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Mais Chico: Davis, marketing 'de jerico' e a cultura do atalho no Brasil

Divulgação / Try Sports
Imagem: Divulgação / Try Sports
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

27/11/2020 04h00

Na primeira parte desta entrevista com Chico Costa, o ex-capitão brasileiro da Copa Davis fala sobre sua saída do Instituto Tênis, analisa o mercado de alto rendimento para técnicos dentro do país e revela que vai trabalhar na Tennis University, uma academia alemã comandada pelo ex-top 100 Alexander Waske.

Nesta sexta-feira, publico a segunda parte da conversa. Aqui, o gaúcho de 47 anos fala sobre a relação entre o número de tenistas e a quantidade de treinadores de alto rendimento no Brasil, ressaltando a necessidade de investir em técnicos. Chico também dá opiniões fortes sobre o marketing no tênis - "'Todos pelo número 1' foi ideia de jerico" - e lembra de episódios delicados de seu tempo à frente da equipe da Copa Davis. Por fim, faz uma comparação entre o tênis argentino e o verde-e-amarelo: "No Brasil, a gente tem a cultura do atalho." Leia!

Você falava sobre como o Brasil não oferece um bom mercado para o tênis de competição, e eu lembro de um episódio em 2010 quando o Thomaz Bellucci tinha acabado de se separar do João Zwetsch e deu uma coletiva aqui em São Paulo dizendo que no Brasil faltava técnico. Ele colocou mal a coisa, deu uma repercussão grande, mas o que ele quis dizer é que o Brasil tem poucos técnicos ex-jogadores para viajar no circuito. Isso gerou um debate na época porque a gente pode dizer que não tem técnico porque também não tem jogador. É o que você acabou de dizer: quantos jogadores podem pagar um técnico de alto nível? Falo de alguém que jogou, que tem experiência de circuito. É o seu caso. Você jogou 10 anos de circuito, foi 140 do mundo e capitão de Copa Davis. Quantos caras com a sua bagagem estão treinando no alto rendimento hoje? Não sei.

Sim. É uma questão cultural, que não é culpa de A, B ou C. Poucos jogadores fazem com que as pessoas não consigam se dedicar a ser técnicos. Eu, quando parei de jogar, sabia: quero ser treinador. Quero continuar competindo, mesmo que indiretamente. Vários fizeram isso. Um ou dois anos depois, já estavam fazendo outra coisa. Ou saíram do tênis ou se tornaram empresários do tênis. Embora ainda na quadra, ainda dando alguns treinos e aulas, mas empresários. Isso é bem complicado para o nosso tênis. Óbvio que se a gente vai dizer que algo precisa ser melhorado, deveria partir sempre da instituição máxima, que é a Confederação, mas isso é muito difícil também. Requer um grande investimento. Quando eu estava na Copa Davis, a CBT tinha certeza que tinha que montar um centro de treinamento. Acho que tu se lembra muito bem disso.

Frase Chico 5 -  -
Lembro muito bem!

Aquilo era o divisor de águas do tênis brasileiro. Na hora que a CBT monta um centro de treinamento de alto nível com vários jogadores e técnicos de alto nível, e isso se torna permanente. Isso é uma mudança de cultura. Vai exercendo uma influência muito grande sobre todo o tênis nacional. Na hora que isso não acontece, na hora que a CBT desiste e continua só fazendo pequenas ações aqui e ali, participando do tênis-negócio... A Confederação Brasileira, quando se viu em dificuldades financeiras, recuou nesse projeto e passou simplesmente a ser mais um participante nesse grande mecanismo de tênis-negócio, que é o que reina no Brasil há muito tempo. Dos anos 1990 para cá, isso só se agravou. Nada fez a coisa mudar um pouquinho de direção.

O cenário do tênis no Brasil hoje é muito diferente de quando você parou de jogar o circuito [em 2005]?

Vamos dizer que existia um otimismo maior naquela época. A CBT estava mudando de mãos. Estava saindo do Nelson Nastás, uma pessoa que não fez nada pelo tênis durante 20 anos, e entrando nas mãos de um grupo de jogadores que apoiava um político, que era o Jorge [Lacerda da Rosa]. Era um político, mas vinha com o respaldo de toda a comunidade do tênis. Guga, Meligeni, técnicos, Larri... Todos que participaram do boicote nos últimos anos do Nelson Nastás. Era um momento de otimismo. Quando eu parei de jogar, já tinha essa ideia europeia na minha cabeça, mas o Brasil vivia um momento de otimismo. O Brasil já tinha passado por dois governos do Fernando Henrique, estava no primeiro governo do Lula, era um país em ascensão. O esporte do Brasil estava crescendo, e o tênis estava passando por um momento de renovação. Foi um dos motivos que eu decidi iniciar minha carreira de treinador no Brasil. Apareceu essa oportunidade de trabalhar no Instituto, depois veio a Copa Davis. Nesse sentido, [o cenário] era muito diferente. Mas se a gente vai olhar, por exemplo, ranking de jogadores, quantidade de técnicos, clubes e academias, como as coisas funcionam... É praticamente o mesmo cenário. Em termos de qualidade e de momento, é muito parecido. Mas naquela época, a perspectiva era mais tentadora, mais otimista.

Uma coisa que o Léo Azevedo sempre fala... e ele esteve na Espanha, na USTA e agora está na Escócia trabalhando como técnico na LTA, a federação britânica. E ele fala que gostaria de voltar para o Brasil, mas nunca teve uma proposta ou um plano apresentado para ele. E do mesmo jeito, em momentos diferentes, já ouvi o Meligeni, o Saretta, o Thomaz Koch falarem que não foram chamados a ajudar. Valoriza-se pouco o ex-tenista aqui ou realmente não tem espaço para técnicos? Ou ambos?

Eu acho que não é uma questão de não valorizar. A profissão de treinador de tênis no Brasil foi distorcida. Ela está distorcida. Ela foi empurrada para o lado de mercado de academia, de se tornar um empresário de tênis. No caso do Léo, eu acompanho a carreira dele. Ele fez a carreira praticamente no exterior. Conseguiu oportunidades que poucos têm. Treinou o Flávio Saretta, o Ricardo Mello, o Thomaz Bellucci, e depois não tinha outro jogador que pudesse contratá-lo, e ele voltou para o exterior. Acho que é o caminho natural de uma pessoa que investe na carreira de técnico. Não tem esse mercado mesmo no tênis brasileiro. Os técnicos que recebem os melhores salários no Brasil não estão no alto rendimento. É, de repente, o coordenador técnico de um grande clube como o Pinheiros. Suponho que estão lá para fazer tênis social, de diversas formas, e muito pouco alto rendimento.

Frase Chico 7 -  -
Quantos centros de treinamento existem? Quantos jogadores bem ranqueados, que podem contratar técnicos individualmente, existem? A gente vê que realmente é difícil isso. Claro que a qualquer momento pode surgir um novo grupo de empresários que monte um novo instituto e vá atrás de quatro ou cinco técnicos. No Brasil, isso acontece de uma hora para a outra, mas pode desaparecer a qualquer momento também. É só tu ver: que equipe do Brasil existe há 20 anos? Nenhuma! O Instituto Tênis é o que tem de mais duradouro no Brasil e já está mudando de nome. Agora é Instituto Rede Tênis Brasil, que engloba Instituto Tênis e Tennis Route. Eu vejo que as pessoas reclamam, mas a maneira é um pouco equivocada. Elas levam para o lado de que aqui não se reconhece os grandes currículos. Não concordo. Acho que no Brasil não se reconhece a importância da profissão de professor. O treinador, na verdade, não deixa de ser um professor. Assim como o professor de qualquer matéria no Brasil é subvalorizado, o treinador também é. É muito mais abrangente, cultural, do que "como é que ninguém me oferece o salário que eu quero ganhar para ser alguma coisa importante?"

Entendi.

O Instituto Tênis fez algumas campanhas de marketing que eu não concordei. Por exemplo: você lembra da frase "Todos pelo número 1", não lembra?

Lembro!

Na minha opinião, não existe isso aí.

Acho que isso foi a primeira pergunta que eu fiz para o Cristiano Borrelli [antigo diretor executivo] quando visitei o Instituto Tênis pela primeira vez. "Não é ousado demais?"

Foi uma ideia de jerico. E não foi dele [Cristiano]. Foi uma frase que alguém largou no ar, e todo mundo gostou porque parecia que ia pegar como marketing. Só que na hora que tu coloca um número no teu slogan, tu fica escravo daquele número. E número 1 não existe. O número 1 hoje é o Djokovic. Ontem, era o Nadal. Anteontem, o Federer. Esses caras são de outro planeta. O fato de o Brasil já ter tido um número 1 como o Guga... Isso foi um acidente da natureza! Algumas pessoas, uma família e um técnico fizeram milagre. Não existe tu planejar aquilo ali e ter número 1 como objetivo. Então quando surgiu esse slogan, eu aceitei porque era funcionário, mas fui totalmente contrariado em relação a isso.

Eu lembro desse email circulando entre jornalistas, e todo mundo estava espantado.

E quem paga o pato é quem compete, o técnico e o jogador. É o jogador que sente a pressão, e o técnico que é cobrado por devolver em forma de resultado uma frase estúpida. E tem outro erro também. O plano do Instituto Tênis seguia a linha de sucesso do Jorge Paulo Lehmann, de sonhar grande, de mirar o topo, etc. Ok. Como ideia, como filosofia, ótimo. Mas teve uma entrevista onde foi dito, e não foi uma ideia do Cristiano, mas houve um estudo de uma consultoria que não tinha nada a ver com tênis. Fizeram uns cálculos matemáticos e viram que o IT teria a capacidade de fazer em 30 anos três números 1 do mundo - uma coisa assim - e colocar 50 jogadores no top 100 [nota da edição: até hoje, o site do IT diz que o "Instituto visa realizar o sonho de formar o próximo nº1 do mundo e ter 12 brasileiros entre os 100 melhores do ranking mundial de tênis." Além disso, reportagem da Forbes de 2017 cita que o objetivo do IT era formar três números 1 do mundo e colocar 54 brasileiros entre os 500 melhores do mundo até 2033]

Eu lembro disso.

Isso é tiro no pé. O Instituto Tênis, no seu momento bom, de crescimento, tomou algumas decisões comprometedoras como essas.

Frase Chico 6 -  -
Eu concordo muito quando você fala que a profissão de professor é subvalorizada. E no tênis a gente chega à conclusão que não tem técnico para alto rendimento porque não tem tenista. Mas se não tem técnico, não vai mesmo ter tenista. A gente entra em um ciclo ruim. Como quebrar isso?

Aí nós entramos na cultura. A primeira coisa que deveria acontecer é as pessoas que querem fazer tênis no Brasil... Empresários, dirigentes, pessoas que estão na CBT, pessoas que estão por trás dos institutos... Essas pessoas têm que entender que ou o técnico é valorizado ou não se vai ter nada nunca. Quem vem primeiro? O ovo ou a galinha? Primeiro vem o técnico! Depois, o jogador. Sem técnico, não tem jogador. É claro que não ter jogador dificulta a vida dos técnicos, mas tem que começar pelos técnicos. A gente precisa investir nos treinadores. Para montar uma estrutura de tênis, tem que escolher e pagar muito bem os técnicos. E poder cobrar e ajudar os técnicos também. Porque o técnico sabe bastante do jogo, mas tem que aprender sobre gestão, tem que se capacitar. Tem que enriquecer seu conhecimento para poder participar de outras decisões. Quando eu te disse que fiquei completamente alheio às discussões institucionais, sobre os rumos do Instituto Tênis... Eu fiquei só recebendo feedbacks de que eu estaria nele, mas não participei de quase nada. Está errado. Por que eu tive que começar do zero no Instituto Tênis em 2011? Porque quando o projeto foi para Brasília, não passou por nenhum treinador em nenhum momento. Um grupo de pessoas colocou o projeto no papel e mandou para Brasília. Metade das coisas não foram aprovadas, a coisa ficou capenga.

Como a gente falou antes, você tem um currículo que não são muitos no Brasil que possuem. Além dos anos de circuito e a experiência como técnico no alto rendimento, você foi capitão de Copa Davis. O que foi o mais importante que você tirou desse período?

Não tem nada parecido com isso. Primeiro pelo momento que eu entrei. Eu era um técnico iniciante quando o presidente da CBT [Jorge Lacerda] me chamou para um almoço. Ele me fez o convite, me pegou completamente de surpresa. Eu falei que tinha outras pessoas mais experientes, mais preparadas, mas eles me convenceram de que eu era a pessoa certa naquele momento. Havia uma espécie de rixa entre dois grupos de jogadores: os que sempre jogavam Copa Davis, que eram Flávio Saretta, Ricardo Mello e André Sá, e os que nunca jogavam, que eram o Marcos Daniel, o Thiago Alves... Não que houvesse uma rixa pessoal, mas alguns jogadores sentiam que eram excluídos da equipe. Então estavam procurando alguém como eu, que não tivesse muito vínculo com nenhum deles, que não tivesse treinado A ou B ainda. O Fernando Meligeni saiu brigado com a CBT, dizendo um monte de coisas - e tinha razão. Quando me chamaram, defenderam uma narrativa de que a Copa Davis tinha se tornado uma panelinha, não só a nível de jogadores, mas comissão e amigos, festa e gastança de dinheiro e etc. Eles queriam alguém um pouco mais simples, mais direto, alguém que fosse cortar o oba-oba. Essa era a visão da CBT. Eu falei "vou aceitar", mas precisava agregar experiência na equipe. Chamei o João Zwetsch, que era um treinador experiente e considerava um amigo do circuito, e o Thomaz Koch, que é uma grande referência do tênis. As conversas foram muito boas, eles me aceitaram muito bem como capitão.

Tenho duas questões sobre esse seu período na Davis. Uma situação foi em um confronto na Colômbia que o Marcos Daniel não quis jogar. Houve um problema com a CBT, e ele era um cara que, além de ter jogado bem em um confronto com a Colômbia, no Brasil, ele jogava bem na Colômbia, em altitude. Onde você entrou nessa história?

Essa foi uma situação bem atípica, né? De um jogador entrar em conflito por algum motivo que não deveria ser um motivo importante, uma questão de patrocínio. Não passou por mim a decisão. Foi uma situação de impasse em que a CBT queria uma coisa, e o jogador queria outra. A comissão técnica tentou, obviamente, com a CBT. Teve conversa com o Marcos Daniel, mas principalmente tentamos fazer com que isso se tornasse possível. Não houve como. Os dois lados se mostraram irredutíveis. O que coube a mim foi substituir o jogador que seria titular e não inviabilizar a volta dele para a equipe. Fazer com que pelo menos esse impasse não espalhasse para outras coisas. Minha conversa com o Marcos Daniel foi sempre muito franca. O importante era a gente continuar se comunicando. Que não se tornasse algo maior do que já era. Claro que, falando assim, parece que foi simples. Mas não foi tão simples. Foram necessários vários telefonemas.

A outra questão é sobre a derrota para o Equador, em 2009, que veio no quarto jogo, no quinto set com o Nicolás Lapentti derrotando o Marcos Daniel, que quase conseguiu uma virada. A crítica que eu sempre fiz a esse confronto foi porque eu sempre ouvi nas entrevistas um discurso de "vamos cansar o Nicolás Lapentti" porque ele teria que fazer as três partidas. E sempre imaginei o seguinte: se era pra cansar o Nico, por que não colocar esse confronto num sol do capeta? Mas o duelo foi numa quadra de saibro coberta. Você teve alguma influência nisso ou a decisão foi tomada de cima para baixo?

Boa pergunta. Quando a gente soube que jogaria contra o Equador, a gente sabia que precisaria ganhar pelo menos um jogo do Nicolás. Ele era o jogador a ser batido. O Giovanni [Lapentti] era um jogador não tão experiente, não tão duro. A gente obviamente escolheria o saibro, onde o Giovanni não era tão forte. Essa questão de escolher o lugar é assim: tem o que a gente pode considerar o ideal, mas tem aquilo que se apresenta como opção. Geralmente, dois ou três lugares acabam surgindo como opções. A gente não pode escolher o lugar. Os lugares se interessam por sediar o confronto, procuram a CBT, oferecem as condições necessárias - essa parte eu já não sei os detalhes, mas é mais ou menos assim. Quando chega na comissão técnica, na minha época era assim, chegavam, no máximo, três opções para escolher. A comissão técnica se reunia e consultava algumas pessoas, os principais jogadores. Porto Alegre, onde foi o confronto, parecia ser uma boa opção porque seria no nível do mar e se construiria uma quadra coberta porque nessa época do ano, em setembro, chove muito. Entre jogar com altitude no interior de São Paulo, que se não me engano era uma das opções, e jogar em Porto Alegre, numa quadra coberta e de saibro, a gente considerou que aquela era a melhor opção. Claro que entre escolher e as coisas saírem do jeito que a gente planeja... Tivemos diversos problemas em Porto Alegre. Diversos.

Que tipo de problema?

A quadra não ficou do jeito que a gente queria, por exemplo. O saibro foi construído em cima de um tablado de madeira, e não em cima do cimento, como é normalmente. Essa camada de cimento faz a bola quicar alto, por exemplo. Então a bola quicou muito baixo naquela quadra. Não ficou um jogo tão de saibro quanto a gente gostaria. Isso a gente só fica sabendo quando a quadra está pronta, infelizmente. Na véspera de os jogadores chegarem, fizeram um evento em Porto Alegre. Por ser capitão e morar em Porto Alegre, me chamaram para bater uma bola e tirar umas fotos. Eu fui lá e já percebi que a bola estava ficando baixa. Conversamos com a empresa que fez a quadra. "A quadra está muito rápida, a bola está quicando baixinho." Ele foi lá, tentou mexer, mas a base da quadra já estava construída e não tinha como remediar. Foi um problema decisivo. Não vou dizer que perdemos por isso, mas com certeza ajudou o jogo dos nossos adversários. E teve um problema número dois, que era a logística. Nos colocaram num hotel que ficava a 30-40 minutos do Gigantinho. Não tinha outra quadra coberta para treinar. Para treinar em outras quadras, tinha que ir a outros lugares. A logística nessa semana foi muito ruim. A gente estava lá com seis jogadores e dois juvenis. Estavam o Franco Ferreiro como reserva de simples e o Bruno Soares como reserva da dupla. Tinha o Demoliner, que serviu como sparring de dupla, e se não me engano, o Clezar e o Zé Pereira como juvenis. Eram oito ou nove caras. Foi uma correria a semana inteira, das 7h à meia-noite, para mim e para o João Zwetsch, para dar os treinos. Quando chegou no dia dos jogos, eu e João estávamos muito cansados antes de os jogos começarem.

Frase Chico 9 -  -

Uma vez, numa troca de emails nessa época que você era capitão da Davis [por volta de 2008-2009], lembro que você falou que o tênis brasileiro iria se equiparar ao argentino em alguns anos. E você me disse "não vamos publicar isso porque a manchete dá a entender algo diferente do que é", e realmente não publicamos. Mas eu lembrei dessa história agora porque realmente a geração que veio depois do Del Potro na Argentina é inferior ao que era a Legião - aquela geração espetacular com Nalbandian, Gaudio, Coria, Chela e muitos outros. Mas a nossa não se equiparou...

É um assunto bem pertinente. Eu pensei aquilo não no sentido de que o tênis brasileiro fosse ficar igual ao argentino.

Claro.

O ponto era o nível. Na quantidade de jogadores bons, o tênis argentino estava numa queda. E uma queda que continua. Hoje, eles não têm o mesmo número de top 100 de 15-20 anos atrás. Devem ser uns cinco-seis no máximo [são cinco top 100 atualmente, e todos com mais de 27 anos]. Naquele momento, já havia uma dificuldade dos países sul-americanos de manter seus jogadores no topo. E, por outro lado, o tênis brasileiro vivia uma expectativa de melhora por tudo que a gente já conversou. A expectativa de Olimpíadas, Copa do Mundo, muito investimento, patrocínio dos Correios, o Projeto Olímpico do Guga e do Larri [que foi viabilizado pela CBT e durou apenas um ano]. A CBT, naquele momento, ainda estava com muita credibilidade perante o meio do tênis, com ex-jogadores apoiando, todo mundo levando fé naquela equipe de dirigentes. Eu, realmente, naquele momento, acreditava que a gente pudesse não desenvolver a cultura do tênis argentino, mas olhar o ranking da ATP e ter um número parecido de jogadores top 50 e top 100. Isso eu realmente pensei que pudesse acontecer, e não aconteceu por todos motivos que a gente conversou. O principal deles foi que a própria CBT começou a ter atitudes duvidosas, a entrar em conflitos internos... Criou o famoso "nós contra eles", e a coisa vai murchando. A gestão também se mostrou falha na parte econômica. Os projetos foram desaparecendo um a um até a situação em que estamos hoje.

Fala-se muito da garra argentina, que os tenistas de lá se esforçam mais do que os daqui. Até que ponto isso pesa?

Eu acho o seguinte: na Argentina existe uma cultura de esporte, que não é a cultura do futebol que existe no Brasil, onde tem que ser campeão. É como você colocou outro dia, que eu li e achei bacana. O Bellucci fez uma carreira sensacional, e um brasileiro fazer algo assim é muito raro. Talvez só o Guga, o Thomaz Koch e a Maria Esther tenham chegado mais longe do que ele. E no entanto, é um cara que ninguém conhece fora do tênis. E as pessoas no meio do tênis sabem que ele foi um grande jogador, mas desdenham um pouquinho, têm uma sensação meio duvidosa em relação a ele enquanto profissional. Isso é o exemplo de como as coisas funcionam no Brasil. Ou é número 1 ou não vale tanta coisa. O fato de não passar jogos de duplas na TV é sintomático. A gente tem 250 mil mesas redondas de futebol e nenhuma de outro esporte. No Bandsports rola, ali, de vez em quando, um debate com o Saretta e a Andrea Viera, mas é a única coisa que vejo acontecer num programa em que se debate o esporte em si. E eles [argentinos] têm cultura em vários esportes. Eles cultivam esse conhecimento. As pessoas que não são praticantes conhecem os jogadores, sabem mais ou menos como funciona. Isso é uma coisa.

E o que mais?

A segunda coisa é o fato de que na Argentina existe um cenário de escassez econômica. Não existem projetos megalomaníacos ou promissores na argentina. Todo mundo lá sabe o quão sacrificante vai ser uma carreira. Não resta dúvida desde o início. Não se vê na Argentina esse desespero por patrocinador que tem no Brasil. Os argentinos que não tem uma condição financeira de família sabem que vão ter que jogar torneios de grana [no meio do tênis, "torneio de grana" é uma expressão para se referir a eventos com premiação em dinheiro, mas que não contam para os rankings mundiais], que vão ter que jogar Interclubes, que quando eles forem para a Europa vão ter que contar cada centavo, que vão ter que parar em hotel pequeno, que cada dólar vai ter que investir na própria carreira e que quando tiver um dinheirinho sobrando eles devem investir num treinador - porque se não fizerem isso, a carreira vai estagnar. Então existe na Argentina um caminho duro, mas muito claro. Essa simplificação e essa clareza dividem quem é quem lá atrás. Não é que eles têm mais garra que os brasileiros. É que os argentinos que estão no tênis têm mais conhecimento dos sacrifícios e já tomaram essa decisão. No Brasil, a gente vê, por exemplo, muita gente que está ali brincando. O pai tem grana, é uma vida que parece confortável. Você soma essa elitização com a expectativa de aparecer um patrocinador ou um novo projeto dizendo "agora vai", isso faz com que nossos jogadores caminhem um pouco de olhos vendados, especialmente no início da carreira. E muitos se deparam com a realidade já com um certo nível. Já passaram dos Futures, e aí vão ver realmente o que é o tênis. Na Argentina, não tem atalho. No Brasil, a gente tem a cultura do atalho. Todo mundo está desesperado para encontrar o seu atalho. Na Argentina, ninguém nem pensa em atalho. Eles percorrem o caminho que todo mundo tem que percorrer.