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Menos videogame, mais meditação: Felipe Meligeni arranca rumo aos slams

Marcello Zambrana
Imagem: Marcello Zambrana
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

11/12/2020 04h00

De modo geral, 2020 não foi um ano ruim para os brasileiros mais bem posicionados no ranking da ATP. Thiago Monteiro, #1 do Brasil e #84 do mundo, consolidou-se no top 100 e fez a melhor campanha da carreira em Roland Garros. Thiago Wild, #116 do mundo, brilhou no Rio Open e na Copa Davis e, aos 19 anos, tornou-se o mais jovem tenista do país a conquistar um título de nível ATP ao triunfar no 250 de Santiago, no Chile.

Na reta final da temporada, contudo, quem roubou os holofotes foi Felipe Meligeni, 22 anos, sobrinho de Fernando, o Fininho, ex-número 25 do mundo e campeão pan-americano em Santo Domingo/2003. O jovem campineiro já havia se destacado em fevereiro, no Rio Open, onde venceu um set contra Dominic Thiem, número 4 do mundo. Foi só depois da pandemia, porém, que a arrancada veio. Número 306 do mundo até o fim de novembro, Felipe conquistou o título do Challenger de São Paulo - primeiro deste nível em sua carreira - e foi semifinalista em Campinas na semana seguinte, em um evento do mesmo porte. Com as campanhas, pegou o elevador da ATP e saltou para o atual 231º lugar no ranking. É o bastante para, pela primeira vez na vida, disputar os qualifyings dos slams, os torneios mais importantes do circuito (Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open).

Além disso tudo, Felipe foi campeão de duplas nos torneios de Guaiaqui e São Paulo e fechou o ano com um vice em Campinas - sempre jogando ao lado do venezuelano Luís David Martínez. A chave para tudo isso? Menos Call of Duty, mais meditação. Após uma derrota doída no torneio de Guaiaquil, o campineiro sentiu a necessidade de trabalhar mais seu lado mental, e isso significou deixar um pouco de lado o videogame, entre outras coisas, e voltar a hábitos como a meditação, que vinha deixando de lado. O resultado veio nas quadras.

Conversamos por telefone durante esta semana, e Felipe falou sobre a evolução desde que passou a treinar em Barcelona; a emoção de levantar um troféu na mesma semana em que sua irmã, Carol Meligeni, foi campeã no Egito; a dor da derrota no Equador; a conquista em São Paulo; a necessidade de seguir evoluindo; e, claro, a vontade de conquistar mais. Leiam!

Obviamente, foi um fim de ano sensacional, mas eu queria começar voltando no tempo, um ano atrás, na última vez que a gente conversou. A gente estava em Campinas e você recebeu a notícia de que não teria mais aquele apoio da CBT para pagar parte dos seus custos de treino na academia BTT, em Barcelona. O Léo Azevedo saiu de lá, e você talvez precisasse sair. Quanto tempo levou para você decidir o que ia fazer, se ia ficar lá na BTT, e como pagar esses custos, que não devem ser baixos?

Bom, quando eu recebi a notícia que a CBT não ia mais continuar pagando a BTT, foi meio preocupante no começo. Lá é um lugar caro, é bem complicado, mas eu já tinha na cabeça que queria continuar na Espanha. Eu tinha acabado de começar um trabalho com um cara que eu gostava, que é o Marc García, meu treinador agora. É um cara novo, que trabalha muito bem, esforçado, e tem contato com o Léo também. Ele tem coisas parecidas que eu gostava no Léo. Na hora que eu recebi a notícia, eu fiz de tudo para poder ficar lá. Fui em busca de apoio para poder me manter lá, conversei na academia para ver como podia fazer, se tinha algum preço especial, coisas assim. Consegui chegar num acordo com eles, numa coisa que não pesava muito para mim, e deu certo. Consegui ficar lá. Eles vêm dando o suporte que eu preciso. Tenho as minhas coisas lá. Minha alimentação, minha casa, onde moro com os atletas e tudo mais. Foi o que eu decidi, foi a melhor escolha que eu fiz, com certeza. É um lugar onde eu venho amadurecendo bastante, venho melhorando bastante como atleta e como pessoa e pretendo continuar lá por muitos anos ainda.

Meligeni apontando - João Pires/Fotojump - João Pires/Fotojump
Imagem: João Pires/Fotojump
O resultado é consequência da continuidade desse trabalho e talvez nem todo mundo lembre agora, mas você já tinha começado bem a temporada, né? Você fez uma semi de Challenger em Punta del Este e depois jogou o Rio Open e ganhou um set do Dominic Thiem. E aí veio a pandemia. Como essa paralisação te afetou? Quanto tempo você ficou parado, sem fazer nada? Quando você voltou a treinar?

Sim, eu tive um começo de ano muito bem. Fiz a minha primeira semifinal de Challenger, tive aquele jogo da Copa Davis, que foi incrível...

Verdade, eu esqueci de citar! [No confronto com a Austrália, Felipe Meligeni jogou duplas ao lado de Marcelo Demoliner e derrotou a parceria da casa, formada por James Duckworth e John Peers]

Tive o jogo como Thiem, que foi uma experiência inesquecível, um momento que vivi na minha carreira que vai ficar sempre marcado. Espero viver muito mais vezes. A pandemia me pegou de surpresa como pegou todo mundo. Um negócio que veio de repente e parou o mundo. Não vou falar que foi rum no começo porque eu consegui fazer coisas que eu não fazia normalmente. Passar um tempo com a minha família, datas importantes, aproveitei para colocar em dia muitas coisas de estudo. Essas coisas também fazem parte. Eu fiquei acho que um mês e pouquinho trancado em casa, só tentando fazer um pouco de exercício aqui no estacionamento de casa e coisas desse tipo. Assim que liberou aquela parceria com a [academia] ADK, em Itajaí (SC), eu mexi os pauzinhos, falei com o Frick [Eduardo, gerente de esportes e eventos da CBT], com o Westrupp [Rafael, presidente da CBT] para ver se eles me apoiavam para eu poder ir para lá. Eles ajudaram eu, minha irmã e todos atletas que foram para lá. Me ajudou bastante voltar a a treinar, a estar em forma. Foi bem legal, acho que consegui me preparar bem até eu conseguir resolver se iria voltar para a Espanha. Consegui quando abriram os torneios, em agosto, e deu tudo certo. Consegui me preparar bem para começar os torneios com força máxima.

E esse tempo todo a partir de agosto você trabalhou com o Marc, né?

Isso.

Nessa volta, você fez duas quartas de final [Challengers de Iasi e Sibiu, na Romênia], mas depois perdeu quatro jogos seguidos. E nessa quarta derrota, já em Guaiaquil, teve aquele lance em que você atirou a raquete e passou perto do boleiro [na derrota para Juan Pablo Varillas]. Qual foi o tamanho do seu susto naquele dia?

Eu vinha com bons resultados, fiz duas quartas, mas senti um pouco o cansaço e conversei com o treinador, tinha algumas coisas para melhorar e voltei para a BTT. Tive três ou quatro jogos que perdi na primeira rodada, mas jogos difíceis, em piso que não estou acostumado, em quadra rápida [Felipe perdeu para Mackenzie McDonald, cabeça 1, no Challenger de Istambul, e para o taiwanês Tsung Hua Yang no M25 de Vale do Lobo, ambos em quadra dura], e em Guaiaquil perdi um jogo que escapou. Era um jogo para eu ganhar em dois sets, e aquela derrota doeu bastante. Aquele lance da raquete foi um momento de fúria que, para não fazer besteira, acabei descontando na raquete. Não me orgulho nem nada, mas aconteceu no momento. Na verdade, o boleiro nem se mexeu, nem chegou a passar perto dele, tanto que eu pedi desculpa e ele não falou nada. Foi tranquilo. Uma coisa que aconteceu. Um momento de raiva que todo tenista já passou. Não é uma coisa que eu faço normalmente, tanto que quando fiz aquilo dei uma acordada. Estava 4/0, depois ficou 4/4 e eu tive break point no game do 4/4, mas acabou escapando. Foi aquela derrota que doeu bastante e, com certeza, me deu energia para os outros jogos, na dupla, e para tentar buscar os melhores resultados depois.

Eu perguntei justamente sobre esse jogo porque, olhando de fora, parece um divisor de águas. Depois daquilo, você foi campeão de duplas em Guaiaquil, ganhou simples e duplas em São Paulo e só foi perder de novo na semifinal em Campinas. Aconteceu alguma coisa daquele jogo que deu um clique?

Ah, acho que aquele jogo serviu muito para eu ver umas coisas que estava fazendo errado, não só dentro de quadra, mas fora. Coisas que me prejudicavam a manter meu foco. Comecei a colocar coisas na minha rotina que eu tinha parado e que me fazem bem, que são meditação antes dos jogos e coisas desse tipo, para eu me manter o mais concentrado possível. Foi o que me prejudicou naquele jogo: eu perdi o foco por um momento, e o jogo escapou. Eu não queria mais que acontecesse, conversei com a minha psicóloga e comecei a fazer coisas que me ajudassem a manter a concentração o tempo inteiro, e deu certo. Venho trabalhando isso bem, venho fazendo as coisas que tenho que fazer e não é a toa que vieram os resultados ótimos agora no fim do ano.

Você se incomoda de dizer quais eram essas coisas que te atrapalhavam fora de quadra e você parou de fazer?

Eu sou um cara que, fora da quadra, acabo... Eu fico jogando videogame, sou um cara que gosto de me divertir quando estou fora da quadra....

Meligeni lamentando - João Pires/Fotojump - João Pires/Fotojump
Imagem: João Pires/Fotojump

Está certo! (risos)

É, e eu acabo sendo meio preguiçoso para fazer algumas coisas. A meditação, que eu tinha parado, eu senti que era uma coisa que fazia falta para mim depois que conversei com a minha psicóloga. Levar muito mais a sério do que eu estava levando esse lado da meditação, esse lado de concentração, que era onde eu estava perdendo. De jogo, eu estou pau a pau com qualquer jogador. Eu sinto isso. Eu senti isso no Rio Open jogando com o Thiem, que era #4 do mundo. Eu acho que não era nem mais tema de jogo, técnica. Era mais coisa mental, e eu peguei esse tempo, depois que perdi esse jogo que ficou martelando na minha cabeça, para melhorar essas coisas que estavam me atrapalhando. Melhorar minha concentração, melhorar meu foco, manter a tranquilidade em momentos que eu fico mais nervoso e, bom, deu certo.

Eu imagino que você saiba o tênis que tem e saiba que, num Challenger, você tem chance de ir longe. Mas especificamente em São Paulo, teve algum momento em que você falou "opa, posso ser campeão aqui"?

Eu cheguei em São Paulo, na verdade, com uma cabeça de tentar fazer meu melhor porque as condições que tem em São Paulo... Na verdade, o problema, para mim, era a bola. A bola era muito rápida. Eu tinha jogado com essas bolas em Brasília e não me senti confortável, não me senti no timing nem nada. E eu cheguei meio preocupado, para falar a verdade. Na primeira rodada, eu peguei o Benjamin Lock, um cara que não dava tanto ritmo, mas fui melhorando durante os jogos. Depois que eu ganhei do [Mohamed] Safwat, ali, eu vi que eu estava num momento bom, jogando bem. Eu consegui jogar com uma intensidade boa a partida inteira. Contra o [Dmitry] Popko, ali, eu senti muito nervosismo no primeiro set, mas depois eu consegui fazer o que estava fazendo. A partir do momento que eu cheguei na semifinal, eu falei "este torneio vai ser meu porque eu estou bem, vai dar tudo certo, estou confiante, nada vai me impedir de ganhar e fazer o que eu tenho que fazer." Bom, foi indo, e a confiança foi aumentando. Quando eu estou com a confiança alta e acreditando no meu jogo, pode dar errado, mas as chances são bem menores. Foi o que aconteceu. Eu consegui fazer tudo direitinho, tudo como tinha planejado, e foi a semana perfeita.

Conta pra mim como foram os últimos 15-20 minutos da final... Você teve uma quebra na frente, estava esbanjando confiança, sacando em 30/0 depois de uma paralela linda, e de repente você perdeu aquele game, e o jogo complicou um pouquinho. Descreve esses 15-20 minutos finais...

Foi no 4/3 do segundo set. Eu estava com um break, fiz 30/0 com uma paralela e depois acabei errando três ou quatro direitas seguidas. Foi complicado, eu senti um pouco. Não vou falar que não senti a pressão. Primeira final de Challenger, momento difícil, tanto que eu saquei 6/5 depois e perdi o saque. Eu estava bem nervoso, o braço estava tremendo, coisa normal. Mas eu sabia que estava jogando bem, sabia que ia dar certo. Como eu estava sentindo, ele também estava porque acho que foi a primeira final de Challenger dele também. Eu tentei me manter o mais calmo possível. Se fosse em outra época, eu poderia ter surtado, poderia ter ficado puto, qualquer coisa do tipo, e saído do jogo. Mas eu me mantive o tempo inteiro no set, tentei ficar o mais positivo possível o tempo inteiro e foi por isso que eu joguei um tie-break incrível, consegui manter uma intensidade e um nível de concentração muito alto. Ele sentiu bastante, e consegui um resultado incrível [Meligeni venceu a final por 6/2 e 7/6(1)], com uma atitude incrível a semana inteira. Igual em Campinas também, acho que foi bem legal.

Como foi a comemoração em família numa semana em que você foi campeão e a Carol [Meligeni, irmã de Felipe] foi campeã de um W15 no Egito. Como seus pais estavam naquele fim de semana?

Nossa, foi um fim de semana realmente muito emocionante para toda a família. Minha irmã ganhando no Cairo, eu ganhando em São Paulo... Todo mundo chorou muito depois da minha vitória. Fui abraçar meus pais, minha namorada, todo mundo estava chorando bastante. Ainda mais depois da premiação. Minha irmã ligou por vídeo para o telefone da minha namorada e foi falar comigo... Comecei a chorar com ela no telefone. Foi realmente bem especial. Um fim de semana, um torneio que vai ficar na minha memória por tantas coisas boas que eu vivi lá com a minha família, com as pessoas que eu gosto, todo mundo me assistindo, todo mundo me apoiando. Espero viver muito mais semanas como essa.

Meligeni troféu - Marcello Zambrana - Marcello Zambrana
Imagem: Marcello Zambrana
Como é mentalmente o primeiro torneio depois do primeiro título? Você chega mais confiante? Não falo de salto alto nem nada, mas te faz acreditar que dá para ganhar qualquer torneio desses?

Com certeza, dá uma confiança incrível. Depois que você ganha um torneio, em simples e duplas ainda, você chega bem confiante. Não salto alto nem desmerecendo ninguém. Você chega forte, você sabe que tem reais chances de fazer de novo e, bom, eu sabia que, querendo ou não, eu e o [Daniel] Galán, que tinha acabado de ganhar Lima, éramos os caras a a serem batidos no torneio. Tanto que na primeira rodada eu joguei com o Emilio Gómez. O cara jogou muito tênis, foi um jogo bem difícil, muito ganho no mental. E em todos os jogos eu aguentei muito mentalmente porque eu estava bem cansado. Eu já vinha de muitos jogos. Na semifinal, custou bastante para mim porque o Fran [Francisco Cerúndolo, que acabou sendo campeão em Campinas] estava jogando muito bem, era um cara que vinha com ritmo, ganhou três Challengers este ano. Foi um jogo difícil de aguentar a intensidade que ele estava mantendo, mas eu cheguei bem em Campinas. Jogar em casa é realmente muito bom. Em frente à família e aos amigos. Mesmo sendo fechado para público, havia muitos amigos que conseguiram ir lá ver e meus pais. Foi bem legal, uma semana especial. A final de duplas também. Acho que foi um fim de ano muito positivo para mim. Consegui classificar para o quali dos grand slams, pelo menos por enquanto. É uma conquista bem legal.

Esse era o objetivo, né? Estar ali entre os 250. Você está #231, com uma certa folga. E isso, imagino, vai mudar sua preparação ou o que você pretende para essa temporada, não? A data do Australian Open, em tese, é 8 de fevereiro para a chave principal, mas não se sabe se o quali vai ser em Dubai ou como vai ser.

A gente ainda não tem nenhuma resposta sobre o quali. Se tiver quali, eles querem fazer no começo de janeiro, então eu teria que voltar para a Espanha logo mais para começar a pré-temporada. Vou tirar esta semana, pelo menos, de férias, descansar um pouco e já na outra semana, já ir para a Espanha. Eles querem fazer [o quali do AO] em Dubai, pelo jeito. E depois ir para Melbourne se passar o quali. É difícil, óbvio, passar o fim do ano longe da família. Datas importantes, mas é o preço que tem que pagar, é o objetivo que eu conquistei e consegui cumprir e, bom, vou tentar me preparar o melhor possível. Se não tiver quali, vou me preparar de outra maneira, para outros torneios e ver o que eu consigo fazer.

E o seu tênis hoje? O que você quer trabalhar? Se tivesse que escolher um aspecto só, o que você acha que tem que melhorar mais?

Bom, eu acho que ainda posso melhorar meu saque... Acho que tenho que aumentar a porcentagem ainda. Venho melhorando muito o meu saque, estou muito melhor do que antes, mas ainda posso chegar num nível mais alto. E a cabeça, é continuar o trabalho, que é uma coisa que me custa, é difícil para um cara que foi sempre muito reclamão a vida inteira. Dando este salto, neste momento, é uma coisa que tem que ser um trabalho contínuo, uma coisa diária. Venho fazendo o trabalho direitinho com certeza. Vou descansar e tentar me preparar o melhor possível para a próxima temporada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.