PUBLICIDADE
Topo

Saque e Voleio

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Zebras, match points e links piratas: o caminho de Laura e Luisa ao bronze

Reuters
Imagem: Reuters
Conteúdo exclusivo para assinantes
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

30/07/2021 09h18

A medalha de bronze conquistada pela dupla brasileira neste sábado - a primeira do país na história dos Jogos Olímpicos - é daquelas histórias para contar, recontar e contar mais uma vez com teimosia até alguém acreditar. É o tipo de relato que um roteirista de Hollywood não teria coragem de escrever por falta de verossimilhança. Seria exagero fazer o espectador acreditar que uma dupla feminina do Brasil subiu ao pódio em uma Olimpíada. Matrix encontra A Origem no universo de Tenet.

Em condições normais, o Brasil nem teria uma dupla nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Luisa Stefani precisaria ser top 10 para conseguir a classificação automática e o direito de escolher sua parceira. A paulista, no entanto, estava fora do top 20, e a brasileira com melhor ranking (de simples ou duplas) depois dela era Laura Pigossi, que ocupava o 190º posto na semana que determinava os participantes do Torneio Olímpico de Tênis.

Com o ranking combinado de 213 (190 de Laura + 23 de Luisa), a parceria brasileira teria ficado fora em Londres-2012 e Rio-2016 (ignoremos aqui o fator casa e convites). Em Tóquio, porém, houve um número de ausências acima do esperado - que já seria alto - e, no dia 16, o último para determinar quem competiria, abriu-se uma vaga, e as brasileiras entraram.

A estreia era dura e contra as cabeças 7: Gabriela Dabrowski e Sharon Fichman, do Canadá. Laura e Luisa venceram por 7/6(3) e 6/4. Já fizeram mais do que o esperado, considerando que tiveram apenas oito dias entre o aviso da vaga e o primeiro jogo. Coloquemos nesse período aí viagens, adaptação ao fuso horário japonês e ao piso duro e tudo mais que envolve, emocionalmente, uma participação sonhada-mas-inesperada em Jogos Olímpicos. É muito.

O segundo jogo foi contra Karolina Pliskova e Marketa Vondrousova. As tchecas, favoritas, venceram o primeiro set e, mais tarde, tiveram quatro match points no match tie-break. As brasileiras salvaram todos e fecharam em 2/6, 6/4 e 13/11. Ok, Laura e Luisa já tinham feito muito mais do que alguém imaginaria. Crédito além da conta. O problema é que quase ninguém viu esses jogos. A Globo não pagou a cota extra para mostrar quadras além da 4, a as brasileiras fizeram suas apresentações nas Quadras 8 e 6, respectivamente.

Laura e luisa - Reuters - Reuters
Imagem: Reuters
As quartas de final foram na Quadra 5, também sem transmissão para o Brasil. Nas redes sociais e fóruns, muita gente buscava links piratas, e as próprias atletas ajudaram a divulgar maneiras de vê-las. Havia geração oficial de imagens, mas os canais brasileiros não compraram esses direitos. Circulou bastante um link japonês, e houve quem comprasse o pacote do Eurosport, que tinha os direitos de transmissão para a Europa. Ambos, porém, só eram acessíveis via VPN.

No fim do segundo set, quando Laura e Luisa estavam prestes a levar para o match tie-break a partida contra Bethanie Mattek-Sands e Jessica Pegula, o Bandsports fez uma transmissão, digamos, "alternativa". Segundo relato do jornalista Demétrio Vecchioli, do UOL, Elia Jr. e um repórter cinematográfico se posicionaram atrás da tela e começaram a mostrar o jogo. O "esforço de reportagem", como o jornalista classificou no ar, era a Band mostrando algo que seu canal não tinha o direito de exibir. Obviamente, alguém mandou encerrar a transmissão, e quem acompanhava pela TV não pôde ver o fim da partida.

Luisa e Laura venceram aquele jogo: 1/6, 6/3 e 10/6. Vaga nas semifinais pela primeira vez para o tênis feminino brasileiro nos Jogos Olímpicos. Veio, então, o confronto contra as suíças Belinda Bencic e Viktorija Golubic. Na Quadra 3. Finalmente, seria possível vê-las na TV. Valia a vaga na final, e claro, uma medalha. O começou foi espetacular, com duas quebras e um 4/0. As suíças, no entanto se ajustaram às bolas altas de Pigossi, começaram a agredir mais e viraram o jogo: 7/5 e 6/3 para elas.

O bronze era para ter sido um passeio de Elena Vesnina e Veronika Kudermetova e, por alguns minutos parecia que seria assim. O roteiro da semi foi ao contrário aqui. Aos poucos, Luisa e Laura equilibraram o jogo e forçaram o match tie-break. Mesmo assim, as russas abriram 9/5. Quatro match points seguidos com dois saques de Kudermetova. A medalha havia escapado das paulistas. Stefani e Pigossi, no entanto, tinham mais um plot twist na manga e ganharam os seis pontos seguintes. Game, set, match e medalha, Brasil.

Mesmo quando passa a insanidade dos minutos finais que terminaram com o bronze, é impossível não ficar feliz por Luisa, que sonhava com essa vaga olímpica e tentou por conta própria conquistá-la sabendo que o Brasil não teria outra atleta com ranking bom o bastante para classificar sozinha. Impossível não sorrir e gritar junto com Laura, que tanto quis defender o país e teve esse desejo negado por questões além de seu alcance. Voltou na BJK Cup, brilhou e mostrou seu valor novamente em Tóquio.

Quando o surreal ficar para trás - se é que, um dia, ficará - sobrará um orgulho enorme de Luisa e Laura. Nomes escritos para sempre na história - com todas as letras - do tênis brasileiro.

Nota do autor: este texto foi originalmente escrito antes da disputa pelo bronze e alterado após a conquista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL