam polícia

Confusão na chegada dos torcedores do River Plate à final da Libertadores - AP Photo/Natacha Pisarenko
Confusão na chegada dos torcedores do River Plate à final da Libertadores Imagem: AP Photo/Natacha Pisarenko

Jeremias Wernek, Marinho Saldanha e Thiago Fernandes

Do UOL, em Porto Alegre e Belo Horizonte

28/11/2018 04h00

Tão logo a Conmebol sinalizou que a final entre River Plate e Boca Juniors marcada para o último sábado (24) e adiada para domingo (25) - agora prevista para o fim de semana de 8 e 9 de dezembro - vivia um impasse por local e data, diversos dirigentes do futebol brasileiro se manifestaram sinalizando que topavam receber o clássico que decidirá o campeão da Copa Libertadores 2018. No entanto, nenhum deles fez consulta aos órgãos de segurança locais, mesmo que o tema seja prioridade para a federação sul-americana.

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Representantes da Minas Arena enviaram carta disponibilizando o Mineirão. A Arena Condá também se mostrou disponível. O presidente da Federação Gaúcha, Francisco Noveletto, disse ter enviado mensagens ao presidente da confederação sul-americana, Alejandro  Domínguez. E diretores da Arena Pernambuco confirmaram um contato com a CBF para saber da hipótese de ter o aguardado jogo. No final da noite de terça-feira (28), São Paulo também fez sua parte. Em nota endereçada a Walter Feldman, secretário geral da Confederação Brasileira de Futebol, o secretário de Esportes e Lazer da capital paulista, João Farias, colocou o município à disposição. A prática, no entanto, passou longe do discurso.

Enquanto muito se falou, poucas atitudes foram tomadas. Especialmente no que se refere aos cuidados com a segurança, causa de todo o problema que impediu a realização da partida em Buenos Aires. Simplesmente nenhum órgão de segurança foi procurado por representantes de estádios ou federações. Nenhum batalhão especializado de policiamento em estádios foi consultado sobre a possibilidade de receber um jogo do porte de River x Boca em seus domínios.

Na Argentina, por exemplo, após os incidentes do fim de semana, as autoridades locais admitiram que não teria como garantir a tranquilidade em um novo jogo. Então, como foi tratado pelos brasileiros o assunto que se tornou prioridade para a Conmebol? O UOL Esporte mostra a abordagem de cada local:

Mineirão

Mineirão - Luciano Filgueiras/Divulgação - Luciano Filgueiras/Divulgação
Imagem: Luciano Filgueiras/Divulgação

O Mineirão foi o primeiro a propor a realização da partida. Em um ofício enviado à Conmebol na noite de segunda (26), a gestora do estádio se solidarizou com os ocorridos do último sábado e apresentou a ideia de sediar o jogo entre River Plate e Boca Juniors sem custos de aluguel. Desta forma, a confederação sul-americana pagaria somente o valor das despesas do local.

A proposta parecia a condição perfeita para atrair o jogo ao Gigante da Pampulha. Contudo, a administração do estádio não fez consulta à Polícia Militar de Minas Gerais sobre a realização do evento.

A PMMG não faria oposição à realização do evento e aguardaria o aval da Conmebol para arquitetar o esquema de segurança para o dia do duelo. Apesar da disposição, o alto escalão do órgão só soube da oferta do Mineirão à entidade que rege o futebol na América do Sul após a divulgação feita na imprensa.

Para partidas realizadas no Mineirão, a gestora do local contrata uma empresa de segurança terceirizada. Eles têm a incumbência de manter a ordem dos eventos ocorridos no campo. A mesma também não foi consultada.

Arena Condá e Beira-Rio

Arena Condá recebe um bom público para duelo Chapecoense x Atletico Nacional - JARDEL DA COSTA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - JARDEL DA COSTA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Arena Condá também quer receber final da Libertadores
Imagem: JARDEL DA COSTA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Nesta terça-feira, depois de a Conmebol confirmar que o jogo de volta da final da Libertadores não será na Argentina, outras três cidades se apresentaram para sediar o principal clássico hermano.

Luciano Buligon, prefeito de Chapecó, colocou a cidade à disposição da Conmebol para a realização do duelo. Adepto do discurso de paz, fez questão de ignorar questões como a capacidade do estádio - 20.089 pessoas - para sediar o duelo. A Conmebol exige que o palco da decisão comporte no mínimo 40 mil pessoas.

"Como prefeito da cidade que se tornou a capital mundial da solidariedade a partir do acidente da Chapecoense, recebemos muita solidariedade de todo mundo, a partir de Medellín. Nós nos tornamos uma referência no futebol da paz. Não nos interessa o tamanho do estádio e tampouco o tamanho da cidade. O que interessa é o tamanho da lição que ficou. A lição é que futebol não é isso, futebol não é motivo de briga, é motivo da realização. Não pode ser motivo de medo e de briga. Chapecó se coloca à disposição sim", disse em áudio divulgado pela assessoria de imprensa da prefeitura.

A questão mais importante, no entanto, também não foi avaliada previamente pelo político. Ao propor a realização do duelo em sua cidade, ele não fez consulta anterior à Polícia Militar de Santa Catarina para garantir a segurança dos torcedores e jogadores dos dois clubes.

A Prefeitura de Chapecó, porém, demonstrou confiança nos órgãos de segurança pública. Os jogos ocorridos anteriormente no município são vistos como um bom teste pela própria Prefeitura. A cidade já recebeu decisão de Recopa Sul-Americana, entre Chapecoense e Atlético Nacional, e jogos de semifinais da Copa Sul-Americana. Nenhum deles, no entanto, com o peso de River x Boca.

Beira-Rio fechado para treinamento do Internacional antes de clássico Gre-Nal - Marinho Saldanha/UOL - Marinho Saldanha/UOL
Imagem: Marinho Saldanha/UOL

A Federação Gaúcha de Futebol (FGF) se colocou à disposição da Conmebol para realizar a partida no Beira-Rio, estádio do Internacional. Pela proximidade com a Argentina - Buenos Aires está a 1.060 km de Porto Alegre -, a ideia era receber o duelo e facilitar o acesso dos torcedores pela questão da distância.

A federação local, no entanto, não fez qualquer consulta à Brigada Militar a fim de planejar a realização do duelo. Procurado, o órgão que se responsabiliza pela segurança pública informou que seria possível armar um esquema com até três dias de antecedência.

Arena Pernambuco

Arena Pernambuco briga para receber Copa América 2019 - JC Imagem - JC Imagem
Imagem: JC Imagem

A Federação Pernambucana de Futebol também se apresentou para realizar o confronto na Arena Pernambuco. Evandro Carvalho, presidente da entidade, fez a consulta por meio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

"Não existe isso de pedir porque é a Conmebol quem decide isso. O que fizemos foi uma consulta junto à CBF para saber se a Arena de Pernambuco se encaixa no perfil de segurança para a decisão. Mas ressalto que é a Conmebol quem decide isso e não a gente ou a CBF", disse ao Jornal do Commercio.

O problema é que Evandro Carvalho também não procurou a Polícia Militar local para consultá-la sobre o tema que se tornou prioridade para a Conmebol: a segurança dos dois clubes e de torcedores. A ideia dele é a mesma de outros locais: garantir a realização da final para depois se acertar com os órgãos de segurança pública.

SP não tem estádio definido

Última, porém não menos importante, a cidade de São Paulo também entrou na história. Em carta à CBF, a secretaria de esporte e lazer colocou-se à disposição da Conmebol. Além de não consultar o Batalhão de Choque responsável por policiar os estádios e não ter qualquer plano de segurança, a maior cidade do país não informou nem em qual estádio a partida poderia ser jogada. Responsável por procurar a CBF, o secretário municipal de esporte e lazer, João Farias, garantiu que a capital tem infraestrutura e condições para receber o jogo e cumprir um desejo do prefeito Bruno Covas.

Mas tudo ficará apenas no discurso em solo tupiniquim. Com o Brasil presente no noticiário apenas em função da tentativa rápida - e sem organização prévia - dos dirigentes, o clássico ocorrerá longe daqui. Doha, no Qatar, e Assunção, no Paraguai, despontam como as favoritas para receber a histórica e não menos polêmica final da Libertadores de 2018. Em ambas as cidades, claro, um plano de segurança foi previamente pensado pelas autoridades locais.

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