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Renovação de Verstappen esquenta as disputas na Fórmula 1

Max Verstappen comemora vitória no Grande Prêmio do Brasil de 2019 - Ricardo Moraes/Reuters
Max Verstappen comemora vitória no Grande Prêmio do Brasil de 2019 Imagem: Ricardo Moraes/Reuters
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

13/01/2020 13h04

A assinatura de um novo contrato entre Max Verstappen e a Red Bull teve mais consequências na Fórmula 1 do que a mera extensão de mais quatro anos entre um piloto e sua equipe. Ela repercutiu positivamente junto à Honda, a fornecedora de motores que foi levada três vezes ao degrau mais alto do pódio pelo jovem volante holandês, e à empresa detentora dos direitos comerciais da categoria, a norte-americana Liberty Media. No entanto, para dois de seus concorrentes, o alemão Sebastian Vettel e o australiano Daniel Ricciardo, a notícia soou menos agradável.

Para a Honda, a certeza de contar com um piloto que lhe dá a quase certeza de reviver as glórias da aliança com Ayrton Senna é um argumento muito forte a favor de sua permanência na F-1 depois de 2021. Preocupada com os custos e os efeitos das regras que serão introduzidas após o campeonato deste ano, a montadora japonesa se comprometeu a fornecer seus motores para a Red Bull e a coirmã Alpha Tauris (nova denominação da Toro Rosso) por mais dois anos.

Para garantir que ela esteja presente em 2022, a Red Bull precisa dar à Honda pelo menos a possibilidade de vencer. E, para tanto, a renovação com Verstappen é meio caminho andado - a outra metade será construir um bom carro, tarefa que cumpre com sucesso ano a ano. Por seu lado, caberá à Honda fazer com que seus motores repitam o desempenho obtido em condições atípicas.

Neste quesito, vale lembrar que duas das três vitórias da dupla Red Bull/Honda ocorreram na Áustria e em Interlagos, pista em que o ar rarefeito das maiores altitudes favorece seus motores e limita os dos concorrentes. A outra foi na Alemanha, onde a chuva gerou a mais imprevisível corrida dos últimos anos. E lá valeram mais a qualidade de Verstappen e do carro da Red Bull do que a do motor japonês.

Se não conseguir cativar a Honda, a Red Bull se defrontará com uma situação absolutamente negativa: ou implorar à Mercedes e à Ferrari que lhe forneçam motores, hipótese já rejeitada pelas duas adversárias, ou voltar humildemente para os braços da Renault, de quem se divorciou de forma um tanto litigiosa. A terceira opção é ainda pior: abandonar a Fórmula 1.

Um presente para a Liberty Media

Para a Liberty Media, a presença de Verstappen na Red Bull e a de Charles Leclerc na Ferrari por mais quatro anos trouxe a certeza de contar com duas das três principais equipes além de 2020, último ano do contrato que as obriga a participar de todas etapas da F-1, o Pacto da Concórdia. É uma cartada estratégica na negociação com os patrocinadores da categoria, a Heineken e a Rolex, cujo vínculo também se esgota no fim deste ano.

Pelas enormes quantias e pela logística que exigem, esses contratos só se viabilizam por meio de uma duração maior, costumeiramente de três anos. Sem a garantia do Pacto da Concórdia, a Liberty precisa dar aos parceiros a certeza de que a Fórmula 1 continuará a ter em seu grid os maiores protagonistas.

Não que isso já esteja garantido, ainda falta a confirmação da Mercedes - mas tudo aponta na direção da continuidade. Ela tem a seu favor a hegemonia tanto no campeonato de pilotos quanto no de construtores desde 2014, o primeiro ano dos motores híbridos. E por mais que o regulamento técnico a ser introduzido em 2021 imponha algumas limitações, as regras relativas aos motores permanecem quase inalteradas.

Outro ponto positivo para a Liberty nessa difícil fase de negociações é a presença de três pilotos absolutamente fora de série, o hexacampeão Lewis Hamilton, que acaba de completar 35 anos, e os jovens fenômenos Verstappen e Leclerc, ambos com 22. Além do choque de gerações, essa disputa traz embutida a rivalidade das três maiores equipes da atualidade, Mercedes, que hoje é avaliada como a melhor escuderia de todos os tempos, a Ferrari, indiscutivelmente a de maior tradição e carisma, e a Red Bull, até agora vista como o Davi na luta contra esses dois Golias.

Para Vettel e Ricciardo, apenas a incerteza

Sebastian Vettel - UOL Esporte - UOL Esporte
Vettel com a pulseira em homenagem a Senna, pouco depois do treino
Imagem: UOL Esporte

Mas como nem tudo são flores, há dois grandes prejudicados na renovação de Verstappen com a Red Bull: o alemão Sebastian Vettel e o australiano Daniel Ricciardo. O primeiro tem pela frente cinco corridas para garantir a renovação de seu contrato com a Ferrari ao fim desta próxima temporada. Não será tarefa fácil.

Ao renovar o contrato de Leclerc até 2023, a Casa de Maranello deixou implícito que é nele que deposita suas apostas para o futuro. Sim, a Ferrari sabe do valor de Vettel, conta com sua experiência para desenvolver o carro e até mesmo para favorecer a evolução de Leclerc, mas tudo indica que, na hora da verdade, toda prioridade será dada ao piloto do futuro.

Diante desse quadro, Vettel tinha a Red Bull como uma carta na manga. Não é segredo que, em mais de um evento social, ele e Christian Horner, o chefe da equipe anglo-austríaca conversaram sobre um hipotético retorno à escuderia onde conquistou seus quatro títulos mundiais. Mas com uma restrição: a volta só se daria se fosse no lugar de Verstappen, nunca ao lado dele. A renovação fechou essa porta para Vettel.

Também foi cogitada uma volta de Ricciardo à Red Bull em 2021, já que sua saída só ocorreu pela preferência dada ao holandês em detrimento do australiano. Sem essa opção, sua melhor alternativa seria substituir Vettel na Ferrari. Para isso, porém, teria de aceitar Leclerc como piloto prioritário, uma situação que poderia tentar reverter como fez com Vettel na Red Bull - mas na época era ele o futuro, o alemão já estava de malas prontas para embarcar na Scuderia Rossa.

Dúvida na Renault, esperança na McLaren

Para um e para outro, ainda há alternativas, mas todas no condicional. Como a ressurreição da Renault em 2021, já anunciada por seu chefe Cyril Abiteboul, o mesmo que alardeou o crescimento da equipe francesa em 2019 e foi desmentido mais de uma vez pelos resultados obtidos.

De fato, foram feitas contratações de peso para este ano, as obras de atualização da sede inglesa foram encerradas e já não parece haver obstáculos a seu crescimento - a não ser a pouca eficiência de Abiteboul, cuja escolha para o cargo que ocupa se deve mais às suas relações familiares do que à sua real capacidade, dizem as más línguas.

Uma alternativa que certamente Vettel e Ricciardo observam com olhos atentos é a McLaren. Depois de ressurgir de forma impressionante em 2019, encerrando o ano como a quarta colocada no campeonato de construtores, a escuderia inglesa se prepara para passos ainda maiores. A contratação do alemão Andreas Seidl como chefe da equipe, e a presença do excelente projetista James Key já se fez notar em 2019, mas há de se ressaltar que eles só chegaram na metade do ano. Só na próxima temporada se terá uma medida mais justa de quanto representarão no desempenho da equipe.

Em paralelo a tudo isso, o fato é que a permanência de Max Verstappen na Red Bull e a de Charles Leclerc na Ferrari praticamente asseguram a continuidade de Lewis Hamilton na Mercedes. O que esvazia quase totalmente as especulações de uma dança das cadeiras revolucionária em 2021. E traz de volta o foco para a pista e o desempenho dos pilotos e equipes.

Ou seja, faz a Fórmula 1 a voltar a ser o que sempre devia ter sido: uma competição entre homens e máquinas.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado no texto, Lewis Hamilton é hexacampeão de Fórmula 1 e, não, heptacampeão. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.