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REPORTAGEM

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Guga 20 anos depois: coração no saibro foi "a marca da minha carreira"

FFT
Imagem: FFT
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

10/06/2021 04h00

Dez de junho de 2001. Vinte anos atrás, Gustavo Kuerten derrotava Àlex Corretja por 6/7(3), 7/5, 6/2 e 6/0 e conquistava Roland Garros pela terceira vez. Após o ponto derradeiro, o brasileiro repetiu o gesto que conquistou o público nas oitavas de final: desenhou um coração no saibro da Quadra Philippe Chatrier e deitou-se lá, levando o público francês ao delírio.

Nesta semana, o tricampeão conversou com a imprensa e, entre vários assuntos, lembrou do momento e do que significou que ganhou o "coração do Guga" na história do tênis mundial.

"Começou a dar uma clareza no impacto uns 10 anos atrás. Muito depois do torneio. Na hora, foi a emoção. A consagração por transbordar o meu sentimento. Parecia que eu grudei as pessoas ali comigo, estava todo mundo deitado. O que eu senti dentro da quadra foi a maior emoção que eu já vivi no esporte, na balança com a entrada com a tocha no Maracanã, nas Olimpíadas. Isso, por si só, nem dá para ver reflexo. Com o tempo, você vai escutando. Todo mundo vai trazendo essa informação, você começa a olhar com mais distância, de ver o que isso representa. Depois, como tu bem falasse, veio o Djokovic, que traz novamente a história à tona, e o impacto disso dá um tempero com um cara que é um dos maiores de todos os tempos."

A menção a Djokovic é uma lembrança à homenagem feita pelo sérvio em 2016, ano em que finalmente conseguiu conquistar o torneio francês - único slam que faltava em sua coleção. Após bater Andy Murray na final, Nole repetiu o gesto de Guga, desenhando um coração no saibro.

"Fica evidente e escancarado que é a marca da minha carreira! Se tiver que escolher um momento da minha carreira, é aquele ali. Até mesmo porque transmite tudo, né? Vai bem na nossa alma, no espírito que a gente propôs fazer no tênis. Era aquele jeito, com o coração e com a raquete. Sempre foi assim em meus maiores momentos. Eu me emocionei demais, eu consegui trazer isso em energia para dentro dos jogos, e as pessoas ficavam maravilhadas, com aquele impacto de 'parece que estou lá dentro, saboreando. Olha que delícia toda essa emoção que está aqui.' Então ele [coração] resume, traduz, simplifica, sintetiza minha carreira de A a Z, e aí fica fácil escolher."

O primeiro coração veio nas oitavas, na partida mais dramática do torneio. Guga esteve perdendo por 2 sets a 0 para um razoavelmente desconhecido Michael Russell, número 122 do mundo na ocasião e que entrou no torneio após passar pelo qualifying. O americano teve até um match point, que só não foi concretizado porque o catarinense acertou a linha. Depois disso, Guga se recuperou, ganhou o terceiro set no tie-break e disparou para avançar às quartas por 3/6, 4/6, 7/6(3), 6/3 e 6/1. Dali até a final foram sete dias.

"Tem um episódio dramático, do Russell, e depois, o apoteótico, da conquista do título. [O coração] foi a coisa mais perfeita que aconteceu na minha carreira. Em questão de sete-oito dias de um jogo para o outro e consegue transmitir tudo que a gente viveu. Por isso que tem um impacto tão grande na cabeça das pessoas!"